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Plano Safra desafia aperto fiscal com alta de 1,7%, mas juros e custos espremem margens no campo
Publicado 30/06/2026 • 13:28 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 30/06/2026 • 13:28 | Atualizado há 1 hora
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Agência CNA
Safra de Soja
O governo federal anunciou nesta terça-feira (30) o Plano Safra 2026/2027, com R$ 525,1 bilhões em recursos destinados a médios e grandes produtores rurais. O montante é R$ 9 bilhões superior ao disponibilizado no ciclo anterior.
Descontada a inflação setorial, o valor teve um aumento real de 1,7%. No entanto, houve uma redistribuição expressiva nos bastidores do crédito: o montante para custeio e comercialização recuou de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, enquanto as linhas de investimento saltaram de R$ 101,1 bilhões para R$ 140,2 bilhões.
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Por sua vez, o volume voltado ao Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) subiu de R$ 69,1 bilhões para R$ 72,6 bilhões, com teto de juros fixado em 9% ao ano. A agricultura familiar contará com R$ 89 bilhões.
O economista e sócio da Zapaz Consultoria Empresarial, Luiz Alexandre Cristaldo, aponta que o governo precisou enfrentar o desafio extra de inflar o plano mesmo sob um cenário fiscal restritivo e de juros elevados.
“Quando analisamos o cenário de inflação e o aumento no custo do crédito e dos insumos, esse crescimento perde parte da força. Em termos reais, muitos produtores sentirão que o poder de financiamento não avançou na mesma proporção das necessidades do setor. O aumento é positivo, mas dificilmente elimina todas as demandas de um agronegócio que continua crescendo e exigindo aportes cada vez maiores”, afirma.
Para Cristaldo, o sucesso do programa dependerá menos do valor anunciado e mais da velocidade de liberação do crédito, da segurança jurídica e da evolução da taxa Selic nos próximos meses.
Mesmo com o governo limitando os juros do Plano Safra, a Selic em patamares altos deve ditar o ritmo do crédito agrícola. Cristaldo explica que, nesse cenário, o mercado de capitais ganha protagonismo no financiamento do campo, exigindo do produtor um critério muito mais rigoroso na gestão financeira.
“Com a Selic elevada, o custo do dinheiro aumenta para todos. Até as linhas subsidiadas ficaram mais caras em diversas modalidades. Isso faz com que muitos produtores busquem fontes alternativas, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), Fiagros, CRAs e o crédito privado. O mercado de capitais vem ganhando importância justamente porque o crédito oficial, sozinho, já não comporta a demanda do setor”, aponta.
Muitos produtores dependem do Plano Safra para mitigar os prejuízos causados por extremos climáticos. O fenômeno El Niño, por exemplo, ameaça culturas estratégicas como soja, milho, trigo, café e até a pecuária.
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Além do aumento nas temperaturas médias, que pode chegar a 2,5°C, os impactos geográficos são severos: chuvas acima da média, enchentes e doenças fúngicas no Sul; estiagens severas e incêndios no Nordeste; ondas de calor que degradam pastagens no Centro-Oeste; e precipitações irregulares que castigam o café e a cana no Sudeste.
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Siga o Times | CNBCEssa quebra na produtividade afeta diretamente o bolso do consumidor. Historicamente, anos sob a influência do El Niño registram uma inflação alimentar quase duas vezes maior que os períodos de neutralidade. Em 2026, a alta pode atingir 15% nos preços de frutas, legumes e hortaliças, além de encarecer carnes e laticínios, pressionando o orçamento das famílias.
Apesar da expectativa de mais uma safra recorde, os produtores enfrentam custos operacionais que espremem as margens de lucro. Embora o pico de preços causado pela guerra na Ucrânia tenha passado, os insumos estabilizaram em patamares altos. O frete e o diesel, impactados pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, somam-se à pressão.
“O produtor tem um grande desafio na mão: ser mais eficiente na operação e extrair mais da terra mesmo em um cenário de custos elevados”, avalia Vitor Marques, especialista em inteligência de mercado da Markestrat.
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Três fatores externos explicam a rigidez nos preços dos fertilizantes: a China (maior exportadora global de MAP e DAP) adotou uma postura protecionista para abastecer o mercado interno; a Rússia mantém restrições aos nitrogenados devido ao conflito na Europa; e os bloqueios no Estreito de Ormuz geraram um choque na oferta de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fosfatados.
“Choques de oferta atrelados a conflitos geram um desbalanço nesses indicadores. O produtor acaba pagando mais caro pelas matérias-primas, o que encarece diretamente o custo de produção”, salienta Marques.
O lançamento do Plano Safra marca o início do planejamento do novo ciclo. Contudo, em um ambiente de alta inadimplência e níveis recordes de Recuperações Judiciais (RJs), o acesso ao dinheiro pode virar um gargalo.
O ano de 2025 fechou com 1.990 pedidos de RJ no agronegócio — um salto de 56,4% em comparação a 2024. Desse total, 217 partiram de produtores de soja, cultura muito afetada pela derrocada dos preços internacionais desde 2022.
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Estudos da CNA, em parceria com o Cepea, indicam que a margem bruta desses produtores recuou até 47,6% na safra 2025/2026, mesmo em terras próprias — cenário que piora quando há custos com arrendamento. Quem estiver inadimplente e não regularizar a situação pode ter o crédito negado.
“Estar endividado faz parte da dinâmica do agro e o produtor nessa situação, desde que renegociado, mantém as portas abertas. O problema real é a inadimplência. Se a parcela vencer sem uma ação legal ou administrativa, o nome entra em restrição técnica no sistema financeiro. Aí o crédito trava, independentemente do tamanho do patrimônio”, alerta Pedro Henrique Oliveira Santos, advogado especialista em Direito do Agronegócio.
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