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Allan Ravagnani AI-451

Quais linhas observar nos balanços de Apple, Amazon, Meta e Microsoft para não ser pego de surpresa pelo mercado no dia seguinte

Publicado 27/07/2026 • 12:00 | Atualizado há 44 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

balanços

Balanços de Apple, Amazon, Meta e Microsoft chegam junto com a decisão de juros do Fed e testam se o mercado pune até o lucro.

Na quarta-feira passada (22), um punhado de analistas de Wall Street estava debruçado sobre a teleconferência da Alphabet esperando encontrar ali alguma rachadura que justificasse o nervosismo que já rondava o setor.

Não encontraram fragilidade nenhuma. A dona do Google faturou US$ 119,8 bilhões, superou a previsão dos analistas, viu o lucro líquido saltar quase 300% na comparação anual e ainda apresentou uma divisão de nuvem crescendo 82% ao ano, a maior aceleração em vários trimestres.

Mesmo assim, poucos minutos depois de o executivo financeiro terminar de falar, a ação virou para o vermelho no after hours, não por nenhuma linha do balanço em si, mas por uma frase sobre o futuro: a empresa avisou que vai gastar até US$ 205 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial neste ano, bem mais do que o mercado tinha engolido.

Essa cena, lucro recorde ignorado em favor da preocupação com o capex, é o roteiro que a bolsa vai testar mais quatro vezes nesta semana, a mais carregada do ano em Wall Street.

🔍 Capex é o dinheiro que uma empresa gasta para construir ou ampliar sua estrutura física, no caso data centers, servidores e chips. Diferente de uma despesa do dia a dia, que já nasce e morre no mesmo balanço, é dinheiro que só volta em forma de receita anos depois, se voltar.

E antes mesmo dos balanços começarem, o mercado já dava sinais de nervosismo.

Na sexta-feira (24), ações de chips como Intel, Micron, Coherent e Lumentum caíram entre 5% e quase 10% num único pregão, sem notícia ruim específica sobre nenhuma delas. Analistas do Mizuho atribuíram o tombo à desconfiança sobre a circularidade entre laboratórios de inteligência artificial, provedores de nuvem e fabricantes de chip, ecossistema em que a mesma empresa vira cliente, fornecedora e investidora das outras.

A Moody's projetou US$ 785 bilhões em capex conjunto das seis maiores empresas de nuvem neste ano, quase US$ 1 trilhão em 2027, e alertou que os acordos cruzados entre elas ampliam o risco caso a demanda não se confirme.

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Quarta-feira com Fed e balanços ao mesmo tempo

É nesse clima que Microsoft e Meta Platforms divulgam seus balanços na quarta-feira (29), no mesmo dia em que o Federal Reserve anuncia sua decisão de juros, às 15h de Brasília, seguida da coletiva de Kevin Warsh meia hora depois. A expectativa é de juros mantidos entre 3,5% e 3,75%, a quinta reunião seguida sem mudança, mas um sinal duro sobre inflação pode amplificar reação negativa aos balanços que saem horas antes.

A Microsoft reporta o quarto trimestre fiscal às 17h30, com lucro por ação projetado entre US$ 4,22 e US$ 4,24, e receita entre US$ 87,5 bilhões e US$ 87,7 bilhões.

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Termômetro para o Azure

O número que decide se a Microsoft sai bem ou mal dessa quarta-feira não está na linha de lucro, está no crescimento do Azure, a divisão de computação em nuvem da empresa. A companhia já orientou o mercado para um crescimento entre 39% e 40% em moeda constante, mas os analistas fixaram um piso não oficial de 36% como o número mínimo aceitável, o que o mercado já apelidou de bogey.

🔍 Bogey é termo emprestado do golfe, usado no mercado financeiro para designar a marca mínima que uma empresa precisa bater para não decepcionar, mesmo quando o resultado formal ainda parece positivo no papel.

Crescimento abaixo desse piso tende a provocar venda, mesmo com lucro por ação em linha ou acima do esperado. A ação da Microsoft já acumula queda de quase 20% em doze meses, penalizada por um mercado que passou a tratar o capex de mais de US$ 190 bilhões deste ano fiscal como problema, não como virtude, com analistas projetando gastos próximos de US$ 262 bilhões no próximo ano fiscal.

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Meta aposta que a publicidade paga a conta do capex

A Meta reporta na mesma quarta-feira (29), mas a teleconferência só acontece na quinta-feira (30), às 16h30. O consenso projeta lucro por ação entre US$ 7,18 e US$ 7,24, dentro da faixa de receita sinalizada pela própria empresa, entre US$ 58 bilhões e US$ 61 bilhões.

O Bank of America espera que a Meta supere as próprias projeções, puxada pela publicidade digital e pela eficiência que os sistemas de recomendação de inteligência artificial trouxeram para a conversão de anúncios. O risco não está na operação, está no tamanho do próximo cheque, depois que a Alphabet elevou a régua do que o mercado considera aceitável gastar em data centers e chips.

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Amazon depende da nuvem para justificar o capex bilionário

Apple e Amazon fecham a rodada na quinta-feira (30), após o fechamento do mercado, com teleconferências às 18h. Na Amazon, o centro das atenções é a AWS, que cresceu 28% no primeiro trimestre, a aceleração mais forte em quinze trimestres. Bank of America, Goldman Sachs e KeyBanc elevaram projeções para o segundo trimestre, apostando entre 31% e 33% de crescimento. O número importa porque a Amazon sinalizou capex acima de US$ 200 bilhões neste ano, e só uma AWS acelerando de verdade justifica, aos olhos do mercado, um cheque desse tamanho. O fluxo de caixa livre da empresa, que somava quase US$ 26 bilhões um ano atrás, encolheu para pouco mais de US$ 1 bilhão, lembrete de que o investimento em data center ainda não virou dinheiro no caixa.

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Apple joga um jogo diferente do resto do grupo

A Apple é a exceção do grupo. Com lucro por ação esperado entre US$ 1,86 e US$ 1,88, não carrega o mesmo peso de capex em inteligência artificial que atormenta as outras três, e por isso o mercado costuma tratá-la como porto seguro da temporada, motivo pelo qual chegou a tomar da Nvidia o posto de mais valiosa do mundo em sessões recentes. Os pontos de atenção aqui são outros: vendas de iPhone, crescimento de serviços, desempenho na China, margem pressionada pelo custo de memória, e o avanço ainda tímido da Apple Intelligence.

O que une as quatro histórias é o mesmo personagem da coluna sobre a Alphabet: um mercado que aprendeu a temer menos o prejuízo e mais a promessa de gasto futuro sem retorno visível. Na noite de quinta-feira, quando a última teleconferência terminar, o placar da semana vai dizer se esse medo é racional ou já virou reflexo automático, o tipo que aperta o gatilho de venda antes de terminar de ler o resultado.

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