Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Geroarquitetura avança sem reconhecimento do CAU e sem padrão de formação
Publicado 22/09/2026 • 13:00 | Atualizado há 2 meses
Trump oferece cargo de porta-voz da Casa Branca a Dana White, presidente do UFC
Trump manda investigar democratas por suposta extorsão após derrota nas eleições
Diretor de estratégia da Meta, Dave Wehner deixa empresa para assumir cargo de CFO na startup de IA Fireworks
Por que as perspectivas para ações do setor de saúde são incertas diante da nova composição do Congresso nos EUA
Risco de escalada no Irã segue alto apesar da vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA, dizem analistas
Publicado 22/09/2026 • 13:00 | Atualizado há 2 meses
Arquiteto e professor Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto.
A moradia precisa acompanhar as mudanças de quem vive nela. Quanto antes o envelhecimento é considerado, mais simples e menos custoso tende a ser adaptar o imóvel. Foi o que mostrei em "Não existe casa para idoso. Existe a casa que envelhece com você".
A decisão seguinte é prática: seja para adaptar aos poucos o imóvel em que já se vive, seja para reformar ou investir em um lugar novo, como escolher o arquiteto da casa longeva?
A tarefa é mais difícil do que parece porque nem mesmo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) prevê atribuição específica para essa especialização, que vem sendo chamada informalmente de geroarquitetura ou arquitetura para a longevidade. Também não há formação padronizada entre os profissionais nem método comum de comprovar a eficácia das intervenções depois de uma obra.
A indefinição convive com um mercado em expansão. Só três empreendimentos de senior living em São Paulo e Santa Catarina somam mais de R$ 600 milhões entre vendas previstas e investimento. São eles o Naara Longevity Residences (SP), o Vitacon Senior by Housi (SP) e o DOM Senior Living, no Pedra Branca (SC), com a LOMA, detalhados em "Senior Living no Brasil: mercado em crescimento e modelos em construção". Ao lado de incorporadoras e construtoras, arquitetos também se voltam para essas oportunidades.
Já a regulação da atividade não parece acompanhar esse ritmo. A lei que regulamenta a arquitetura, de 2010, e a resolução do CAU que detalha as atribuições incluem acessibilidade, ergonomia, interiores, automação e avaliação pós-ocupação entre as atividades de qualquer arquiteto. É o mínimo a ser esperado. A geroarquitetura acrescentaria a isso o conhecimento sobre o envelhecimento. Atualmente, cada profissional monta a própria trilha para obtê-lo, em pós-graduações de gerontologia, cursos de acessibilidade e neuroarquitetura, extensões e cursos livres. Nos Estados Unidos, a credencial mais citada, a de especialista em aging in place da associação nacional de construtores, é um curso adicional, e não uma licença.
Até o termo geroarquitetura está em disputa. Em 2019, o arquiteto Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apresentou um trabalho acadêmico intitulado "Por uma gero-arquitetura". A arquiteta Flavia Ranieri afirma usar o termo desde 2018, levando-o ao mercado em 2021. Já para Maria Luisa Trindade Bestetti, professora do curso de Gerontologia da USP, "o termo correto é gerontologia ambiental". Segundo defende, geroarquitetura, por sua vez, seria apenas "uma invenção para o marketing", já que, para ela, tudo isso já cabia no estudo da ambiência, dentro da gerontologia ambiental, antes de ganhar nome comercial.
A discordância termina no nome. "Não basta ser arquiteto, é preciso um olhar realmente especializado", afirma Bestetti. Esse olhar, nos exemplos dela, vai além da norma de acessibilidade: revestimentos sem contrastes fortes, que a visão diminuída lê como desnível; janelas leves, porque a força muscular cai; móveis estáveis, que não virem apoio ao levantar; luz que mostre o trajeto ao acordar.
Quem vai investir, incorporar ou reformar pode se apoiar em cinco perguntas:
Entre as questões acima, a mais complexa diz respeito à avaliação pós-ocupação. Castelnou a aplica a projetos para idosos em três eixos. O primeiro é a observação da autonomia, medida pela ausência de barreiras como degraus altos e portas estreitas. O segundo é a segurança, medida pelos itens de proteção instalados. O terceiro é a satisfação, medida por permanência, convívio e conforto. Bestetti acrescenta ainda os indicadores de saúde, como mobilidade, nutrição e bem-estar dos moradores.
