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ONU perde força e mundo entra em ciclo de mais conflitos e menos cooperação

Publicado 23/09/2026 • 15:57 | Atualizado há 50 minutos

KEY POINTS

  • Sidney Leite avalia que a ONU preserva relevância como palco internacional, mas perdeu capacidade de construir consensos entre os países.
  • Professor afirma que conflitos atuais mostram um mundo mais orientado pela disputa de poder entre potências do que pela cooperação internacional.
  • Inteligência artificial ganhou peso nas relações internacionais, mas cenário de rivalidade dificulta uma regulamentação com alcance global.

O avanço das disputas entre grandes potências e a multiplicação de conflitos reduziram a capacidade da Organização das Nações Unidas (ONU) de funcionar como espaço efetivo de cooperação internacional, na avaliação de Sidney Leite, professor de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco. Para ele, a instituição mantém importância como palco para líderes mundiais, mas enfrenta dificuldades crescentes para transformar os debates em consensos.

Em entrevista nesta quarta-feira (23) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Leite avaliou que o cenário internacional está cada vez mais distante de uma lógica multilateral. “A ONU continua sendo um palco de repercussão internacional das falas, dos discursos, porém ela perdeu muito do seu poder de deliberar”, disse. Segundo ele, esse enfraquecimento não ocorreu apenas nos últimos anos, mas se desenvolveu ao longo de décadas.

A análise ocorreu em meio aos discursos dos líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU, marcada pelas tensões entre Estados Unidos e Irã e por debates envolvendo conflitos armados, inteligência artificial e as transformações da ordem internacional.

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Irã entra no debate eleitoral dos EUA

Leite considera que o conflito com o Irã terá repercussões que ultrapassam a política externa americana e chegam ao debate doméstico nos Estados Unidos. Segundo o professor, as consequências econômicas da crise, especialmente sobre os preços do petróleo e dos combustíveis, aproximam o tema diretamente do eleitor.

Qualquer discurso tem um impacto enorme no preço do barril do petróleo. E, nesse sentido, chega no bolso do consumidor americano, notoriamente no preço da gasolina”, explicou. Para Leite, o tema tende a permanecer presente nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.

Na avaliação do professor, o Irã também expôs uma vulnerabilidade estratégica dos Estados Unidos ao demonstrar capacidade de pressionar a circulação de petróleo pelo Estreito de Ormuz e atingir bases e infraestruturas de aliados americanos. Ele classificou a decisão de iniciar um conflito armado com o país como o maior erro da política externa de Donald Trump.

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Tecnologia muda equilíbrio dos conflitos

Outro ponto destacado por Leite foi a crescente ligação entre inteligência artificial e poder militar. O professor citou o emprego de novas tecnologias em conflitos envolvendo Irã e Ucrânia para argumentar que recursos tecnológicos passaram a reduzir, em determinadas circunstâncias, parte da vantagem tradicional de países com forças armadas maiores.

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As guerras do século XXI são guerras em que a tecnologia contrabalançou um pouco aquela assimetria”, avaliou. Para ele, grandes exércitos e poder bélico convencional continuam decisivos, mas a capacidade tecnológica e a atuação geopolítica ganharam peso crescente nos conflitos contemporâneos.

Leite também apontou a inteligência artificial como um dos grandes desafios da agenda internacional, por seus efeitos sobre cidadãos, empresas e relações entre Estados. O obstáculo, segundo ele, está em construir regras comuns em um ambiente marcado por rivalidades.

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A grande dificuldade é conseguir um consenso que leve a uma regulamentação que tenha uma dimensão global. Eu diria que isso hoje é impossível”, ponderou. Para o professor, o atual ambiente internacional impede, neste momento, a criação de uma regulamentação de IA com eficácia mundial.

Conflito ganha espaço sobre cooperação

Ao analisar as acusações envolvendo o Irã e grupos classificados como terroristas, Leite afirmou que seria contraditório esperar que um Estado reconhecesse publicamente o emprego desse tipo de estratégia. Segundo ele, Teerã não admitiria financiar ou apoiar ações de grupos terroristas.

O professor encerrou a análise com uma avaliação mais ampla sobre a deterioração do ambiente internacional. “Desde a Segunda Guerra Mundial, nós não tivemos tantos conflitos acontecendo simultaneamente”, ressaltou.

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Para Leite, as perspectivas apontam para a continuidade das disputas entre Estados e para um enfraquecimento do multilateralismo. “O mundo [está] muito mais hoje dominado pela política das superpotências e das potências do que propriamente pelo multilateralismo”, concluiu.

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