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“É muito tempo com juros na estratosfera”, diz presidente do IDV ao comentar o ‘tripé’ que pressiona varejo

Publicado 22/08/2026 • 06:00 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Juros elevados encarecem o capital de giro e comprimem os resultados de empresas que precisam financiar estoques e vendas parceladas.
  • Pequenos e médios varejistas sofrem ainda mais com menor poder de negociação e concorrência de produtos importados, segundo o IDV.
  • Apostas retirariam bilhões de reais por mês do consumo e já provocariam impactos que vão além da economia e atingem famílias.

Os juros elevados, o avanço das apostas e a concorrência de produtos importados formam hoje um “tripé” difícil de ser suportado pelo varejo brasileiro, segundo Jorge Gonçalves Filho, presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV). Em entrevista nesta sexta-feira (21) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele afirmou que o custo do crédito comprime as margens das empresas e ajuda a explicar o aumento das recuperações judiciais no setor.

Para Gonçalves Filho, o problema vai muito além da taxa básica de juros. “É muito tempo com juros na estratosfera. 14% de Selic. Mas, se você vai buscar capital de giro, está 25%, 30% ao ano. Isso é praticamente impossível de se manter numa empresa, obter resultado”, afirmou.

Além dos juros, o presidente do IDV apontou o dinheiro direcionado às bets e a entrada de mercadorias importadas como pressões adicionais sobre o consumo e a competitividade das empresas brasileiras. “É um tripé muito difícil do varejo suportar”, resumiu.

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Crédito consome resultado das empresas

Mesmo entre as grandes redes, a combinação de crédito caro e necessidade de financiar estoques tem reduzido significativamente os resultados. Segundo Gonçalves Filho, entre as empresas associadas ao IDV, medidas vêm sendo tomadas para evitar situações mais graves.

“O que nós estamos vendo é que os resultados são muito pequenos, porque o juro está comendo o resultado, o capital de giro”, explicou. O executivo lembrou que o varejo trabalha com estoques elevados e, por isso, é particularmente exposto ao custo financeiro.

As vendas parceladas também pesam nessa conta. “Quando nós fazemos em dez vezes sem juros, por exemplo, aquele dinheiro que vem mês a mês, se você antecipar, tem um custo elevado, como eu falei, de 25% a 30% ao ano”, afirmou. Segundo ele, “o cliente não sabe, mas quem paga esse parcelado sem juros é o nosso resultado”.

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Pequenos e médios sofrem mais

A pressão é ainda maior sobre pequenas e médias empresas, que possuem menos capacidade para negociar suas dívidas. “O pequeno e o médio, que têm menor poder de barganha nas negociações das suas dívidas, estão sofrendo bastante”, disse Gonçalves Filho.

O presidente do IDV destacou especialmente a situação dos segmentos de vestuário e calçados, diante da concorrência com mercadorias vindas do exterior. Segundo ele, empresas brasileiras precisam cumprir exigências que aumentam seus custos, enquanto produtos estrangeiros chegam ao mercado em condições diferentes.

“O pequeno e médio está sendo prejudicado, inclusive a sacoleira. O pessoal está vendo que não está conseguindo pôr seus produtos, porque o produto que vem da China vem com preço subsidiado”, afirmou. Segundo Gonçalves Filho, há casos em que “o preço é abaixo do custo da matéria-prima”.

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Fornecedores e mercado fraco

Nas empresas em recuperação judicial, a relação com os fornecedores também pode ficar mais difícil. Gonçalves Filho avalia, porém, que companhias tradicionais ainda podem encontrar apoio para manter seus estoques, embora enfrentem condições comerciais menos favoráveis.

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“Você perde um pouco de prazo de pagamento, tem uma certa dificuldade, mas acho que a dificuldade maior do que o fornecedor é realmente o custo dos juros e o mercado que não tem crescido”, afirmou.

Segundo o presidente do IDV, o último dado citado pelo setor mostrou crescimento de apenas 0,8% em 12 meses, enquanto o varejo acumula um período prolongado de desempenho fraco. “Nós estamos há 18 meses com queda real no mercado de varejo. Então, é muito tempo com o mercado arrefecido por diversos motivos”, ressaltou.

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Ajustes não dependem apenas dos juros

Uma redução dos juros ajudaria a aliviar o setor, mas não eliminaria a necessidade de mudanças dentro das próprias empresas. “Isso não tira a necessidade, muitas vezes, de você fazer ajustes nas empresas, porque o varejo é muito dinâmico”, explicou Gonçalves Filho.

Entre esses movimentos estão a abertura e o fechamento de unidades conforme o desempenho de cada região. Para ele, essa adaptação faz parte da rotina das grandes redes. O problema se intensifica quando fatores externos tornam o ambiente mais difícil e obrigam as empresas a promover mudanças maiores.

Gonçalves Filho afirmou que, entre janeiro e junho, setores que considera mais prejudicados pela concorrência de importados, como vestuário, calçados e bens pessoais, perderam 60 mil empregos. “Todo bom varejista sabe que os ajustes são constantes, o mercado é muito volátil, mas, quando você tem alguns fatores que estão prejudicando muito o mercado, o ajuste pode ser um pouco mais forte”, pontuou.

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Bets pressionam consumo e famílias

Outro foco de preocupação do IDV está no dinheiro direcionado às apostas online. Gonçalves Filho reconheceu que os números sobre o mercado são controversos, mas afirmou que o instituto utiliza como referência, entre outros dados, a arrecadação tributária informada pelo governo.

“Se você fizer um cálculo ao contrário, quer dizer, partir do imposto, fazendo a recomposição, nós vamos chegar aí a mais de R$ 30 bilhões por mês retidos em bets”, afirmou. Ele acrescentou que a presença de plataformas ilegais ampliaria ainda mais o volume de recursos direcionado às apostas.

Para o presidente do IDV, entretanto, o impacto mais preocupante não está apenas na redução do dinheiro disponível para o consumo. “A gente tem vários relatos e está estudando profundamente esse assunto de destruição de famílias, destruição de pessoas que preferem sair da empresa para pegar aquele dinheiro e pagar dívidas de bets”, afirmou.

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Segundo Gonçalves Filho, os efeitos das apostas passaram a atingir diferentes dimensões da vida dos consumidores. “Isso se espalha de uma forma na sociedade que vai além da questão econômica”, concluiu.

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