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Análise: por que ações de semicondutores estão derretendo mesmo com os resultados recordes
Publicado 05/06/2026 • 15:38 | Atualizado há 50 minutos
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Publicado 05/06/2026 • 15:38 | Atualizado há 50 minutos
KEY POINTS
Na noite de quarta-feira (3), a Broadcom divulgou um dos melhores trimestres de sua história. Receita de US$ 22,19 bilhões, alta de 48% em relação ao mesmo período do ano anterior. Lucro por ação ajustado de US$ 2,44, acima dos US$ 2,40 que os analistas esperavam. Guidance de receita para o próximo trimestre em US$ 29,4 bilhões, superior ao consenso de Wall Street, que projetou US$ 28,54 bilhões.
Na manhã seguinte, as ações despencaram 15% na abertura. Fecharam o dia com queda de 12,6%, apagando US$ 286 bilhões em valor de mercado em uma única sessão. Na sexta-feira (5), recuam mais 5,8%.
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O que aconteceu diz muito sobre o momento atual do mercado de semicondutores, e sobre os riscos de um ralí que foi longe demais, rápido demais.
🔍 A Broadcom projeta e fornece semicondutores e software de infraestrutura para data centers, telecomunicações, redes corporativas e dispositivos conectados. No ecossistema de inteligência artificial, ocupa posição similar à da Nvidia: enquanto a Nvidia fornece as GPUs que processam os algoritmos, a Broadcom fabrica os controladores e switches de rede que conectam esses processadores dentro dos data centers. Com a aquisição da VMware, em 2023, por cerca de US$ 69 bilhões, passou a combinar hardware e software de infraestrutura em um único portfólio.
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Para entender a reação do mercado, é preciso olhar para o detalhe do balanço que importou para o mercado. O guidance geral de receita da Broadcom superou as expectativas. O que frustrou os investidores foi um número específico: a projeção de receita com chips de inteligência artificial para o terceiro trimestre fiscal, fixada em US$ 16 bilhões.
Na teleconferência com analistas realizada após o fechamento do mercado na quarta-feira (3), o CEO Hock Tan detalhou a composição da receita projetada - e foi ali que o problema apareceu. O valor de US$ 16 bilhões para chips de IA no terceiro trimestre representa alta de mais de 200% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas ficou cerca de 7% abaixo do consenso de sell-side compilado pela LSEG, que apontava para US$ 17,2 bilhões.
Neste setor onde as expectativas sobem a cada trimestre, manter a meta pareceu, para muitos investidores, uma sinalização de desaceleração, mesmo diante de números que, em qualquer outro contexto, seriam celebrados. E a diferença de 7% entre o que a Broadcom projetou e o que o mercado esperava foi suficiente para virar o humor dos investidores.
"Foi o guidance de receita de IA para o terceiro trimestre que pesou sobre as ações", resumiu Stacy Rasgon, analista da Bernstein.
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A Broadcom funciona, neste momento, como um termômetro do setor. Quando suas ações caem, o mercado interpreta o movimento como sinal de que o ciclo de IA pode estar perdendo força, e reage em cadeia.
O índice PHLX Semiconductor (SOX) recuou 7,6% na sexta-feira, o pior dia do ano para o setor. A última vez que o índice teve uma sequência tão negativa foi em 4 de abril de 2025, quando o setor afundou 16,7% em meio à turbulência tarifária.
🔍 SOX O PHLX Semiconductor Index reúne as principais fabricantes e designers de chips listados em bolsa nos Estados Unidos. É o principal índice de referência do setor de semicondutores.
Micron - que tinha acabado de entrar no clube do trilhão - recuou 9,7%, AMD caiu 9,3%, Intel cedeu 8,6% e Nvidia perdeu 5%. Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC) recuou 5,3%. Arm, Marvell e Rambus, papéis que haviam disparado no início da semana após o CEO da Nvidia, Jensen Huang, sugerir que a empresa poderia entrar no clube das companhias avaliadas acima de US$ 1 trilhão, também figuraram entre as maiores baixas.
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A Broadcom não está sozinha nessa armadilha. A Nvidia, que se tornou o símbolo do ralí de IA, enfrenta o mesmo paradoxo há trimestres: quanto mais cresce, maior é a régua com que o mercado a mede.
A diferença, por enquanto, é que a Nvidia ainda tem conseguido superar expectativas que já chegam infladas. Mas o episódio da Broadcom serve como alerta. Em algum momento, qualquer empresa, por maior que seja o crescimento, encontra o teto do que o mercado consegue precificar como "suficiente".
Executivos da Arm Holdings parecem ter intuído esse risco. Entre meados de maio e início de junho, venderam cerca de US$ 25,6 milhões em ações, perdendo o pico histórico dos papéis, mas saindo antes da reversão que se seguiu.
O contexto importa. O SOX acumulou alta de cerca de 69,1% em abril e maio. Micron avançou 187,4% no período. Sandisk subiu 166,8%. Em nove semanas, o índice de semicondutores subiu 71%, ritmo que, segundo Jonathan Krinsky, estrategista-chefe do BTIG, só foi superado uma vez na história: em 10 de março de 2000, o pico da bolha da internet.
"Cautela em perseguir força adicional de momentum de alto beta em junho", escreveu Krinsky em nota na semana passada.
O alerta não chegou a tempo para boa parte do investidor pessoa física. Segundo dados da corretora eToro, o volume de compras de varejo em maio foi o maior do ano, concentrado justamente em semicondutores, Nvidia, Micron, Sandisk, Intel e AMD, além de ETFs como o iShares Semiconductor (SOXX). Quem entrou no início do ralí colheu ganhos expressivos. Quem chegou nas últimas semanas sente agora o impacto da reversão.
A sessão de sexta-feira ainda teve um agravante externo. O relatório de empregos de maio nos Estados Unidos superou as estimativas de Wall Street, o que reacendeu o debate sobre uma possível alta de juros pelo Federal Reserve até o fim do ano.
🔍 Payroll Relatório mensal do governo americano que mede a criação de empregos no setor privado e público dos Estados Unidos. É um dos principais indicadores para avaliar a saúde da economia e as decisões de política monetária do Federal Reserve.
"O mercado de trabalho está muito bom, enquanto a inflação está alta", avaliou Russell Price, economista-chefe da Ameriprise Financial, em entrevista nesta sexta. "Certamente é positivo ver criação de empregos, mas se isso coloca os consumidores em melhor posição para continuar gastando, isso também tende a elevar a inflação."
O yield do Treasury (rendimento do Tesouro americano) de 2 anos avançou para 4,176% e o de 10 anos foi a 4,545%. Para ações de crescimento e tecnologia, que dependem de capital barato para sustentar valuations elevados, um ambiente de juros altos por mais tempo é historicamente desfavorável.
A Broadcom não fez nada de errado. Cresceu, lucrou, gerou caixa e projetou mais crescimento. O mercado a puniu assim mesmo, porque errou, errou ao precificar algo ainda maior. Acontece.
Esse é o risco. Quando as expectativas sobem mais rápido do que os resultados, qualquer número bom pode parecer insuficiente. E quando o setor inteiro opera com essa mentalidade, a correção, quando vem, não poupa ninguém.
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