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“Não tem jeito, o Banco Central tem que brecar mais para não bater na curva”, diz Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor da instituição

Publicado 16/09/2026 • 22:06 | Atualizado há 52 minutos

KEY POINTS

  • Luiz Fernando Figueiredo avalia que redução da Selic para 13,75% diminui apenas parcialmente o grau de aperto monetário.
  • Ex-diretor do BC afirma que atividade mais fraca pode abrir espaço para novos cortes, mas riscos fiscais ainda limitam esse movimento.
  • Para Figueiredo, política fiscal e juros atuam hoje em direções opostas, reduzindo a eficácia das decisões tomadas pelo Banco Central.

O corte da Selic de 14% para 13,75% ao ano não representa uma mudança de direção da política monetária, mas apenas uma redução do grau de aperto, afirmou Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubart Capital. Para ele, sem uma melhora relevante do cenário fiscal, o espaço para novas quedas dos juros permanece limitado.

Em entrevista nesta quarta-feira (16), Figueiredo explicou que a desaceleração da atividade e a aproximação gradual da inflação das metas permitem ao BC aliviar parcialmente a política monetária, embora o mercado de trabalho continue forte. “Continuaria com uma taxa de juros apertada num grau um pouco menor”, resumiu ao descrever a sinalização da autoridade monetária.

Fiscal limita espaço para Selic cair

Ao avaliar os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom), Figueiredo afirmou que, desconsiderando inicialmente os efeitos da eleição, haveria pouco espaço para redução adicional da Selic. O cenário pode mudar, segundo ele, dependendo principalmente da política fiscal adotada depois da disputa eleitoral.

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O ex-diretor do BC ponderou que uma atividade econômica mais fraca do que a esperada poderia permitir cortes adicionais, porque os juros são utilizados justamente para moderar ou estimular a economia. Esse efeito, porém, pode ser neutralizado caso aumentem as expectativas de inflação ou a percepção de risco fiscal.

Se eu tiver a inflação, por várias outras razões, acelerando ou as expectativas subindo em função do medo de política, principalmente do lado fiscal, o Banco Central vai ficar de mãos amarradas”, afirmou Figueiredo. Ele acrescentou que uma deterioração fiscal também poderia pressionar o câmbio e, consequentemente, alimentar novamente a inflação, mesmo diante de atividade mais fraca.

Nesse quadro, Figueiredo alertou para o risco de uma desaceleração econômica mais intensa caso não haja ajustes à frente. Ele ressaltou que não considera que o Brasil esteja atualmente em um cenário de estagflação, mas avaliou que a combinação de desequilíbrio fiscal, inflação elevada e enfraquecimento da atividade poderia resultar, mais adiante, em recessão.

Leia também: Copom corta Selic em 0,25 ponto e leva taxa a 13,75% ao ano

Juros externos perdem peso diante dos problemas domésticos

A alta dos juros nos Estados Unidos adiciona pressão ao ambiente econômico, mas, para Figueiredo, os desequilíbrios internos brasileiros têm hoje peso maior nas decisões do Banco Central. Na avaliação dele, a política monetária precisa compensar estímulos provenientes de outras áreas da economia.

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O ex-diretor comparou essa dinâmica a um carro no qual o Banco Central tenta frear enquanto o governo acelera. “Não tem jeito, o Banco Central tem que brecar mais, porque senão este carro vai bater na curva”, afirmou. Por isso, segundo ele, o movimento dos juros americanos acaba tendo importância relativamente menor para o Brasil neste momento.

Figueiredo destacou ainda que, apesar das expectativas de inflação permanecerem desfavoráveis, as projeções do próprio Banco Central para o horizonte relevante estão mais próximas da meta, o que ajuda a explicar a decisão de reduzir moderadamente o grau de restrição monetária.

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Corte de 0,25 ponto reduz ‘grau de sofrimento’

Questionado sobre a avaliação da Fiesp de que o corte foi tímido, Figueiredo argumentou que a taxa de juros é o instrumento disponível ao Banco Central para cumprir a meta de inflação, enquanto as condições fiscais tornam esse trabalho mais difícil. Na visão dele, as duas políticas atuam atualmente de forma antagônica.

O economista afirmou que, em uma leitura estrita das condições econômicas, o BC poderia até ter mantido os juros, mas optou por começar a aliviar a restrição. “Eu vou reduzir um pouco o grau de sofrimento da sociedade”, afirmou, ao interpretar a mensagem transmitida pelo Copom com o corte.

Para que esse movimento possa ganhar continuidade, entretanto, Figueiredo voltou a apontar a necessidade de uma mudança efetiva na política fiscal. Na avaliação do ex-diretor, a cautela manifestada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, reflete justamente a necessidade de acompanhar novos dados antes de ampliar o ritmo de redução da Selic.

Leia também: Superquarta: Copom deve cortar Selic a 13,75% enquanto Fed eleva juros pela primeira vez em três anos

Figueiredo concluiu que a piora das expectativas mesmo com alguma desaceleração da atividade revela aumento da percepção de risco. Segundo ele, a experiência brasileira mostra ainda que as projeções frequentemente acabam subestimando a inflação efetivamente observada.

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