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Economia Brasileira

Mercado de aviação vive otimismo com transformação e expansão, mas petróleo, dólar e juros mantêm a pressão elevada

Publicado 06/06/2026 • 22:01 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Brasil registrou recorde de 129,6 milhões de passageiros em 2025, superando os níveis pré-pandemia com uma demanda crescente por viagens corporativas, que se recuperou de forma significativa.
  • A volatilidade global elevou custos operacionais por meio do petróleo, do querosene de aviação e da valorização do dólar, que impacta diretamente dívidas e contratos internacionais atrelados à moeda americana.
  • Especialistas destacam que as empresas têm um papel relevante na geração de empregos e são fundamentais para a mobilidade do país para além do transporte de passageiros
Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro - Galeão

Daniel Basil/Gov Brasil/Wikipedia

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro - Galeão

O setor aéreo brasileiro, que vislumbrava uma retomada robusta após o choque da pandemia de Covid-19, encontra-se agora no epicentro de uma verdadeira “tempestade perfeita”. Ao contrário de mercados da Europa e da América do Norte, onde a recuperação ocorreu de forma mais estruturada, as companhias nacionais esbarram em uma convergência de fatores macroeconômicos e geopolíticos adversos que ameaçam sua sustentabilidade financeira.

O Brasil fechou 2025 com 129,6 milhões de passageiros, um crescimento de 9,4% sobre 2024 e superando o recorde pré-pandemia de 2019. O paradoxo, entretanto, é que os aviões lotados convivem com prejuízo acumulado bilionário segundo os especialistas ouvidos pelo Times Brasil – Licenciado exclusivo CNBC.

No centro dessa crise doméstica está o alto custo do crédito e a postura monetária restritiva. A escalada da taxa básica de juros nos últimos anos asfixiou setores que operam com capital intensivo. “A situação brasileira pós-Covid tem sido muito difícil. Tivemos uma queda de juros em 2020 e, logo depois, um aumento muito forte, com a Selic parando na casa dos 13,75% em um país com nível de endividamento altíssimo”, aponta Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital.

A retomada do ritmo, apesar dos céu macroeconômico ainda nublado, entretanto, vem gerando otimismo nos investidores do setor, haja vista a relevância do segmento no mercado e na sociedade como um todo. “Também não podemos esquecer a importância logística dessas companhias. O transporte aéreo de cargas tem um papel estratégico para diversos segmentos da economia, o que amplia ainda mais a relevância do setor”, afirma Bertotti.

Empresas

O impacto direto dessa conjuntura nas contas das gigantes da aviação é severo. Empresas como Gol, Azul e Latam operam com níveis de alavancagem críticos, ele explica. A pressão contínua sobre os passivos circulantes e a frustração das expectativas de que o Banco Central iniciaria um ciclo agressivo de cortes de juros obrigaram essas empresas a revisar seus planejamentos estratégicos e lidar com balanços profundamente pressionados.

Somando-se ao difícil quadro doméstico, o setor é prejudicado pela volatilidade geopolítica global. Conflitos prolongados e o estresse contínuo nas cadeias de suprimento afetam diretamente os custos operacionais. “A continuidade da guerra e a flutuação do preço do barril de petróleo trazem um impacto direto na inflação global. A estrutura de custos logísticos já foi profundamente alterada”, destaca o especialista. O querosene de aviação, insumo básico para o setor, continua sendo um vetor de pressão intensa nas margens de lucro.

Já o câmbio atua como outro vento contrário. O fortalecimento do dólar frente ao real encarece drasticamente a manutenção das operações, uma vez que 57% do endividamento dessas companhias, incluindo bonds internacionais e contratos de leasing de aeronaves, é atrelada à moeda americana. A renegociação dessas dívidas no exterior torna-se um desafio consideravelmente mais complexo do que o rolamento de passivos no mercado interno.

Desafios macroeconômicos

Do lado da demanda, a situação também exige cautela, diz Bertotti. O consumidor brasileiro lida com a própria asfixia financeira, com o endividamento das famílias batendo recordes históricos. Com a inflação persistente — que ameaça romper o teto da meta — corroendo o poder de compra, o orçamento destinado a viagens encolhe. Isso limita a capacidade das áreas de repassarem integralmente seus custos para as passagens sem causar uma retração dramática na procura por voos.

Diante desse horizonte, a ordem é sobrevivência por meio de austeridade e reestruturação. “As companhias vão continuar bastante pressionadas e terão que fazer o dever de casa: realizar uma gestão rigorosa do passivo circulante e buscar o alongamento de dívidas num cenário bem pior do que o projetado há seis meses”, alerta o especialista.

“É importante lembrar que a aviação no Brasil vai muito além do turismo. Essas empresas têm um papel relevante na geração de empregos e são fundamentais para a mobilidade do país. Além do transporte de passageiros, existe uma demanda crescente por viagens corporativas, que se recuperou de forma significativa após a pandemia. Áreas como jurídico, consultoria e negócios voltaram a utilizar intensamente o transporte aéreo”, ele explica.

Vôo de volta

Segundo Bertotti, o principal fator que poderia melhorar o cenário para as empresas brasileiras é uma maior estabilidade macroeconômica. Ele conta que o Brasil tem uma dificuldade histórica de manter ciclos longos de crescimento e previsibilidade econômica. Na prática, muitas empresas já encontram dificuldades para projetar os próximos seis meses, quanto mais fazer planejamentos consistentes para dois ou três anos.

“Se compararmos o cenário atual com o de um ano atrás, a deterioração é evidente. Como economia emergente, o Brasil é muito sensível a choques externos, mas também enfrenta problemas domésticos relevantes. Entre eles, destaco a dificuldade de controlar as contas públicas, o elevado custo da dívida e um ambiente fiscal que continua gerando preocupação para os próximos anos”, ele diz.

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Olhando pela janelinha

Além dos fatores estruturantes, também pesa o noticiário externo à aviação. Para Beny Fard, sócio da B8 Partners, o noticiário político tende a afetar o setor à medida em que a imagem pública do Brasil é prejudicada pelos embates diplomáticos.

Segundo ele, a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas por parte dos EUA pode gerar um risco reputacional relevante, e a mensagem transmitida ao mundo é que o Brasil abriga dois grupos perigosos dominando parte considerável do território, o que pode impactar o turismo.

“O efeito mais imediato e concreto, porém, é financeiro: empresas americanas tendem a reforçar controles internos, e bancos, seguradoras e companhias de logística podem evitar setores considerados sensíveis por medo de conexão indireta com as facções”, explica.

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