A Anthropic informou a bancos e investidores nesta sexta-feira (14), antes de qualquer divulgação oficial, que faturou mais de US$ 11,5 bilhões no segundo trimestre deste ano, um salto de 14 vezes sobre os US$ 787 milhões do mesmo período de 2025 e mais que o dobro dos US$ 4,73 bilhões registrados entre janeiro e março deste ano, um ritmo de expansão que poucas empresas de qualquer setor sustentaram por tanto tempo seguido.
Em reais o valor passa de R$ 60 bilhões faturados em três meses, para uma empresa fundada há pouco mais de cinco anos. Outra novidade foi algo que a Anthropic não tinha conseguido até aqui, obter um lucro operacional ajustado positivo.
É a primeira vez que isso acontece na história da companhia, e é também a primeira vez que a palavra lucro aparece em documentos oficiais compartilhados com investidores, deixando de ser assunto só de projeções de consultorias externas.
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Os números chegaram semanas antes do que pode ser um dos maiores IPOs da história do mercado americano, justamente quando o valuation pedido pela empresa começa a ser posto à prova pelos próprios números que ela mostra. Tiveram acesso ao documento enviado aos bancos os sites The Information e Bloomberg.
Números que dobram a cada trimestre
A trajetória fala por si. A receita anualizada da Anthropic cruzou os US$ 47 bilhões em maio, depois de sair de cerca de US$ 9 bilhões no fim de 2025. Consultores independentes já estimavam, em julho, uma taxa anualizada entre US$ 69 e 74 bilhões.
Se o segundo trimestre fechou em US$ 11,5 bilhões, a companhia está numa toada de crescimento que, mantida, colocaria a receita anual em patamar próximo ao de empresas como Intel ou IBM, que levaram décadas para chegar lá.
O propulsor por trás disso continua sendo o mesmo de sempre nesta coluna, a adoção corporativa do Claude Code e, dentro dela, o avanço das ferramentas de programação com inteligência artificial, que se tornaram o principal argumento de venda da empresa para departamentos de tecnologia em todo o mundo.
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A conta que sustenta o valuation
O ponto que separa esta rodada de resultados das anteriores é a informação de que a Anthropic está projetando receita entre US$ 190 bilhões e US$ 200 bilhões para 2028, cerca de R$ 1 trilhão pela cotação atual, revelada pela Reuters.
É essa projeção, e não o resultado do trimestre que acabou de fechar, que bancos e investidores estão usando para calcular o valuation da empresa, aplicando múltiplos de receita sobre um número que ainda não existe trazido ao valor atual.
A prática tem precedentes recentes. A Cerebras usou expectativas de receita de 2028 antes de abrir capital neste ano, e a SpaceX projetou até 2029 antes de estrear com recibos de ações na bolsa em junho, com valuation recorde.
Os comparáveis que o mercado está usando para calibrar a Anthropic são Palantir, negociada a 53 vezes a receita esperada para este ano, e SpaceX e Cloudflare, ambas em torno de 41,6 vezes a receita prevista para 2026, segundo dados da LSEG.
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Distância até a Amazon
É aqui que a conta fica desconfortável. Para justificar um valuation de US$ 2 trilhões nos múltiplos praticados hoje pelas maiores empresas do Nasdaq 100, que giram em torno de 34 vezes o lucro dos últimos doze meses, a Anthropic precisaria apresentar lucro líquido anual entre US$ 59 bilhões e US$ 79 bilhões.
A Amazon, que vale US$ 2,86 trilhões, gerou US$ 62,6 bilhões de lucro líquido sozinha no segundo trimestre, sobre uma receita de US$ 200,6 bilhões.
A distância importa porque lucro operacional ajustado e lucro líquido são coisas diferentes. O primeiro ignora despesas como impostos, juros e itens não recorrentes, o segundo é o que sobra de fato no caixa.
A Anthropic reportou o primeiro, mas ainda gasta somas enormes em capacidade de processamento, treinamento de modelos e contratação, e nada nos documentos vistos por jornalistas indica que o lucro real esteja próximo.
O que o valuation ainda precisa provar
Nada disso invalida o crescimento, que é real e mensurável. O que fica em aberto é se o mercado está disposto a pagar hoje por um resultado de 2028 sem exigir, no caminho até lá, provas de que a margem vai se comportar como a aposta pressupõe.
Anthropic e OpenAI seguem correndo lado a lado rumo à bolsa, a segunda com receita anualizada acima de US$ 40 bilhões, e os bancos que estruturam a oferta, entre eles Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan, terão de convencer investidores de que dois anos de distância entre o balanço e a meta são um risco aceitável.
O CFO Krishna Rao segue em reuniões com investidores sem discutir valuation de forma explícita, segundo pessoas a par do processo. Quando a conversa chegar lá, o número de 2028 vai precisar de mais do que um trimestre forte para se sustentar.
Trajetória trimestral
Receita reportada a investidores, em bilhões de dólares
Fonte: documentos vistos pela imprensa em agosto de 2026
A conta do valuation
Múltiplos de receita usados como referência pelo mercado
| Empresa |
Múltiplo |
| Palantir |
53x receita |
| SpaceX |
41,6x receita |
| Cloudflare |
41,6x receita |
Para justificar US$ 2 trilhões nos múltiplos médios do Nasdaq 100 (cerca de 34x lucro), a Anthropic precisaria de lucro líquido anual entre
US$ 59 bi – US$ 79 bi
Para comparação, a Amazon (valuation de US$ 2,86 tri) gerou US$ 62,6 bi de lucro líquido só no 2º trimestre de 2026
Fonte: imprensa agosto de 2026
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