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Entrelinhas de Mercado: “fazer mais com menos” continua impulsionando a inovação no setor, diz presidente da CNH Industrial
Publicado 18/08/2026 • 21:48 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 18/08/2026 • 21:48 | Atualizado há 1 hora
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A necessidade de “fazer mais com menos” continua acelerando a inovação nos mercados de máquinas agrícolas e de construção, mesmo em um cenário de juros elevados, pressão sobre a rentabilidade dos produtores e incertezas geopolíticas, segundo Rafael Miotto, presidente da CNH Industrial na América Latina. Para o executivo, tecnologia, conectividade e inteligência artificial ganham espaço justamente como instrumentos para elevar a produtividade e tornar as operações mais eficientes.
Em entrevista ao Entrelinhas de Mercado, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Miotto afirmou que, apesar das dificuldades enfrentadas atualmente pelos clientes, o ritmo de transformação tecnológica do setor continua avançando. “É um mercado que está com um dinamismo de inovação, de se reinventar, fazer mais com menos, que continua dando uma cadência naquela evolução que a gente vem vendo nos últimos anos”, destacou.
O cenário econômico ainda impõe desafios. A agricultura enfrenta pressões sobre a rentabilidade, enquanto custos, juros elevados e questões geopolíticas afetam as decisões de investimento. Na construção, o executivo vê uma atividade sustentada por obras de infraestrutura e projetos em andamento na região, embora também existam efeitos dessas mesmas pressões.
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“É um momento tenso do ponto de vista do nosso cliente final”, reconheceu Miotto. Ainda assim, é justamente nesse ambiente que a busca por eficiência ajuda a manter a inovação entre as prioridades da indústria.
A estratégia tecnológica da CNH, segundo Miotto, não se limita ao desenvolvimento de novas máquinas. A companhia reformulou há quase dez anos a maneira como organiza seus processos de inovação, adotando uma estrutura mais descentralizada.
“A gente decidiu fazer uma abordagem que chama de aberta, 360, descentralizada. É uma abordagem de inovação que funcionou para a gente e estamos investindo nela”, afirmou. Segundo o executivo, o modelo trouxe ganhos de produtividade, qualidade e consistência, que posteriormente chegam aos equipamentos utilizados pelos clientes.
Para Miotto, essa transformação interna é necessária para que a tecnologia produza resultados concretos na atividade agrícola. “Para você conseguir levar a inovação que precisa para um cliente final, a gente precisa fazer muito bem as coisas”, explicou. O objetivo final, acrescentou, é fazer com que esses avanços se convertam em “tecnologia no campo”.
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Um dos principais obstáculos para a digitalização da agricultura brasileira continua sendo a falta de cobertura de internet nas áreas rurais. Sem conexão, dados produzidos pelas próprias máquinas não conseguem ser aproveitados plenamente em tempo real.
“Tem um gap de conectividade enorme no Brasil ainda, na América Latina como um todo”, afirmou Miotto. Para enfrentar o problema, a CNH participa de iniciativas conjuntas inclusive com concorrentes e empresas de tecnologia, como o Conectar Agro, voltado à ampliação da conectividade rural.
Segundo o executivo, a instalação da infraestrutura necessária para conectar uma propriedade pode beneficiar também quem vive ao redor. “Nas parcerias que nós temos para colocar antenas, por exemplo, 4G numa operação agrícola, quase todas as vezes a gente ilumina uma região de municípios, escolas rurais, vários outros agricultores e comunidades que não tinham internet”, destacou.
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Mesmo com essas limitações, Miotto afirma que o país já apresenta núcleos de excelência mundial em tecnologia agrícola, embora ainda precise ampliar essas práticas para um número maior de produtores.
“O Brasil tem alguns núcleos de excelência que são os melhores do mundo em uso de tecnologia agrícola. Setor de cana-de-açúcar, as grandes operações de grãos e algodão”, afirmou. Na média da agricultura, porém, Europa e Estados Unidos ainda utilizam mais tecnologia.
A produtividade também apresenta diferenças conforme a cultura. “O Brasil ainda está um pouco atrás no milho, na produtividade por hectare, mas já começa a superar na soja”, explicou Miotto. Além disso, as máquinas brasileiras são utilizadas de forma mais intensa, trabalhando mais horas e mais hectares do que em outros mercados.
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Essa intensidade reduz o tempo necessário para recuperar o investimento feito no equipamento. “O equipamento no Brasil tem um retorno muito mais rápido, porque ele é usado muito mais do que é usado na Europa e Estados Unidos”, afirmou. O desafio agora, segundo o executivo, é “popularizar e democratizar mais o uso da tecnologia”.
Para elevar essa média, dois obstáculos precisam ser enfrentados: qualificação profissional e acesso aos investimentos. Miotto considera necessário ampliar educação, treinamento e formação para que trabalhadores e produtores conheçam as tecnologias disponíveis.
“A primeira é a educação. Eu acho que a gente ainda tem muito para fazer em relação à educação, treinamento e formação das pessoas no campo”, afirmou. A segunda questão é financeira: “Juros muito altos atrasam essa dinâmica da modernização”.
