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Abicalçados projeta queda de 7% nas exportações após tarifa dos EUA

Publicado 20/07/2026 • 16:36 | Atualizado há 11 horas

KEY POINTS

  • Estados Unidos são o principal destino externo dos calçados brasileiros, com forte peso sobre o desempenho total do setor.
  • Produtos desenvolvidos para clientes americanos, muitas vezes com marcas próprias, não podem ser redirecionados facilmente.
  • Entidade pede medidas emergenciais e equiparação tarifária com concorrentes asiáticos para preservar a competitividade.

A indústria brasileira de calçados revisou para baixo a projeção de exportações após a imposição da tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos. A expectativa agora é de queda média de 7% nos embarques do setor em 2026.

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Priscila Linck, economista e coordenadora de inteligência de mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), afirmou que a nova cobrança interrompe a perspectiva de estabilização das vendas no segundo semestre.

“Desde o fim da tarifa de 40%, em fevereiro, a nossa expectativa para o segundo semestre era de estabilidade, que compensaria parcialmente as quedas do primeiro semestre. Com essa mudança de perspectiva, a nossa projeção é encerrar 2026 com uma queda total de exportações, em média, de 7%”, disse.

Os Estados Unidos são o principal mercado externo da indústria calçadista brasileira. Por isso, segundo Priscila, a perda de vendas para o país tem impacto direto sobre o resultado total das exportações do setor.

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Produtos não podem ser redirecionados rapidamente

A economista afirmou que a busca por outros destinos não é suficiente para compensar a retração dos embarques aos Estados Unidos.

O setor exporta para mais de 160 países e ampliou as vendas para outros mercados desde o início da política tarifária americana. Ainda assim, a relevância dos Estados Unidos e as características dos produtos dificultam uma substituição rápida.

Parte dos calçados é desenvolvida em conjunto com compradores americanos e produzida com a marca do próprio cliente. Nesses casos, as mercadorias não podem ser simplesmente revendidas em outros países.

“Existe todo um processo de desenvolvimento do produto até que ele seja exportado. Muitas vezes, esse calçado é produzido com a marca do cliente dos Estados Unidos. Então, não conseguimos simplesmente redirecioná-lo para terceiros mercados”, afirmou.

Segundo Priscila, o setor conseguiu ampliar os embarques para países da América Latina, da União Europeia e da África, mas esse crescimento não compensou integralmente a queda das vendas para o mercado americano.

Empresas podem enfrentar cancelamento de pedidos

A divisão do custo da tarifa dependerá das negociações entre cada empresa brasileira e seus clientes nos Estados Unidos.

Priscila afirmou que, durante a rodada anterior de tarifas, houve casos em que os importadores americanos absorveram o custo adicional. Em outras situações, os pedidos foram cancelados, inclusive quando os produtos já estavam em fabricação.

“Tivemos casos em que o importador teve de arcar com a tarifa para receber o produto e também pedidos que foram cancelados, muitos deles inclusive em produção”, disse.

A economista ponderou que, desta vez, as empresas já consideravam o risco de uma nova tarifa. A Abicalçados participou de audiências públicas em Washington e atuou junto a entidades e varejistas americanos para tentar incluir os calçados brasileiros na lista de exceções, mas o setor permaneceu sujeito à cobrança.

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Rio Grande do Sul, Ceará e São Paulo concentram exposição

Os efeitos sobre produção e emprego devem ser mais intensos nos principais polos exportadores para os Estados Unidos.

Embora existam empresas que vendem ao mercado americano em diferentes regiões do país, a maior concentração está no Rio Grande do Sul, no Ceará e em São Paulo.

Entre as áreas mais expostas estão o Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul, e polos paulistas especializados na fabricação de calçados de couro, segmento de maior valor agregado e com participação relevante nos embarques para os Estados Unidos.

“Temos empresas em praticamente todo o território nacional que são impactadas, mas algumas regiões têm um peso maior dos Estados Unidos nas exportações”, afirmou Priscila.

Setor pede apoio emergencial e fim da diferença tarifária

A Abicalçados negocia com o governo federal medidas de curto prazo para empresas com elevada dependência do mercado americano.

Segundo Priscila, o grau de exposição não deve ser medido apenas pela participação dos Estados Unidos nas exportações, mas também pelo peso dessas encomendas na produção total de cada fabricante.

No longo prazo, a entidade defende a eliminação da tarifa ou, ao menos, a equiparação do tratamento aplicado ao calçado brasileiro com o de concorrentes internacionais, principalmente produtores asiáticos.

“Buscamos uma medida de curto prazo que atenue os impactos nas empresas com dependência muito grande desse mercado, mas também uma solução de longo prazo: a extinção da tarifa ou, minimamente, uma equiparação tarifária frente à concorrência internacional”, disse.

Acordo com União Europeia terá efeito gradual

Priscila avaliou que o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia pode abrir espaço para o crescimento das exportações brasileiras de calçados, mas não oferece uma resposta imediata à perda de competitividade nos Estados Unidos.

A redução das tarifas europeias ocorrerá gradualmente. Algumas linhas tarifárias devem chegar a zero somente ao fim de um período de dez anos.

Segundo a economista, os produtos incluídos no acordo já tiveram uma primeira redução de alíquota em maio e passarão por uma nova etapa em janeiro do próximo ano.

“Isso já abre algum espaço de oportunidade, não apenas pela questão tarifária, mas também pela aproximação institucional entre os países. Os ganhos mais significativos, porém, vão ocorrer no médio e no longo prazo”, afirmou.

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