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Geroarquitetura avança sem reconhecimento do CAU e sem padrão de formação

Publicado 22/09/2026 • 13:00 | Atualizado há 6 horas

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Gilmara Espino

A economia prateada já é um dos movimentos mais relevantes do nosso tempo. Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz, semanalmente, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.

Economia Prateada, Gilmara Espino, Arquiteto e professor Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto.

Arquiteto e professor Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto.

A moradia precisa acompanhar as mudanças de quem vive nela. Quanto antes o envelhecimento é considerado, mais simples e menos custoso tende a ser adaptar o imóvel. Foi o que mostrei em "Não existe casa para idoso. Existe a casa que envelhece com você".

A decisão seguinte é prática: seja para adaptar aos poucos o imóvel em que já se vive, seja para reformar ou investir em um lugar novo, como escolher o arquiteto da casa longeva?

A tarefa é mais difícil do que parece porque nem mesmo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) prevê atribuição específica para essa especialização, que vem sendo chamada informalmente de geroarquitetura ou arquitetura para a longevidade. Também não há formação padronizada entre os profissionais nem método comum de comprovar a eficácia das intervenções depois de uma obra.

Existe geroarquitetura?

A indefinição convive com um mercado em expansão. Só três empreendimentos de senior living em São Paulo e Santa Catarina somam mais de R$ 600 milhões entre vendas previstas e investimento. São eles o Naara Longevity Residences (SP), o Vitacon Senior by Housi (SP) e o DOM Senior Living, no Pedra Branca (SC), com a LOMA, detalhados em "Senior Living no Brasil: mercado em crescimento e modelos em construção". Ao lado de incorporadoras e construtoras, arquitetos também se voltam para essas oportunidades.

Já a regulação da atividade não parece acompanhar esse ritmo. A lei que regulamenta a arquitetura, de 2010, e a resolução do CAU que detalha as atribuições incluem acessibilidade, ergonomia, interiores, automação e avaliação pós-ocupação entre as atividades de qualquer arquiteto. É o mínimo a ser esperado. A geroarquitetura acrescentaria a isso o conhecimento sobre o envelhecimento. Atualmente, cada profissional monta a própria trilha para obtê-lo, em pós-graduações de gerontologia, cursos de acessibilidade e neuroarquitetura, extensões e cursos livres. Nos Estados Unidos, a credencial mais citada, a de especialista em aging in place da associação nacional de construtores, é um curso adicional, e não uma licença.

Até o termo geroarquitetura está em disputa. Em 2019, o arquiteto Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apresentou um trabalho acadêmico intitulado "Por uma gero-arquitetura". A arquiteta Flavia Ranieri afirma usar o termo desde 2018, levando-o ao mercado em 2021. Já para Maria Luisa Trindade Bestetti, professora do curso de Gerontologia da USP, "o termo correto é gerontologia ambiental". Segundo defende, geroarquitetura, por sua vez, seria apenas "uma invenção para o marketing", já que, para ela, tudo isso já cabia no estudo da ambiência, dentro da gerontologia ambiental, antes de ganhar nome comercial.

A discordância termina no nome. "Não basta ser arquiteto, é preciso um olhar realmente especializado", afirma Bestetti. Esse olhar, nos exemplos dela, vai além da norma de acessibilidade: revestimentos sem contrastes fortes, que a visão diminuída lê como desnível; janelas leves, porque a força muscular cai; móveis estáveis, que não virem apoio ao levantar; luz que mostre o trajeto ao acordar.

Para não levar gato por lebre

Quem vai investir, incorporar ou reformar pode se apoiar em cinco perguntas:

  • Qual é a formação de quem assina o projeto, e em que área do envelhecimento?
  • Que evidência sustenta cada decisão, além da norma?
  • Pessoas idosas participaram do processo, ou o projeto foi feito para uma abstração chamada "o idoso"?
  • Há equipe multiprofissional, com terapeuta ocupacional ou gerontólogo?
  • E os resultados serão medidos depois da ocupação, com indicadores definidos antes da obra e em que prazo?