Não encontrei evidências suficientes de que o uso de instrumentos para avaliar o impacto das intervenções em moradias adaptadas para idosos seja, de fato, prática do mercado. Os empreendimentos divulgados como "pensados para a longevidade" chegam ao mercado com listas de atributos, sem o compromisso de medir o que acontece depois da ocupação. Muitos são recentes e ainda não teriam o que medir; o que se pode cobrar deles é a promessa de fazê-lo, com indicadores definidos antes da entrega.
Ranieri reconhece a falta da avaliação pós-ocupação. "Esse é um ponto fundamental e ainda pouco realizado no Brasil." Ela criou uma metodologia de avaliação de imóveis, o Longevity Built Environment Standard, que apresenta como "o primeiro padrão independente" do setor, com objetivo semelhante ao do LEED. O Leadership in Energy and Environmental Design (LEED) é o sistema de certificação para edifícios sustentáveis mais utilizado e reconhecido no mundo.
O diagnóstico está certo: bancos, incorporadoras e seguradoras apostam em empreendimentos para longevidade sem um instrumento que diga se o projeto entrega o que promete. Resta saber se o mercado vai se satisfazer com padrões privados, ainda sem validação externa, ou se vai exigir certificação por terceiros, como a do LEED, verificada por uma certificadora independente, o GBCI.
A ciência também recomenda cautela. Uma meta-revisão publicada em 2025 reuniu 11 revisões sistemáticas, com cerca de 250 estudos, sobre o ambiente físico de instituições de longa permanência para pessoas com demência, o cenário mais pesquisado. Identificou 124 associações entre características do espaço, comportamento e qualidade de vida, e concluiu que a qualidade geral da evidência ainda é baixa. Para a moradia comum, a régua de prova ainda está por construir.
O uso do termo “geroarquitetura” pode até ter apelo de marketing, mas o problema que ele nomeia é real. O que falta a esse mercado de moradia pensada para a longevidade é prova. Outras frentes da Economia Prateada, como as agetechs, passam por problema semelhante, em que a oferta chega antes da formalização. Quem envelhece na própria casa e já precisa de um banco para alcançar o armário da cozinha, cena com que abri a coluna passada, não precisa saber o nome da especialidade. Precisa que ela funcione.
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
Leia todas as colunas de Economia Prateada
Não como profissão ou atribuição específica. Quem projeta precisa ser arquiteto registrado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo, mas as normas do CAU não preveem uma atribuição chamada geroarquitetura, e a lei de 2010 com a resolução que a detalha já incluem acessibilidade, ergonomia e avaliação pós-ocupação entre as atividades de qualquer arquiteto. O termo designa uma atuação voltada ao envelhecimento, sem título profissional próprio nem formação obrigatória.
Gerontologia ambiental é o campo acadêmico que estuda a relação entre o ambiente construído e a pessoa que envelhece. Geroarquitetura é o nome adotado no mercado brasileiro para a aplicação desse conhecimento ao projeto. Parte dos pesquisadores considera o segundo termo um rótulo comercial para o primeiro.
É a metodologia que mede, depois que um ambiente está em uso, se ele cumpriu o que o projeto prometia. Em moradias para a longevidade, avalia autonomia, segurança e satisfação dos moradores, por meio de registros de incidentes, observação do uso do espaço e entrevistas.
Maiores Audiências
1
Celular de Vorcaro tem 316 registros com Moraes e indica possível encontro antes da prisão
2
Antes de virar alvo de operação do Ministério Público do PR, QI Tech já havia sofrido derrota na Justiça em processo sobre pirâmide financeira
3
Fundos ligados à QI Tech entram no radar de operação contra lavagem e sonegação
4
QI Tech, ligada a fundos investigados por lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, já foi citada em negociações envolvendo Master e Reag
5
‘Master paraguaio’: Santiago Peña pede mais 72 horas para apresentar defesa em processo de impeachment no Paraguai