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Lucros recordes em Wall Street levam Europa a rever regras para impulsionar seus bancos

Publicado 16/07/2026 • 11:50 | Atualizado há 54 minutos

KEY POINTS

  • A Comissão Europeia avalia uma ampla flexibilização das regras do setor bancário para aumentar a competitividade das instituições financeiras do bloco;
  • Bruxelas quer reduzir a distância entre os bancos europeus e os grandes concorrentes dos Estados Unidos;
  • As propostas, que devem ser apresentadas nesta sexta-feira, podem elevar a rentabilidade dos bancos, estimular fusões transfronteiriças e criar instituições com escala global.

AFP

Enquanto os grandes bancos de investimento dos Estados Unidos registram uma temporada de resultados recordes, os concorrentes europeus seguem atrás. Agora, um movimento de desregulamentação em discussão na União Europeia pode representar um impulso importante para o setor bancário do continente.

Em jogo está a capacidade da Europa de criar bancos com porte suficiente para competir com gigantes de Wall Street, que vêm ampliando sua participação nos mercados de negociação de ativos, banco de investimento e mercado de capitais há mais de uma década.

A proposta da Comissão Europeia pode reduzir exigências de capital, liberar recursos dos balanços das instituições financeiras e facilitar fusões entre bancos de diferentes países do bloco, remodelando um setor frequentemente considerado excessivamente fragmentado.

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As medidas serão detalhadas em um relatório sobre a competitividade do sistema bancário europeu, previsto para ser divulgado nesta sexta-feira, e servirão de base para mudanças legislativas previstas para 2027.

Segundo informações divulgadas pelo Financial Times, Bruxelas pretende eliminar parte das exigências do chamado Pilar 2, conjunto de regras que permite aos reguladores nacionais impor requisitos adicionais de capital além do índice mínimo de alavancagem de 3% estabelecido pela União Europeia.

Uma versão preliminar do relatório também prevê a redução dos colchões extras de capital exigidos dos bancos, simplificação das obrigações de prestação de informações e novos detalhes sobre a criação de um sistema europeu comum de garantia de depósitos, iniciativa considerada essencial para destravar a consolidação bancária entre países do bloco.

Europa tenta acompanhar Estados Unidos e Reino Unido

Caso sejam implementadas, as mudanças representarão uma das maiores reformas regulatórias do setor bancário europeu em anos. A iniciativa acompanha movimentos semelhantes adotados por reguladores dos Estados Unidos e do Reino Unido, que também estudam flexibilizar regras para os bancos.

Nos EUA, por exemplo, autoridades propuseram reduzir em cerca de 5% as exigências de capital para as maiores instituições financeiras.

Para Jakub Lichwa, integrante da equipe de gestão de portfólios da TwentyFour Asset Management, os reguladores europeus buscam evitar que o setor financeiro do bloco fique em desvantagem competitiva.

“As autoridades europeias estão atentas às mudanças regulatórias no Reino Unido e nos Estados Unidos e simplesmente não querem colocar os bancos europeus em posição desfavorável”, afirmou.

Segundo ele, menores exigências de capital podem elevar o retorno sobre o patrimônio (ROE) das instituições financeiras, tornando suas ações mais atrativas para investidores. Ainda assim, Lichwa ressalta que a flexibilização, por si só, não melhora a eficiência operacional dos bancos, embora possa fortalecer sua competitividade em relação aos rivais globais.

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Bancos dos EUA ampliam vantagem

A discussão ocorre enquanto bancos americanos apresentam resultados acima das expectativas no segundo trimestre. JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo e Goldman Sachs divulgaram lucros impulsionados pelo forte desempenho das mesas de negociação e pela retomada das operações de fusões e aquisições.

Na Europa, investidores aguardam os resultados de instituições como Santander, UniCredit, UBS e Deutsche Bank, previstos para o fim deste mês.

Para Andrew Stimpson, chefe de pesquisa sobre bancos europeus da KBW, a mudança de postura da União Europeia pode incentivar novas operações de consolidação e fortalecer a confiança dos executivos do setor.

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“A Europa percebeu que compete em um mercado global e que apenas simplificar algumas regras bancárias não será suficiente para alcançar seus objetivos estratégicos”, afirmou.

Defesa, inteligência artificial e energia exigem bancos mais fortes

Segundo Stimpson, líderes europeus reconhecem cada vez mais que o continente enfrenta desafios estratégicos relacionados à defesa, infraestrutura de inteligência artificial e transição energética — áreas que exigem grandes volumes de investimento.

“Para enfrentar essas fragilidades, a Europa precisa que seus bancos e seus mercados de capitais financiem esses projetos. Dizer a um banco que ele precisará preencher um formulário em vez de vinte não fará esses investimentos acontecerem”, afirmou.

Na avaliação do analista, o relatório desta sexta-feira deverá abordar não apenas a desregulamentação do setor, mas também mudanças legais voltadas a facilitar fusões entre bancos de diferentes países da União Europeia.

“O objetivo é permitir que a Europa tenha instituições financeiras com escala suficiente para competir tanto dentro quanto fora do continente.”

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Consolidação ainda enfrenta obstáculos

A consolidação bancária entre países europeus é vista há anos como um passo fundamental para criar grandes instituições capazes de competir com os bancos americanos.

Essa estratégia está alinhada ao objetivo do Banco Central Europeu (BCE) de estabelecer uma verdadeira união bancária, com livre circulação de capital e liquidez entre instituições e proteção uniforme aos depositantes.

Na prática, porém, operações desse tipo ainda enfrentam resistência política.

Um exemplo é a tentativa do italiano UniCredit de assumir o controle do alemão Commerzbank, operação que esbarrou em obstáculos jurídicos e na oposição do governo da Alemanha, que continua sendo o segundo maior acionista do banco.

Segundo Stimpson, os bancos americanos acumulam uma vantagem significativa de escala e vêm conquistando participação de mercado sobre os concorrentes europeus há cerca de 15 anos, principalmente no mercado de capitais.

“É possível reduzir essa diferença, mas isso exigirá grandes fusões transfronteiriças na Europa. E esse é um processo que levará tempo”, afirmou.

Caroline Liesegang, diretora de gestão de capital e riscos da Associação para Mercados Financeiros da Europa (AFME), afirmou que a fragmentação do sistema bancário europeu, as restrições ao uso de capital e liquidez entre países e a complexidade regulatória continuam limitando a capacidade dos bancos de financiar o crescimento econômico.

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Ela defendeu que a Comissão Europeia adote medidas ambiciosas para eliminar o que classificou como “barreiras desnecessárias” e tornar mais eficiente a alocação de capital no bloco.

“Agora é hora de transformar o diagnóstico em ação”, afirmou. “As propostas legislativas previstas para o início de 2027 representam uma oportunidade decisiva para fortalecer a competitividade do setor bancário da União Europeia.”

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