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Uma empresa de 9 anos vale o mesmo que toda a bolsa brasileira
Publicado 26/05/2026 • 19:30 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 26/05/2026 • 19:30 | Atualizado há 1 hora
Reuters
Em 20 de maio, em um intervalo de 24 horas, o mercado global de capitais entrou em uma fase nova. A SpaceX protocolou seu S-1 público na SEC, formalizando o que deve ser o maior IPO da história, com valuation alvo entre US$ 1,75 trilhão e US$ 2 trilhões. No mesmo dia, CNBC e Wall Street Journal reportaram que a OpenAI está em vias de protocolar seu próprio filing confidencial, com Goldman Sachs e Morgan Stanley conduzindo o processo, mirando estreia em setembro a um valuation que pode superar US$ 1 trilhão.
Não é trivial. É uma janela rara para entender como o capital global está sendo precificado em 2026, e por que isso importa para quem aloca dinheiro a partir do Brasil.
Em 31 de março de 2026, a OpenAI fechou uma rodada de US$ 122 bilhões em commitments, a um valuation post-money de US$ 852 bilhões. O round foi liderado por Amazon (US$ 50 bi), NVIDIA (US$ 30 bi) e SoftBank (US$ 30 bi). É a maior captação privada da história.
No dia 10 de abril de 2026, o valor de mercado consolidado das 475 empresas listadas na B3 atingiu R$ 5,60 trilhões, aproximadamente US$ 1,02 trilhão ao câmbio atual. É o patamar mais alto desde junho de 2021, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria publicado por Einar Rivero.
Coloque os dois números lado a lado:
Uma empresa de nove anos, que ainda opera no prejuízo, está sendo precificada no mesmo patamar que toda a bolsa brasileira. A OpenAI fechou 2025 com US$ 13,1 bilhões de receita e segue queimando caixa. As projeções de mercado apontam US$ 14 bilhões de prejuízo em 2026.
Isso não é um juízo de valor sobre o Brasil. É uma constatação sobre como o mercado está precificando expectativa versus realidade. E aí mora a lição.
A OpenAI hoje negocia a aproximadamente 35 vezes a receita. Para contextualizar:
A OpenAI está sendo precificada a um múltiplo que nenhuma empresa de tecnologia listada sustentou em ciclo nenhum. A Petrobras, para efeito de comparação, negocia abaixo de 3x. A Vale, na mesma faixa.
A pergunta que cabe ao investidor não é "qual delas está cara". A pergunta é: o que cada múltiplo está embutindo como premissa?
O múltiplo de 3x da Petrobras assume que a companhia gera caixa hoje, dentro de uma indústria madura, com baixa expectativa de transformação estrutural. O múltiplo de 35x da OpenAI assume o oposto: que a empresa vai redefinir uma camada inteira da economia digital, capturar parte desproporcional do valor criado por essa transformação, e manter posição quase monopolística no processo.
São teses diferentes sobre o futuro, precificadas em escalas diferentes. Nenhuma das duas é, por si só, errada. Mas ambas exigem que o investidor saiba o que está comprando.
Vale lembrar que múltiplos extremos costumam ter vida curta quando não acompanhados de execução à altura. A própria NVIDIA, que vinha sendo o caso emblemático da última década, viu seu múltiplo recuar de 22x no pico de 2024 para os atuais 14x, mesmo entregando crescimento de receita e margem operacional. O ajuste não veio de uma queda do negócio. Veio da maturação das expectativas. É um movimento natural do ciclo, e que tende a se repetir quando o mercado começa a precificar com mais ceticismo o que antes precificava com fé.
Vale separar os dois IPOs em jogo, porque o mercado tende a tratá-los como se fossem o mesmo evento. Não são.