Como comprovar que um projeto para a longevidade funciona

Entre as questões acima, a mais complexa diz respeito à avaliação pós-ocupação. Castelnou a aplica a projetos para idosos em três eixos. O primeiro é a observação da autonomia, medida pela ausência de barreiras como degraus altos e portas estreitas. O segundo é a segurança, medida pelos itens de proteção instalados. O terceiro é a satisfação, medida por permanência, convívio e conforto. Bestetti acrescenta ainda os indicadores de saúde, como mobilidade, nutrição e bem-estar dos moradores.

Não encontrei evidências suficientes de que o uso de instrumentos para avaliar o impacto das intervenções em moradias adaptadas para idosos seja, de fato, prática do mercado. Os empreendimentos divulgados como "pensados para a longevidade" chegam ao mercado com listas de atributos, sem o compromisso de medir o que acontece depois da ocupação. Muitos são recentes e ainda não teriam o que medir; o que se pode cobrar deles é a promessa de fazê-lo, com indicadores definidos antes da entrega.

Ranieri reconhece a falta da avaliação pós-ocupação. "Esse é um ponto fundamental e ainda pouco realizado no Brasil." Ela criou uma metodologia de avaliação de imóveis, o Longevity Built Environment Standard, que apresenta como "o primeiro padrão independente" do setor, com objetivo semelhante ao do LEED. O Leadership in Energy and Environmental Design (LEED) é o sistema de certificação para edifícios sustentáveis mais utilizado e reconhecido no mundo.

O diagnóstico está certo: bancos, incorporadoras e seguradoras apostam em empreendimentos para longevidade sem um instrumento que diga se o projeto entrega o que promete. Resta saber se o mercado vai se satisfazer com padrões privados, ainda sem validação externa, ou se vai exigir certificação por terceiros, como a do LEED, verificada por uma certificadora independente, o GBCI.

A ciência também recomenda cautela. Uma meta-revisão publicada em 2025 reuniu 11 revisões sistemáticas, com cerca de 250 estudos, sobre o ambiente físico de instituições de longa permanência para pessoas com demência, o cenário mais pesquisado. Identificou 124 associações entre características do espaço, comportamento e qualidade de vida, e concluiu que a qualidade geral da evidência ainda é baixa. Para a moradia comum, a régua de prova ainda está por construir.

O uso do termo “geroarquitetura” pode até ter apelo de marketing, mas o problema que ele nomeia é real. O que falta a esse mercado de moradia pensada para a longevidade é prova. Outras frentes da Economia Prateada, como as agetechs, passam por problema semelhante, em que a oferta chega antes da formalização. Quem envelhece na própria casa e já precisa de um banco para alcançar o armário da cozinha, cena com que abri a coluna passada, não precisa saber o nome da especialidade. Precisa que ela funcione.

Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC. 

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Perguntas frequentes

Geroarquitetura é uma profissão regulamentada no Brasil?

Não como profissão ou atribuição específica. Quem projeta precisa ser arquiteto registrado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo, mas as normas do CAU não preveem uma atribuição chamada geroarquitetura, e a lei de 2010 com a resolução que a detalha já incluem acessibilidade, ergonomia e avaliação pós-ocupação entre as atividades de qualquer arquiteto. O termo designa uma atuação voltada ao envelhecimento, sem título profissional próprio nem formação obrigatória.

Qual é a diferença entre geroarquitetura e gerontologia ambiental?

Gerontologia ambiental é o campo acadêmico que estuda a relação entre o ambiente construído e a pessoa que envelhece. Geroarquitetura é o nome adotado no mercado brasileiro para a aplicação desse conhecimento ao projeto. Parte dos pesquisadores considera o segundo termo um rótulo comercial para o primeiro.

O que é avaliação pós-ocupação?

É a metodologia que mede, depois que um ambiente está em uso, se ele cumpriu o que o projeto prometia. Em moradias para a longevidade, avalia autonomia, segurança e satisfação dos moradores, por meio de registros de incidentes, observação do uso do espaço e entrevistas.

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