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Demissão e medo: quando perder o emprego abala a confiança no novo trabalho
Publicado 03/11/2026 • 13:00 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 03/11/2026 • 13:00 | Atualizado há 1 hora
As histórias pessoais costumam ser parecidas. Em uma manhã que parecia igual às outras, seu chefe chama você para uma “reunião rápida”. Ao entrar na sala, você se depara com alguém do RH de olhar baixo. Ou então, ao chegar ao trabalho, nota que seu acesso ao sistema foi bloqueado. Logo vem o aviso da secretária: “É para você comparecer ao Departamento Pessoal”.
Mas o pior é quando a demissão vem depois de anos de metas batidas e fins de semana sacrificados, e parece injusta. Ainda que você supere esse revés, é comum que uma sensação estranha persista, mesmo depois de meses em um novo emprego: o coração dispara quando o gestor chama para uma conversa; você hesita em opinar nas reuniões; recusa projetos que lhe dariam visibilidade com uma desculpa do tipo “Melhor não aparecer demais”. E conclui: “Perdi o jeito.” Essas frases dizem mais do que parecem. Seu significado está no contexto pessoal, ainda marcado pela dor daquela demissão.
Nesses casos, é possível que você esteja diante de um dos fenômenos mais conhecidos da Psicanálise: aquilo que não é lembrado e elaborado tende a ser repetido. Foi o que Freud descreveu no artigo “Recordar, repetir e elaborar” (1914): o que foi colocado debaixo do tapete reaparece em atitudes e escolhas, não em palavras.
Freud mostrou que aquilo que a mente não consegue elaborar não desaparece: é recalcado, empurrado para fora da consciência, mas acaba voltando na forma de sintoma. Uma demissão inesperada ou injusta é a candidata perfeita: traz choque, humilhação, raiva e a sensação de ter sido descartado. E, às vezes, erradamente, tudo o que queremos é não falar sobre isso.
O mundo corporativo está cheio de estímulos para o recalque. Você ouve comentários do tipo “Faz parte do jogo” ou “Um profissional de verdade não leva isso para o pessoal”. Então, vai para as redes sociais com seu melhor sorriso e posta: “Um ciclo que se encerra... Gratidão.”
Mas, em muitos casos, o afeto gerado pelo desligamento não é processado, apenas jogado na sombra. E pode retornar como insônia na véspera de uma entrevista, aperto no peito no domingo à noite, irritabilidade em casa, perfeccionismo ou dor de cabeça. Esses sinais têm várias causas possíveis, inclusive o estresse comum; mas, quando surgem depois de um desligamento mal elaborado, o corpo e o comportamento podem estar dizendo o que a boca calou. Nesses casos, o sintoma expressa o que você tentou esconder de si mesmo.
O medo é um alerta importante. Aprendemos com ele. A amígdala, parte do sistema de alarme do cérebro, registra a demissão como ameaça ao nosso status. Afinal, o trabalho paga nossas contas, gera realização e pertencimento. No entanto, desde aquela demissão traumática, qualquer sinal parecido, como um simples e-mail do chefe, pode fazer esse alarme disparar de novo. Com o cortisol nas veias, a atenção, a memória de trabalho e a criatividade ficam prejudicadas. Justamente as habilidades de que você precisa para ir bem no novo emprego.
Freud chamou de angústia-sinal esse aviso antecipado de perigo, descrito em Inibição, sintoma e angústia (1926). Ela é adaptativa, mas, quando fica desproporcional e se generaliza, vira ansiedade antecipatória: o futuro vivido como reprise do passado em um looping infernal. Uma das consequências mais sérias é a inibição, que nos faz deixar de propor algo novo, de discordar, de negociar salário, de dizer não.
O efeito mais cruel é o “eclipse de habilidades”. Potenciais e aprendizados consolidados em anos de carreira estão ali, mas ficam encobertos pela sombra do medo. Você passa a se avaliar pelo que sente, não pelo que sabe fazer. E o mercado tende a enxergar a insegurança, não a competência. Todo um potencial de desenvolvimento profissional acaba represado.
Elaborar não é esquecer: é pôr em palavras e, aos poucos, conseguir lembrar com menos sofrimento, como Freud propunha no trabalho de elaboração. Algumas atitudes ajudam:
Se, passado um tempo, a ansiedade, a insônia ou o desânimo persistirem, procure um profissional de saúde mental. Não por fraqueza, mas porque o que ficou guardado merece ser escutado.
Robson Gonçalves
Psicanalista, economista comportamental e professor da FGV, especialista em comportamento humano, saúde mental e alta performance.
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