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Brasil depende 95% de insumos farmacêuticos importados e pode ser afetado por tarifaço do Trump
Publicado 28/07/2025 • 13:42 | Atualizado há 10 meses
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Publicado 28/07/2025 • 13:42 | Atualizado há 10 meses
Pixabay.
Embora as tarifas se concentrem em setores industriais, seus reflexos podem atingir a saúde de forma indireta.
O Brasil deixou de produzir a maior parte dos insumos farmacêuticos que consome. Em quatro décadas, a capacidade nacional despencou de 55% para apenas 5%. Com isso, o país tornou-se altamente dependente de China, Índia, Europa e Estados Unidos para a fabricação de medicamentos e tecnologia médica.
O dado, pouco explorado na cobertura econômica, ganha peso diante da nova política comercial do governo Trump, nesta semana decisiva, em que o tarifaço de 50% deve ser aplicado.
Embora as tarifas se concentrem em setores industriais, seus reflexos podem atingir a saúde de forma indireta. Parte dos insumos utilizados pela indústria farmacêutica brasileira é importada via multinacionais com sede nos EUA ou impactada por cadeias globais intermediadas pelos americanos. Com o endurecimento das regras, os custos podem subir — por tarifas diretas, realinhamento logístico ou flutuação cambial.
“Temos forte dependência dos insumos farmacêuticos que utilizamos. Mesmo com genéricos, a área da saúde depende de importações que muitas vezes envolvem capital americano, ainda que produzidos fora dos EUA. O tarifaço está trazendo incerteza e risco, o que implica em maior flutuação cambial — e isso, por sua vez, pode impactar e aumentar os custos da saúde”, afirma Cristina Helena Pinto de Mello, economista e ex-reitora da PUC-SP, que também já atuou na gestão em saúde e acompanha de perto as relações China-EUA-Brasil.
Cristina aponta que os impactos podem ser contraditórios: “A perda do mercado americano pode redirecionar a produção global para outros países, o que em tese poderia reduzir preços. Mas a queda de escala global aumenta o custo fixo unitário. No fim, há uma chance real de aumento de preços — e isso pressiona o SUS e as contas públicas.”
A tadalafila, usada em tratamentos de disfunção erétil e hipertensão pulmonar, é produzida principalmente por multinacionais na Europa e nos EUA. Já a dipirona depende de matéria-prima importada da Índia. Em ambos os casos, o Brasil é vulnerável a oscilações internacionais. Cenários semelhantes podem acontecer com medicamentos de primeira necessidade como os voltados a doenças como diabetes e hipertensão arterial. Ou seja, o tarifaço por Trump, se realmente concretizado, vai doer no bolso dos brasileiros também.
O impacto do tarifaço e da reciprocidade não se limitará aos medicamentos. A elevação dos custos dos insumos pode afetar toda a cadeia de produção e distribuição, desde equipamentos médicos até a prestação de serviços de saúde. Hospitais e clínicas, que já operam com margens apertadas, seriam forçados a repassar esses custos aos pacientes, seja através de planos de saúde mais caros ou de procedimentos com valores proibitivos.
Além do impacto financeiro, há o risco de desabastecimento. Se a importação de IFAs se tornar inviável devido às altas tarifas, a produção de medicamentos no Brasil pode ser seriamente comprometida, levando à escassez de remédios essenciais e colocando em risco a saúde de milhões de pessoas
Diante dessa exposição externa crítica, o tema voltou à mesa do governo. A Nova Indústria Brasil prevê estímulos ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com o objetivo de reativar parte da capacidade produtiva nacional.
“Temos poucas e heroicas indústrias no setor, que competem com dificuldade com grandes players internacionais. É preciso fomentar a industrialização da saúde com políticas permanentes, que durem até que objetivos definidos sejam alcançados — e não se percam com a alternância de governos”, diz Cristina.
Entre as medidas possíveis, ela cita desde incentivos à pesquisa e desenvolvimento até regimes diferenciados de financiamento, redução de juros, capacitação técnica e exigência de conteúdo local nas cadeias produtivas. “A tecnologia em saúde demanda mão de obra qualificada e cara. Em vez de substituir o trabalho humano, ela exige cada vez mais preparo técnico.”
Para além do setor, há obstáculos macroeconômicos. “Estamos diante de uma sociedade polarizada, o que dificulta a construção de consensos duradouros. Do ponto de vista fiscal, temos compromissos com redução de gastos e juros altos que inibem o investimento produtivo. E, do ponto de vista internacional, enfrentamos players gigantes com escala, poder de marketing e domínio global das cadeias”, afirma a economista.
A fala da professora evidencia a urgência de uma reação articulada. A retomada de uma política industrial voltada à saúde, além de reforçar a soberania sanitária, pode amortecer choques externos e abrir espaço para um novo ciclo de crescimento produtivo.
“O Brasil precisa agir com visão de Estado, não apenas com medidas de governo. O atual tarifaço é um alerta — e também uma oportunidade para reequilibrar nossa posição no jogo global”, conclui Cristina.
Alexandre Hercules, Editor-Chefe do portal Brazil Health
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