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Raphael Coraccini

Gasolina e diesel disparam acima do petróleo e refinarias lucram como nunca com a guerra

Publicado 10/08/2026 • 21:34 | Atualizado há 1 hora

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

Bomba de combustível

Foto: Magnific

As principais empresas de petróleo do mundo tiveram uma alta de 160% nos seus lucros no segundo trimestre. O destaque é das companhias que fazem o refino do petróleo e produzem diesel, gasolina e querosene de aviação. Isso porque o crack spread -- que é a margem de lucro das refinarias depois de tirar o preço do petróleo bruto e outros custos de produção -- está em patamares recordes. Ou seja, nem a disparada dos custos reduziu a capacidade de lucro dessas companhias.

Para se ter uma ideia dessa discrepância entre custos e receitas, no começo do mês de agosto, o barril do Brent registrava alta de cerca de 44% desde o início do ano (year to date). Mas a disparada da gasolina e do diesel no mercado internacional havia sido muito superior, de cerca de 100% na comparação com os preços praticados em janeiro de 2026. Nesta segunda, o barril do diesel subiu mais de 7%, acima da alta do Brent, de 5%, mesma valorização da gasolina.

Esse momento especialmente positivo para essas empresas está ligado a dificuldades de produção por conta da redução de refinarias disponíveis no Golfo Pérsico e na Rússia, por ocasião das guerras deflagradas no Oriente Médio (EUA/Israel x Irã) e no Leste da Europa (Rússia x Ucrânia). Isso abre espaço para que as empresas que operam mais distantes dessa geografia possam ser beneficiadas pelo ambiente bélico na região mais profícua na produção de petróleo e derivados. Enquanto as americanas Exxon Mobil e Chevron sobem mais de 35% na bolsa, a Saudi Aramco, com mais exposição ao conflito, valoriza perto de 10%.

Donald Trump reclamou que as empresas americanas de petróleo estão lucrando muito, em detrimento do bem-estar da população dos EUA. Ele tem razão, mas o próprio Trump -- talvez mais do que qualquer outro líder -- tem contribuído para esse ambiente. Seu abandono à Ucrânia e os ataques ao Irã tornaram o ambiente de pressão sobre os preços dos derivados ainda mais forte.

No Brasil, uma mudança na política de preços de combustíveis evitou uma disparada dos preços nos últimos anos, depois que o governo abandonou o PPI (Preço de Paridade Internacional), política que vigorou até meados de 2023.

Com a nova política, a defasagem dos preços do diesel aqui no Brasil para o internacional alcançou algo próximo de 80% até antes da guerra, enquanto o da gasolina bateu cerca de 50%, com a Petrobras segurando os preços, absorvendo parte importante do aumento dos custos com importação. Mesmo com os esforços da estatal, essa defasagem vêm caindo desde o início da guerra, com a gasolina abaixo dos 50%, e o diesel, aquém dos 60% dos preços internacionais.

Em suas receitas, a Petrobras tem uma participação proporcionalmente menor de refinados que outras petroleiras. Contudo, a empresa sobe na bolsa de valores no mesmo , mesmo patamar da Chevron e da Exxon Mobil, que refinam. Isso porque a empresa brasileira tem conseguido saltos importantes de produtividade, o que mantém seus resultados positivos. Inclusive, esses ganhos relevantes têm ajudado a companhia a exercer o controle do preço dos combustíveis sem que haja uma pressão dos acionistas por um retorno do PPI.

Mas só a manutenção da política atual de preços não parece suficiente. A Petrobras quer mais. Para não deixar o Brasil à deriva no mar bravio dos preços das commodities energéticas, a estatal tenta acelerar a produção local de combustíveis para conter a dispara estrutural dos preços da gasolina e do diesel.

A Petrobras anunciou que investirá no refino de petróleo para que o Brasil seja autossuficiente em diesel até 2030, escapando das variações do ambiente internacional. Assim, o país, além de ser autossuficiente em petróleo bruto, poderia controlar também o preço dos itens refinados.

O movimento nesse sentido já está em andamento, com pagamentos de dividendos mais discretos e o fortalecimento do caixa da estatal. Mas o próximo passo deve ser mais difícil: convencer os investidores minoritários que a empresa será capaz de ao mesmo tempo manter sua eficiência e atacar novas áreas de atuação.

Os problemas com refinarias desvelados durante a Lava Jato causam arrepio no mercado, mas o governo conta com a manutenção de lucros exorbitantes e crescentes da Petrobras para manter os dividendos gordos e seus investidores satisfeitos enquanto avança em novas frentes.

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