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O medo atravessa gerações: o impacto da imigração na saúde mental de famílias brasileiras
Publicado 26/08/2026 • 12:58 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 26/08/2026 • 12:58 | Atualizado há 2 meses
A imigração brasileira para os Estados Unidos cresceu de forma expressiva nas últimas décadas. Em 2024, cerca de 725 mil imigrantes brasileiros viviam no país, mais que o dobro do registrado em 2010. Massachusetts está entre os principais destinos e concentra uma das maiores comunidades brasileiras dos Estados Unidos.
Há seis anos acompanho clinicamente famílias brasileiras imigrantes, especialmente em Massachusetts. São adultos, adolescentes e crianças com histórias diferentes, mas entre as quais alguns elementos se repetem: a busca por melhores condições de vida, a distância da família de origem, jornadas intensas de trabalho, dificuldades de adaptação, insegurança migratória e, em alguns casos, o medo permanente da deportação.
Não se trata de afirmar que essa seja a experiência de todo brasileiro que imigra. Mas a prática clínica mostra que, para uma parcela dessas famílias, conquistar segurança material não significa necessariamente alcançar segurança emocional.
Alguns pacientes relatam experiências traumáticas no percurso até os Estados Unidos. Entre as situações que aparecem nesses relatos estão:
• travessias por regiões desérticas;
• fome e sede;
• noites dormindo em condições precárias;
• transporte em situações desumanas;
• violência física;
• violência sexual contra mulheres e meninas;
• crianças expostas a situações de risco;
• medo intenso de morrer durante o percurso.
Experiências como essas não necessariamente terminam psicologicamente quando a pessoa chega ao destino. Em alguns pacientes, suas consequências aparecem posteriormente na forma de ansiedade persistente, hipervigilância, ataques de pânico, insônia, sintomas depressivos, dissociação e medo constante de perder aquilo que foi conquistado.
A travessia pode acabar geograficamente e permanecer emocionalmente presente.
Outro aspecto recorrente nos atendimentos é uma relação aparentemente contraditória com o trabalho. Muitos pacientes relatam jornadas extensas e fisicamente desgastantes e, ao mesmo tempo, consideram que a mudança valeu a pena.
Isso acontece porque o dinheiro conquistado não representa apenas capacidade de consumo. Para muitas dessas famílias, significa acesso a condições que associam a uma vida mais digna: moradia segura, escolas públicas consideradas de qualidade, infraestrutura urbana, serviços previsíveis, segurança e possibilidades que acreditavam não encontrar no Brasil.
Existe, porém, um preço. Quando praticamente toda a vida passa a girar em torno do trabalho, podem aparecer:
• esgotamento físico e emocional; • isolamento social; • perda de sentido; • redução do tempo dedicado ao lazer; • dificuldade de convivência familiar; • menor disponibilidade emocional para os filhos.
É nesse momento que uma pergunta frequentemente aparece durante o processo terapêutico: “E se eu não tivesse vindo?”
Ela carrega saudade, culpa e ambivalência. Muitos reconhecem o que conquistaram e continuam acreditando que fizeram a melhor escolha possível para a família. Isso não elimina o sofrimento provocado pelo caminho.
O impacto pode ganhar outra dimensão quando há crianças e adolescentes. Pais que trabalham durante muitas horas para oferecer melhores condições aos filhos podem, involuntariamente, ter pouco tempo disponível para construir e manter vínculos cotidianos.
Essas crianças podem ter boa escola, casa confortável, tecnologia e atividades extracurriculares e, ainda assim, sentir falta de algo que não pode ser comprado: presença.
Presença significa diálogo, disponibilidade, afeto, acompanhamento e vínculo. Na prática clínica, observo crianças e adolescentes de famílias imigrantes apresentando manifestações como:
• ansiedade e sintomas depressivos; • isolamento; • dificuldades de identidade e pertencimento; • comportamentos de risco; • conflitos familiares; • sofrimento relacionado à possibilidade de separação dos pais.
Isso não significa estabelecer uma relação automática de causa e efeito entre imigração e adoecimento mental. A saúde psíquica resulta de múltiplos fatores. Mas o contexto migratório pode representar uma camada adicional de vulnerabilidade, principalmente quando envolve insegurança jurídica, sobrecarga familiar e ameaça de separação.
Nos últimos anos, a intensificação da fiscalização migratória acrescentou uma nova dimensão a esse sofrimento. Para famílias em situação migratória vulnerável, a possibilidade de uma ação do Immigration and Customs Enforcement (ICE), de uma detenção ou de uma deportação deixa de ser uma questão exclusivamente jurídica. Ela passa a interferir na rotina emocional da família.
O medo pode significar sair de casa sem saber se todos estarão juntos no fim do dia. E os efeitos não atingem somente adultos sem documentação migratória regular. Muitas famílias têm status migratórios diferentes dentro da mesma casa: pais imigrantes e filhos que nasceram nos Estados Unidos e são cidadãos americanos.
A literatura científica já demonstra que a deportação de um dos pais pode estar associada a consequências para a saúde, o comportamento, a vida escolar e as condições materiais dos filhos. Outros estudos também relacionam a percepção da ameaça migratória a maior ansiedade de separação e alterações emocionais em crianças.
É nesse sentido que podemos falar em repercussões que atravessam gerações. O trauma vivido pelos pais não é geneticamente ou inevitavelmente transmitido aos filhos, mas pode repercutir sobre os vínculos, a sensação de segurança, a organização familiar e a maneira como crianças e adolescentes percebem o mundo.
Para uma criança, a possibilidade de perder repentinamente o pai ou a mãe pode transformar aquilo que deveria ser uma rotina previsível em um ambiente de incerteza.
Existe ainda uma questão de pertencimento. É comum ouvir de imigrantes brasileiros o desejo de um dia voltar ao Brasil para envelhecer. Para os filhos nascidos nos Estados Unidos, porém, a situação pode ser completamente diferente.
Alguns falam pouco português, conhecem o Brasil principalmente pelas histórias dos pais e construíram nos Estados Unidos seus vínculos escolares, amizades, referências culturais e projetos de vida. Para os pais, voltar pode significar retornar para casa. Para os filhos, ser obrigado a acompanhar uma família deportada pode significar deixar a própria casa.
É nesse espaço que surgem conflitos identitários importantes. São crianças americanas, filhas de brasileiros, que podem crescer tentando conciliar duas culturas e, em situações de maior vulnerabilidade migratória da família, convivendo com a possibilidade de uma ruptura abrupta da vida que conhecem.
Reduzir a imigração a uma decisão econômica é insuficiente. Migrar significa reorganizar vínculos, identidade, pertencimento, trabalho, família e projetos de vida.
Para muitas famílias brasileiras, os Estados Unidos representam oportunidades concretas e uma melhora real das condições materiais. Reconhecer isso não impede que se enxergue o outro lado dessa experiência.
Há pessoas que chegaram depois de percursos traumáticos, trabalham intensamente, sentem culpa pela distância da família que ficou no Brasil e criam filhos entre duas culturas. Quando a isso se soma a insegurança migratória, toda a família pode passar a viver em estado de alerta.
Por isso, olhar para essas famílias exige mais do que discutir fronteiras, documentos ou deportações. Exige compreender que decisões e políticas migratórias também têm consequências emocionais.
E que, quando o medo entra em uma casa, ele raramente atinge apenas uma pessoa.
Mariza Souza (CRP 01/29553-DF)
Psicóloga com atuação em Psicologia Familiar, neuropsicóloga, especialista em Perícia Criminal e membro da Brazil Health.
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