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O cenário já afeta diretamente a renovação do parque de máquinas. “A gente tem, naturalmente, o que eu chamaria de um atraso nos investimentos. Necessidade existe, o parque de máquinas, em geral, é um parque um pouco envelhecido em relação ao potencial que ele poderia ter”, explicou.
Para contornar essa dificuldade, a CNH busca identificar clientes para os quais a aquisição de uma nova máquina ainda pode produzir retorno rápido, além de oferecer alternativas de financiamento. “Nós temos trabalhado com linhas alternativas, usando, por exemplo, o dólar, e tentado entender a situação de cada cliente para achar uma forma de viabilizar”, disse Miotto.
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Siga o Times | CNBCA inteligência artificial já começa a ser utilizada pela CNH desde a fabricação até a operação das máquinas. Dentro das fábricas, a tecnologia auxilia no controle de qualidade, na engenharia, nas simulações e nos testes.
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“A gente está começando a usar muito mais tecnologias desse tipo para melhorar o processo de manufatura. Errar menos, fazer tudo com muito mais assertividade, controlar a qualidade na produção de um produto”, afirmou.
No campo, uma das aplicações mais importantes está na manutenção preditiva. As próprias máquinas podem identificar alterações que indiquem uma falha antes que o equipamento pare. “Hoje é muito comum você ter um código de erro que indica que vai acontecer algo. A antecipação do problema está cada vez mais comum”, explicou.
Miotto citou situações em que uma variação de temperatura já permite antecipar uma intervenção. “É muito comum a gente fazer atendimentos dizendo: variou uma temperatura, existe essa possibilidade, estamos mandando alguém na sua fazenda”, exemplificou. A mesma lógica, segundo ele, também é utilizada em máquinas de construção.
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O país também deixou de ser apenas consumidor das tecnologias globais da CNH. Equipes brasileiras já participam do desenvolvimento de softwares, componentes e máquinas utilizados internacionalmente.
“A gente tem pessoas aqui desenvolvendo software para os produtos do mundo inteiro”, afirmou Miotto. A companhia distribui projetos de acordo com a especialização das equipes, independentemente do mercado em que o equipamento será vendido.
O Brasil também ganhou importância como campo de testes por permitir ciclos agrícolas mais intensos. “Aqui temos safras seguidas. Às vezes, três, quatro safras já existem em alguns clientes. Você consegue dar muito mais horas em um prazo muito curto”, explicou.
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Essa característica permite inclusive testar no país máquinas destinadas a outros continentes. “Nós testamos aqui, por exemplo, hoje produtos que são para lançamento na Europa. Testados no Brasil em função do tipo de aplicação que a gente tem”, destacou.
Apesar do avanço da automação, Miotto não acredita em uma agricultura totalmente desvinculada da atuação humana. A tendência, segundo ele, é de transformação da função do operador.
“A minha visão é de que ele não sai durante muito tempo, mas se transforma mais num gestor operacional do que propriamente um piloto”, afirmou. O profissional poderá trabalhar remotamente ou até controlar mais de um equipamento, mas continuará participando da operação.
Para o executivo, a complexidade das atividades agrícolas também impõe limites a uma automação completa. “Essa automação, o autônomo robô a 100%, ele não vai acontecer. Vai continuar existindo o ser humano, vai ser uma composição, um trabalho em equipe entre máquina e pessoas”, avaliou.
A tecnologia, porém, deverá facilitar o treinamento e tornar os equipamentos mais intuitivos. “Vai ser mais fácil preparar alguém para operar, vai ser muito mais fácil subir numa máquina e intuitivamente sair trabalhando com ela”, explicou.
Atualmente, entre 70% e 80% da operação da CNH está ligada ao negócio agrícola, enquanto a construção responde por aproximadamente 20% a 30%, dependendo do ano. A companhia também possui uma operação de serviços financeiros, incluindo um banco no Brasil voltado ao suporte de agricultores e construtores.
A empresa atravessa, segundo Miotto, uma transformação que inclui expansão da rede de concessionários, integração maior com os clientes e escolhas mais seletivas sobre quais tecnologias desenvolver internamente. “A gente está num momento de transformação. […] Estamos meio que nos reinventando também em relação ao que a gente vai fazer no futuro”, afirmou.
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Um exemplo dessa mudança está nos drones de pulverização. Em vez de desenvolver integralmente uma solução própria, a CNH decidiu trabalhar com parceiros. “Foi um choque de realidade para nós, a gente sempre desenvolve tudo. Então estamos percebendo essa necessidade de nos reinventar também para trabalhar em ecossistema”, explicou.
Para os próximos anos, Miotto considera que o maior desafio será equilibrar as pressões atuais com os investimentos necessários para preparar a empresa para o futuro. “Como fazer isso e não parar de fazer o que eu preciso para construir o futuro da companhia versus uma entrega com a execução disciplinada do curto prazo”, afirmou.
O executivo resume essa estratégia em intencionalidade, execução disciplinada e impacto, inclusive na escolha dos projetos de inovação. “Não é inovar por inovar. Tem problemas mundanos para ser resolvidos em abundância no curto prazo”, ressaltou.
Miotto reconheceu que o ambiente atual exige cautela, especialmente no agronegócio. “Nós estamos numa crise da agricultura, tem que ser realista, sem parar de fazer o desenvolvimento do futuro da companhia. Esse é o grande desafio hoje”, concluiu.
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