Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Quando o caos interno toma conta: como recuperar o controle na empresa
Publicado 22/11/2025 • 19:11 | Atualizado há 2 semanas
CEO da Amazon revela qualidades que definem profissionais extraordinários
Trump quer tornar a indústria naval dos EUA grande novamente; veja o que será necessário e o que está em jogo
Altman e Musk criaram a OpenAI há 10 anos. Hoje, são rivais em um mercado de trilhões de dólares
ServiceNow quer comprar a startup de cibersegurança Armis em um negócio bilionário
CNBC Originals: Como o ChatGPT pode transformar as compras de fim de ano
Publicado 22/11/2025 • 19:11 | Atualizado há 2 semanas
KEY POINTS
Unsplash
Empresa
Há fenômenos silenciosos dentro das empresas que não aparecem nos relatórios, não surgem nos dashboards e não são discutidos nas reuniões de performance — mas determinam o destino de toda a organização.
Um deles é a entropia organizacional: o momento em que a empresa perde sua capacidade interna de produzir ordem, sentido e governança, e passa a operar em estado de deterioração crônica.
Ao contrário do que muitos imaginam, a entropia não começa no campo técnico; ela nasce nos pactos invisíveis que moldam o funcionamento cotidiano, congelam lideranças e alimentam narrativas defensivas. Quando esses pactos se estabelecem, áreas críticas deixam de operar como instituições e passam a se comportar como organismos caóticos, reativos e autoconsumidos.
Nas últimas análises clínicas que conduzi em ambientes industriais distintos, dois casos revelaram o mesmo padrão subterrâneo: a empresa acredita que está funcionando — quando, na verdade, está se desorganizando em silêncio.
Leia mais:
O que aprendi no Vale do Silício
A IA só gera valor quando vira estratégia — e quando a liderança entende o humano por trás do algoritmo
No primeiro contexto, a deterioração já tinha ultrapassado o limite do operacional. A área, que deveria ser estruturante para a confiabilidade e a continuidade da operação, havia perdido suas fronteiras técnicas, disciplina, método e capacidade de produzir memória organizacional.
A urgência ocupava o lugar do planejamento.
O improviso substituía a engenharia.
A correria era confundida com competência.
O sofrimento era celebrado como identidade profissional.
Esse ambiente não era apenas disfuncional — era entrópico.
As falhas se retroalimentavam.
As ações corretivas geravam mais corretivas.
As ações preventivas não implantadas.
Os dados não produziam decisão.
Os rituais não produziam governança.
A área havia deixado de existir como instituição. Tornara-se um grupo dominado por urgências, emoções defensivas e vínculos colapsados. A liderança, capturada pelo cotidiano, já não conseguia exercer sua função organizadora — tornara-se parte do problema.
Essa é a característica mais dura da entropia organizacional: ela transforma líderes em estabilizadores do caos.
Leia mais:
Liderar na era da IA: como evitar a gestão de superfície
Novo colapso silencioso das organizações modernas
No segundo caso, o colapso era de outra natureza, mas igualmente grave.
O gestor recém-chegado realmente entregava mais do que seus antecessores — mas isso apenas revelava o quão baixa estava a régua institucional. Ele acreditava estar “fazendo muito”, quando, na verdade, entregava muito pouco diante da exigência real da função.
Esse fenômeno, comum em empresas com histórico de deterioração, nasce quando a organização perde a capacidade de comparação com o necessário e passa a se comparar apenas com o passado.
O que deveria ser o mínimo passa a ser interpretado como extraordinário.
Esse gestor tinha convicção de sua alta performance — não por vaidade, mas por defesa.
Quando a exigência é alta demais e a entrega é baixa, o ego infla para proteger o sujeito da realidade. A narrativa cresce para substituir o impacto. A imagem se sobrepõe ao método.
Essa é outra forma de entropia: a institucionalização da mediocridade através de narrativas defensivas.
Quando isso acontece, a empresa se movimenta — mas não se transforma.
Embora distintos, ambos os contextos eram governados pelo mesmo mecanismo: pactos defensivos que impedem a transformação.
No primeiro caso, o pacto era: “Corremos tanto que não pode estar tão errado.”
No segundo, o pacto era: “Faço mais do que faziam antes, logo estou acima da média.”
Esses pactos são silenciosos, afetivos, subterrâneos.
Agem como anticorpos institucionais contra qualquer tentativa de mudança profunda.
Neutralizam diagnósticos.
Desarmam planos.
Distorcem indicadores.
Protegem lideranças insuficientes.
E mantêm a organização presa à repetição.
Quando pactos defensivos dominam a empresa, a entropia se instala — e cresce.
Por que metodologias falham em ambientes entrópicos
A resposta está na raiz simbólica do problema.
A tentação comum é reagir com ferramentas:
Nada disso funciona enquanto o pacto defensivo estiver vivo.
A empresa absorve, distorce e neutraliza qualquer iniciativa que não confronte seu núcleo inconsciente. O sistema reorganiza o próprio caos para se preservar.
A entropia só pode ser enfrentada onde ela nasce: nos pactos que sustentam a deterioração.
Leia mais:
Cultura do excesso: quando o sintoma vira sistema
O Brasil na era da inteligência artificial: liderança visionária, base desconectada
Se pactos defensivos mantêm a desordem, apenas pactos regenerativos conseguem instaurar nova ordem. Eles marcam o início de uma travessia institucional — e toda regeneração começa por eles.
Um pacto regenerativo exige coragem.
Coragem para dizer o que ninguém quer ouvir.
Coragem para desmontar narrativas protetoras.
Coragem para encerrar identidades que já não servem — a do gestor inflado, a do guerreiro exaurido, a da urgência como norma.
Exige também luto.
Luto pelo modo antigo de operar.
Luto pela falsa sensação de competência.
Luto pelo conforto emocional do improviso.
E exige método.
Voltar a ter fronteiras.
Voltar a ter disciplina.
Voltar a ter governança que produz decisão — não reunião.
Voltar a exigir consequência — não explicação.
Pactos regenerativos reorganizam o organismo institucional.
São a linha no chão que diz: “a partir daqui, outro modo de existir será necessário.”
A entropia organizacional não surge de um dia para o outro. Ela se instala quando pactos defensivos se tornam cultura, quando lideranças congeladas passam a mediar o caos e quando narrativas protetoras substituem responsabilidade.
As empresas que atravessam essa deterioração não são as que implementam mais ferramentas — são as que têm coragem de enfrentar seus pactos invisíveis.
Porque toda organização que recusa a travessia permanece presa ao ciclo que a destrói. E toda organização que cria pactos regenerativos descobre que a ordem não nasce do processo —
nasce da decisão de romper com a repetição.
Mais lidas
1
Flamengo: quanto o time faturou ao vencer o Pyramids no Intercontinental?
2
IG4 avança sobre a Braskem ao adquirir dívida bilionária da Novonor
3
Mega da Virada: ganhou o prêmio? Veja como sacar o dinheiro
4
O que a Netflix ganha ao comprar a Warner; saiba quais são as séries e filmes mais famosos
5
Mars conclui aquisição da Kellanova por US$ 36 bilhões e amplia presença em snacks