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Impacto do tarifaço: queda de exportações para os EUA já era esperada, mas Brasil compensou diversificando destinos

Publicado 05/09/2025 • 13:10 | Atualizado há 10 meses

KEY POINTS

  • Queda de 18,5% nas exportações para os EUA era esperada e reflete tanto o impacto das tarifas quanto a antecipação de embarques em julho, segundo analistas.
  • Diversificação para mercados como China, México, Argentina e Índia ajudou a compensar parte das perdas e deve orientar a estratégia brasileira nos próximos meses.
  • Setores como café, carnes e frutas enfrentam maiores riscos no médio prazo, enquanto produtos agrícolas como soja demandarão tempo para encontrar novos destinos.

A balança comercial brasileira registrou em agosto superávit de US$ 6,1 bilhões, com exportações de US$ 29,8 bilhões e importações de US$ 23,7 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, o país somou US$ 227,6 bilhões em vendas externas, recorde histórico para o período.

O resultado mostra que, apesar da queda das vendas para os Estados Unidos, em razão do tarifaço importo aos produtos brasileiros pelo governo de Donald Trum, o volume agregado de vendas externas ficou próximo ao dos últimos dois ou três anos. Esse equilíbrio é resultado de ações de diversificação de destinos, demonstrada pelo aumento significativo das vendas para mercados como China, México e Argentina.

O dado central das contas foi a queda de 18,5% nas exportações para os Estados Unidos, que passaram de US$ 3,39 bilhões em agosto de 2024 para US$ 2,76 bilhões neste ano. como mostra a tabela abaixo, as exportações brasileiras para os EUA tiveram um aumento expressivo em abril deste ano, quando foi anunciada a tarifação geral, chamada de “liberation day”, em um movimento de antecipação de exportações.

Tabela: Exportações brasileiras para os EUA

Data Valor US$ milhões FOB (livre de frete) Variação ante mesmo mês de 2024 Participação total nas exportações do Brasil
08/2025 2.762,2 -18,5% 9,3%
07/2025 3.822,3 6,9% 11,9%
06/2025 3.336,4 1,6% 11,5%
05/2025 3.585,7 10,8% 12,0%
04/2025 3.512,8 20,0% 11,8%
03/2025 3.179,3 -15,8% 11,1%
02/2025 3.162,2 21,4% 13,9%
01/2025 3.215,1 -4,3% 12,7%
12/2024 3.716,5 7,6% 14,9%
11/2024 3.703,3 8,8% 13,3%
10/2024 3.570,1 6,3% 12,2%
09/2024 3.231,2 4,5% 11,3%
08/2024 3.390,7 1,1% 11,8%

Fonte: MDIC – Elaboração: Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC

Setores mais atingidos

Segundo o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão, os impactos foram concentrados em setores estratégicos. “Os dados chamam atenção para o minério de ferro, que apresentou queda de 100%, sem nenhum embarque em agosto. A maior redução entre produtos industrializados foi em aeronaves e partes, com 84,9% de queda. O açúcar recuou 88,4%, e os motores e máquinas não elétricos tiveram queda de 60,9%.”

Brandão citou ainda retrações em carne bovina fresca (-46,2%), máquinas de energia elétrica (-45,6%), celulose (-22,7%), produtos semiacabados de ferro e aço (-23,4%), óleos combustíveis (-37%) e madeira (-39,9%).

Para ele, a explicação imediata está no movimento de antecipação: “A carta enviada em 9 de julho pelo governo norte-americano informando sobre a elevação tarifária levou os exportadores a correrem com seus embarques. Isso explica a alta de 7% em julho e a queda acentuada em agosto.”

Incertezas no curto prazo

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, reforçou que os efeitos não se resumem à tarifa de 50%. “Muitas empresas norte-americanas anteciparam suas compras, e outras deixaram cargas retidas nos portos brasileiros para adiar o custo adicional. Isso ajuda a explicar por que até produtos com tarifa de 10% registraram queda em agosto, como óleos combustíveis e celulose.”

Sung também destacou a vulnerabilidade de segmentos dependentes do mercado norte-americano: “O café tem grande participação no consumo dos Estados Unidos e deve ser observado de perto. O mesmo vale para carnes e frutas como a manga, onde pequenos produtores dependem quase exclusivamente desse destino. Esses grupos podem ser os mais afetados no médio e longo prazo, mesmo com ações de mitigação.”

Diversificação compensa perdas

O head de research da Eleven Financial, Fernando Siqueira, apontou que a queda já era prevista e acabou sendo parcialmente neutralizada pela ampliação para outros destinos. “O dado de agosto mostrou que, apesar da retração para os Estados Unidos, o volume agregado de exportações ficou próximo ao dos últimos dois ou três anos. Esse equilíbrio só foi possível porque houve aumento significativo das vendas para mercados como China, México e Argentina.”

Ele destacou, contudo, que a substituição não é simples em todos os setores: “Produtos agrícolas com forte presença no mercado norte-americano, como soja e café, precisarão de mais tempo para serem redirecionados. Já outros, como veículos e manufaturados, encontraram mais rapidamente destino na Argentina.”

A força da China e dos BRICS

Para o professor de Finanças Internacionais da FGV-EAESP, Hsia Hua Sheng, o saldo do mês indica um movimento de reorientação do comércio exterior brasileiro. “O resultado de agosto mostra que o Brasil está ampliando sua abertura para além dos Estados Unidos. A relação com a China é o principal exemplo, porque envolve não apenas comércio, mas também investimentos diretos. Isso dá mais previsibilidade e estabilidade ao empresariado.”

Sheng observou que os embarques de soja e petróleo bruto para a China puxaram mais de 10% de crescimento no mês, e que a venda de veículos para a Argentina também ajudou. Ele lembrou ainda do potencial da ASEAN: “O sudeste asiático tem uma população imensa, capaz de absorver produtos brasileiros como carnes e derivados. Essa é uma frente que pode ganhar relevância com a visita do presidente Lula à reunião do bloco em outubro.”

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Antecipação e saldo acumulado

A economista Raphaela Oliveira acrescentou que os números de julho confirmam a leitura de antecipação: “O crescimento de 7% em julho para os Estados Unidos pode ser diretamente atribuído ao movimento dos exportadores. Mesmo com a queda de 18,5% em agosto, o acumulado de janeiro a agosto mostra crescimento de 1,6% nas vendas aos norte-americanos.”

Perspectivas e PIB

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Valle, avaliou que o comércio brasileiro deve conviver com déficits pontuais com os Estados Unidos, mas que o saldo global seguirá positivo.

“A expectativa é de um déficit de cerca de US$ 7 bilhões com os EUA em 2025, mas com superávit anual entre US$ 65 bilhões e US$ 70 bilhões na balança como um todo. Mesmo 20% abaixo de 2024, ainda é um número relevante diante do cenário mundial.”

Valle também fez uma leitura sobre a economia doméstica: “O segundo semestre tende a registrar desaceleração. O PIB pode sair de 0,4% no segundo trimestre para próximo de zero no terceiro, pressionado pela guerra tarifária e pela perda de confiança empresarial. Nossa projeção é de 2,1% de crescimento em 2025 e 1,6% em 2026.”

Argentina no radar

Sobre a Argentina, Valle foi enfático quanto aos riscos. “O pacote econômico de Javier Milei enfrenta dificuldades políticas e monetárias. A inflação de 2% ao mês segue elevada e as reservas internacionais são insuficientes. O país pode entrar em mais uma crise típica da região já em 2026.”

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