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Allan Ravagnani AI-451

Anthropic fez a Amazon vencer uma corrida que já tinham dada como perdida

Publicado 29/05/2026 • 12:00 | Atualizado há 12 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • Bedrock cresceu 170% em um trimestre e hoje representa 37% da receita de IA da AWS, com 80% dos clientes usando modelos da Anthropic
  • AWS saiu de "retardatária" para líder em margens de IA ao apostar em Token-as-a-Service quando concorrentes priorizavam contratos de infraestrutura
  • Anthropic chegou a US$ 30 bilhões em receita anualizada puxada pelo Claude Code, mas quem mais lucrou com essa trajetória foi a Amazon
Amazon Bedrock: o serviço que posicionou a AWS na liderança de margens da era da IA

Imagem gerada por inteligência artificial

Amazon Bedrock: o serviço que posicionou a AWS na liderança de margens da era da IA

Deve existir um tipo específico de constrangimento intelectual que acomete analistas de mercado, aquele momento em que o relatório publicado com convicção numa terça-feira precisa ser revisto na quinta porque o universo simplesmente ignorou sua análise e fez o contrário.

A SemiAnalysis, uma das firmas de pesquisa mais respeitadas do setor de semicondutores e infraestrutura de dados, passou por isso com a Amazon em 2023, quando foi uma das primeiras a declarar, publicamente e com números, que a AWS havia perdido a corrida para a inteligência artificial. A liderança havia adormecido, o investimento tinha chegado tarde e os concorrentes, principalmente Microsoft e Google, estavam vários passos à frente. O diagnóstico fazia sentido, o problema é que o paciente não morreu.

Dois anos depois, a mesma firma voltou aos dados e encontrou uma história diferente, a única grande provedora de nuvem com margem operacional em trajetória genuinamente ascendente num setor onde Oracle e CoreWeave decepcionaram o mercado, onde o Azure mantém tendência de queda e onde o Google Cloud infla os próprios números ao não incluir os custos de treinamento do DeepMind na conta do segmento. A AWS não apenas recuperou terreno como montou, quase sem anunciar, a estrutura de negócios mais lucrativa da era da IA em nuvem.

O nome do instrumento é Bedrock. Sim, o nome da cidade dos Flinstones.

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Retardatária que venceu a corrida, como nos desenhos

O Bedrock é um serviço da AWS que permite a empresas acessar modelos de linguagem de diferentes fornecedores, incluindo os da Anthropic, com toda a infraestrutura de segurança, conformidade e faturamento unificado que os clientes corporativos exigem. No papel, é uma vitrine de modelos. Na prática, é um negócio de distribuição de inteligência artificial que cresceu 170% num único trimestre e hoje representa 37% de toda a receita de IA da AWS, partindo de 9% um ano antes.

Entre os clientes do Bedrock, 80% a 90% usam modelos da Anthropic, o que torna a pergunta sobre quem realmente é o protagonista dessa história menos óbvia do que parece.

O mercado entendeu a AWS como uma empresa de infraestrutura que chegou tarde aos modelos. O que a empresa fez, sem muito alarde, foi decidir que não precisava ganhar a batalha dos modelos para ganhar a batalha do dinheiro.

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Amazon quer vender pensamento, não ferro

A distinção que explica as margens está numa diferença aparentemente técnica entre dois tipos de negócio. Quando uma empresa como Oracle ou CoreWeave vende capacidade de nuvem para clientes de IA, o modelo é o de sempre: contrato de infraestrutura de múltiplos anos, receita previsível, margem apertada, pouquíssima diferenciação. É vender ferro com preço acordado.

Quando a AWS distribui tokens da Anthropic pelo Bedrock, a lógica é outra. A Anthropic aparece como vendedora de registro, os clientes pagam na fatura da AWS, e a Amazon fica com uma taxa de infraestrutura mais uma participação na receita. É vender pensamento no atacado, com margem de distribuição embutida.

O resultado concreto, segundo a análise da SemiAnalysis, é que o Bedrock respondeu por 30% do crescimento de lucro bruto da AWS em termos absolutos no primeiro trimestre de 2026, mesmo representando apenas 4% da receita total da empresa. A matemática é generosa para quem está no meio da cadeia.

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Conta que fecha no bolso errado

Aqui a ironia se completa. A Anthropic, empresa que a AWS ajudou a crescer com investimentos de bilhões de dólares e que fornece o produto que sustenta o Bedrock, chegou a abril deste ano com US$ 30 bilhões em receita anualizada, um número que superou a OpenAI pela primeira vez na história e que representa uma das trajetórias de crescimento mais rápidas já registradas num negócio de software.

O Claude Code, ferramenta de programação com inteligência artificial lançada publicamente em 2025, foi o principal motor dessa aceleração, saindo de zero para mais de US$ 2,5 bilhões em receita anualizada em poucos meses.

O que os números da SemiAnalysis sugerem, sem dizer explicitamente, é que a AWS está capturando uma fatia considerável do valor que a Anthropic gera antes que esse valor chegue ao balanço da startup.

A Anthropic cresce, a AWS cresce junto, e as margens da Amazon sobem enquanto as da Anthropic ainda correm para equilibrar os custos de inferência, que saíram de margem negativa em 2024 para positiva em 2026, mas num ritmo que a crescente demanda continua pressionando.

O analista que em 2023 escreveu o relatório chamando a AWS de retardatária não estava errado sobre os fatos. Estava errado sobre o que a Amazon ia fazer com eles. Como sempre.

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