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SUS vai colapsar com a epidemia de trauma? O que falta para salvar milhares
Publicado 14/09/2026 • 14:30 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 14/09/2026 • 14:30 | Atualizado há 2 meses
Freepik
O Sistema Único de Saúde (SUS) é marcado por uma dualidade profunda: ao mesmo tempo que abriga alguns dos maiores e mais bem-sucedidos programas de saúde pública do mundo, sofre com lacunas críticas de financiamento e estruturação em áreas vitais, como o atendimento ao trauma de alta complexidade. Essa disparidade gera um impacto social e econômico devastador para um país que enfrenta uma verdadeira epidemia de violência, acidentes de trânsito, acidentes de trabalho na economia formal e informal e traumas de alta complexidade que geram incapacidade e custo social.
De um lado, o SUS demonstra sua potência por meio de iniciativas exemplares. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) historicamente erradicou doenças e serve de modelo global de cobertura vacinal. Da mesma forma, o programa brasileiro de tratamento do HIV/AIDS revolucionou a saúde pública nos anos 1990 e 2000 ao garantir acesso gratuito e universal aos antirretrovirais, reduzindo drasticamente a mortalidade. Na média e alta complexidade, o Brasil consolidou o maior sistema público de transplantes de órgãos do mundo, em que o SUS financia cerca de 90% dos procedimentos nacionais, garantindo equidade e eficiência técnica reconhecidas internacionalmente.
No entanto, essa eficiência não se repete na atenção às causas externas, especificamente no atendimento ao trauma de alta complexidade. Diferentemente do infarto ou do AVC, que possuem linhas de cuidado mais definidas, o trauma grave carece de uma rede nacional uniformemente consolidada, sofrendo com investimento inadequado e abandono político. Esse descaso público, administrativo e de gestão gera um caos social difícil de ser mensurado.
Um Centro de Trauma de Alta Complexidade é uma unidade hospitalar especializada e terciária, estruturada com equipes multidisciplinares (cirurgiões de trauma, neurocirurgiões, ortopedistas, cirurgiões da mão treinados em microcirurgia reconstrutiva, intensivistas etc.) e infraestrutura tecnológica (tomografia, centro cirúrgico e UTI) disponíveis 24 horas por dia, de forma imediata. O objetivo principal é intervir na chamada "hora de ouro" (golden hour), o período inicial após o acidente em que o socorro médico definitivo reduz drasticamente as chances de óbito ou sequelas permanentes. É mister criar centros de trauma de alta complexidade distribuídos pelo país, conforme a demanda, e com médicos formados e treinados para esse atendimento.
A escassez crônica desses centros especializados no território brasileiro submete o paciente a uma perigosa peregrinação por hospitais gerais e UPAs sem suporte adequado. O impacto socioeconômico desse cenário é catastrófico. O trauma atinge majoritariamente jovens em idade produtiva (entre 15 e 39 anos). Quando o atendimento falha, o resultado se traduz em mortes evitáveis ou em invalidez permanente.
Dados históricos e projeções do DATASUS evidenciam que as causas externas (acidentes de trânsito, quedas e violência urbana) figuram consistentemente entre as principais causas de morte e internação no país. Bilhões de reais são consumidos anualmente em internações prolongadas, procedimentos cirúrgicos tardios e complicações infecciosas que poderiam ser minimizadas com uma abordagem resolutiva na admissão. Além dos custos diretos de saúde registrados no DATASUS, há um custo indireto massivo para a previdência social, que assume pensões por morte e aposentadorias por invalidez precoce, além da perda de capital humano que retrai o Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
A epidemia de trauma no Brasil é uma crise de saúde pública que não pode ser tratada de forma improvisada. Para que o SUS seja verdadeiramente integral, o atendimento ao trauma precisa deixar de ser um gargalo negligenciado e receber o mesmo nível de prioridade política, financiamento e desenho estratégico que transformou a vacinação e os transplantes de órgãos em orgulhos nacionais.
Tiago Guedes da Motta Mattar - CRM: 127.127 | RQE: Nº 39872/2026 / RQE Nº 39871/2026
Ortopedista, traumatologista e especialista em cirurgia da mão e microcirurgia
Rames Mattar Junior - CRM: 37664 | RQE: 109530/2026
Ortopedista e Traumatologista e especialista em cirurgia da mão e microcirurgia
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