A SpaceX deve estrear ao redor de US$ 1,75 trilhão a US$ 2 trilhões. A companhia teve US$ 18,67 bilhões de receita consolidada em 2025 (após a aquisição da xAI em fevereiro de 2026), com prejuízo de US$ 4,9 bilhões no mesmo ano. No múltiplo de receita, isso coloca a SpaceX em uma faixa superior a 90x, ainda mais agressiva que a da OpenAI. A diferença é que a SpaceX já tem três linhas de receita operando em escala industrial (Starlink, lançamentos comerciais e contratos com governos), enquanto o prêmio do valuation embute uma camada adicional de expectativa sobre Starship e datacenters orbitais de IA.
A OpenAI, em comparação, tem perfil mais concentrado: a quase totalidade da receita vem de um único produto (ChatGPT e variantes corporativas), e o crescimento depende da manutenção de liderança técnica em uma corrida cada vez mais disputada por Anthropic, Google e laboratórios chineses como DeepSeek e Qwen.
Em comum: ambos estão sendo precificados em níveis que assumem execução perfeita por muitos anos consecutivos. A diferença está em onde mora o risco principal.
Em nota a clientes de 7 de abril, Greg Jensen, co-CIO da Bridgewater Associates, foi direto: o múltiplo implícito de 35x receita forward da OpenAI "está precificado para um resultado de monopólio que ainda não existe". Jensen aponta a comoditização de modelos de fronteira como o maior risco não precificado do round.
Do outro lado, Martin Casado, GP da a16z, defende o oposto: se acreditarmos que a OpenAI chega a US$ 125 bilhões de receita em 2028, o múltiplo cai para 6,8x receita forward, abaixo da NVIDIA e em linha com a Microsoft. Pela lógica dele, a precificação faz sentido.
A diferença entre os dois lados não é matemática. É uma aposta sobre se a OpenAI consegue executar a tese de monopolização que está embutida no preço. E essa aposta, hoje, está sendo feita por capital institucional global em volumes sem precedente.
Três coisas concretas.
Primeira: o capital alocado em IPOs trilionários de IA nos próximos seis meses sai de algum lugar. SpaceX (junho), OpenAI (setembro) e Anthropic (outubro provável) devem absorver, juntos, uma fatia relevante da liquidez institucional global. Historicamente, janelas de IPO de tecnologia dessa magnitude tendem a pressionar fluxo para fora de mercados emergentes no curto prazo. O fato de a bolsa de valores brasileira estar vindo de um trimestre forte de entrada de capital estrangeiro torna esse fluxo, na margem, mais sensível.
Segunda: a tese de monopolização precificada nesses ativos depende de execução e ausência de comoditização. Se algum dos dois fatores falhar, a correção de múltiplo é abrupta e tende a contaminar a percepção sobre o setor inteiro. O investidor brasileiro que quer exposição a essa tese precisa decidir se topa o downside, não só o upside.
Terceira, e mais importante: o exercício de comparar a OpenAI com a bolsa brasileira não serve para concluir que o Brasil está pequeno ou que os EUA estão caros. Serve para lembrar que múltiplos diferentes refletem expectativas diferentes sobre o futuro, e que a função do investidor é entender qual expectativa está sendo precificada em cada ativo do portfólio.
Quem quiser ganhar exposição direta a essa onda tem hoje três caminhos principais no Brasil: BDRs de empresas listadas nos EUA (Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, com nível de proxy à tese), ETFs internacionais (IVVB11, NASD11 e similares) e fundos com mandato global oferecidos por gestoras locais. Nenhum desses veículos dá acesso direto a OpenAI ou SpaceX antes do IPO, mas todos permitem capturar parte do movimento de reavaliação do setor caso a tese se confirme, e sofrem na hora em que ela for testada.
A OpenAI pode justificar US$ 1 trilhão. A bolsa brasileira pode valer muito mais do que vale hoje. Os dois cenários podem coexistir. O que não pode coexistir é a decisão de alocação tomada sem saber qual narrativa e fundamento está embutido em cada preço.
É para isso que se olha múltiplo.
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