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Raphael Coraccini: Por que os juros no Brasil decolam como foguete e aterrissam como teco-teco?

Publicado 18/09/2026 • 11:15 | Atualizado há 3 horas

Foto de Raphael Coraccini

Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

KEY POINTS

  • Nesta semana, mais uma vez, o mercado parece ter autorizado o BC a baixar os juros em apenas 0,25 pp.
  • O efeito disso tudo tem sido uma decolagem acelerada da Selic nos momentos de aperto da política monetária e de lenta aterrissagem na fase de expansão.
  • No ano passado, o Brasil pagou exatos R$ 1 trilhão com juros da dívida. Em 2026, isso pode ser ainda maior.
Juros

Falando sem rodeios? Porque tem gente ganhando muito dinheiro com isso. O Brasil não vai quebrar, está muito longe disso, mas mesmo assim segue pagando um dos juros reais mais altos do planeta. Isso tem a ver com a capacidade de rentistas influenciarem decisões na esfera pública. Principalmente no Banco Central.

Nos últimos anos, as decisões de política monetária no Brasil têm seguido estritamente as projeções do setor financeiro privado. O boletim Focus mostra projeções para a Selic. O BC acompanha. É a profecia autorrealizável. Nesta semana, mais uma vez, o mercado parece ter autorizado o BC a baixar os juros em apenas 0,25 pp. Na verdade, essa é a única “profecia” que tem se realizado. O Focus erra sistematicamente as outras projeções — mais difíceis de influenciar — como PIB, inflação e dólar.

O efeito disso tudo tem sido uma decolagem acelerada da Selic nos momentos de aperto da política monetária e de lenta aterrissagem na fase de expansão. Isso é flagrante quando se olha a velocidade das altas e das quedas em cada um dos momentos. E, não por coincidência, essa tem sido a dinâmica desde a conquista da autonomia do Banco Central.

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Dados: Trading Economics

Aumento da dívida e concentração de renda

Outro efeito é uma concentração de renda assustadora no topo da pirâmide social, entre aqueles que não precisam necessariamente que o Brasil cresça para aumentar seus ganhos. O rendimento dos mais ricos sobe 8,7% contra 3,1% dos mais pobres. Os dados são do IBGE referentes a 2024.

Boa parte do crescimento da renda adicional dos mais ricos tem a ver com a alta rentabilidade dos títulos públicos que possuem. No ano passado, o Brasil pagou exatos R$ 1 trilhão com juros da dívida. Em 2026, isso pode ser ainda maior. Nos seis primeiros meses de 2026, esse desembolso foi de R$ 669 bilhões, segundo dados oficiais utilizados pelo governo federal.

É no mínimo inocência acreditar que é tecnicamente justificável os juros mais altos do mundo em uma economia equilibrada como a brasileira, com destaque para o comportamento dos preços, que deveria ser o barômetro das decisões do BC. A inflação deve fechar 2026 com o melhor resultado para quatro anos da história, enquanto os juros aqui competem com os de países em guerra e sob embargo econômico. Segundo o professor de Cambridge e da FGV Tiago Cavalcanti, o Brasil registra pelo menos dois pontos percentuais de juros injustificáveis.

Nesse cenário, vale perguntar por que o banqueiro central e seus diretores se prestam a isso, ajudar a enforcar a economia? A história mostra como a porta-giratória é movimentada pela força de agentes públicos que trafegam entre os setores público e privado. Isso acontece tanto no BC quanto em autarquias diversas voltadas à regulação, como Aneel, Embratel, Anvisa, entre outras. Mas com um diferencial: o poder privado se torna cada vez mais influente dentro do BC. A “conquista” da autonomia operacional da autoridade monetária mostra isso. Qual outra autarquia toma decisões sem prestar contas ao governo eleito pelo voto?

Se a autonomia do BC se tornar financeira e administrativa, parte importante do Orçamento público pode passar a pertencer ao BC e seu funcionalismo. Grupo de economistas alerta que se a autonomia se estender, cerca de R$ 20 bilhões anuais podem deixar o Tesouro Nacional para pertencer ao BC, agravando os problemas fiscais brasileiros, que o próprio Gabriel Galípolo, presidente do BC, alega ter entre as suas principais “preocupações”.

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