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A fé fez as malas de novo
Publicado 13/10/2026 • 14:10 | Atualizado há 46 minutos
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Publicado 13/10/2026 • 14:10 | Atualizado há 46 minutos
Por: Rosana Pinto - Ascom DFN. Foto: Ascom DFN
Aparecida celebrou em 12 de outubro a festa de sua padroeira. Contando a novena, a expectativa era receber mais de 500 mil fiéis em dez dias, segundo o governo federal. Dias antes da festa, perguntei ao professor Daniel Aguirre, mestre em Turismo, se quem vai a destinos religiosos o faz uma vez só. A resposta foi não. É um tipo de viagem que vira tradição. Há quem passe em Aparecida os nove dias da novena, e muita gente termina uma romaria já pagando a do ano seguinte. Boa parte desses visitantes, na observação dele, tem mais de 60 anos, faixa da população brasileira que só aumenta.
Essa fidelidade é uma boa notícia para quem tem um pequeno negócio ou administra uma cidade na rota dessas viagens. O cliente que volta é uma vantagem que outros segmentos do turismo pagam caro para conquistar. Um calendário conhecido permite planejar equipe, compras e reformas meses antes. As oportunidades ainda não foram todas medidas, mas já há pistas de onde estão. Aproveitá-las pede hospitalidade e o que o setor chama de governança, a coordenação entre instituições religiosas, empresas e poder público para receber bem quem chega.
O turismo religioso inclui romarias, visitas a santuários e templos, caminhos de peregrinação, retiros e encontros, ao longo do ano e em diferentes tradições. No domingo (11/10), o Círio de Nazaré tomou as ruas de Belém. Em junho, a Marcha para Jesus, evento evangélico em São Paulo, recebeu caravanas de todo o Brasil. Em fevereiro, Salvador celebra a Festa de Iemanjá.
Não há contagem de quantos desses viajantes já passaram dos 60 anos. Sabe-se que atrativos religiosos interessam a 19% dos brasileiros nessa faixa de idade, ante 12% na média do país, segundo pesquisa da Nexus para o Ministério do Turismo feita em outubro de 2024.
O professor acrescenta o que observa nas excursões. "Mais mulher do que homem, sempre. E as mulheres são mais bem organizadas", diz. Muitas integram grupos que têm o passeio como atividade regular. É o mesmo rosto feminino da Economia Prateada que já apresentei nesta coluna.
A fé raramente viaja sozinha. Para Aguirre, "o turismo religioso está sempre ligado a um destino de turismo de lazer". Em Goiás, os roteiros que ele descreve duram cerca de uma semana e juntam o santuário de Trindade às águas termais de Caldas Novas, com um ou dois dias de compras em Goiânia. Quem vai a Aparecida costuma esticar até Campos do Jordão e passa pela feira em frente ao Santuário, onde comprar cobertor virou hábito.
O dinheiro dessas viagens se espalha. Em Trindade (GO), a romaria do Divino Pai Eterno de 2026 teve impacto econômico estimado em cerca de R$ 50 milhões no município, com mais de R$ 11 milhões no setor hoteleiro, informou a prefeitura. Além dos hotéis, a demanda alcança restaurantes, comércio, transporte e casas de moradores.
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Na mesma cidade, a empresária Divina Carlos de Campos transformou uma casa de aluguel em pousada, aberta em 2010 e reformada para a romaria deste ano, segundo o Mais Goiás. A preparação começa cedo. Marina Macedo, dona de uma loja de materiais de construção, contou ao portal que a procura aumenta desde abril, mais de dois meses antes da festa.
O Sebrae Pará identificou 14 setores com oportunidades ligadas ao turismo religioso, entre eles gráficas, farmácias e salões de beleza. Em cidades do interior, donos de agências ou de ônibus contam com o que o professor chama de "uma entrada contínua", os pagamentos de quem já se programa para o ano seguinte. E a demanda não depende de uma única data. Em Aparecida, a novena e a festa de outubro responderam por menos de 5% dos 10,5 milhões de presenças registrados pelo Santuário Nacional em 2025.
O primeiro passo é saber quem chega, porque esse público tem perfis de consumo diferentes. A maioria, na observação de Aguirre, viaja de ônibus e se hospeda e come em estabelecimentos de categoria turística. Uma parcela menor vai de avião e busca serviços de padrão superior.
Guias que se especializarem no turismo religioso 60+ têm um nicho pela frente, na avaliação dele. Hotéis e restaurantes precisam facilitar o acesso de quem tem mobilidade reduzida. Agências podem oferecer roteiros aos grupos de mulheres que já viajam juntas. O professor faz uma ressalva, a de não contar com a volta do fiel quando o serviço foi ruim, raciocínio que ainda encontra em governos municipais.
O Ministério do Turismo divulga a cartilha Dicas para Atender Bem Turistas Idosos, que orienta, mas não tem a intenção de substituir a capacitação e o investimento local.
A governança começa com um acordo sobre o que cabe às instituições religiosas, às empresas e ao poder público, e com a disposição de ouvir quem viaja. Aguirre defende dar voz a esse visitante no conselho municipal de turismo, onde ele nem sempre está representado.
Faltam dados nacionais sobre a quantidade de viagens, os meios de transporte, os gastos, o tempo de permanência e a faixa etária dos visitantes, afirma Fagno Tavares de Oliveira, professor do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília. Ele recomenda levantamentos de perfil nos próprios destinos. Leio essa falta como oportunidade. A cidade que perguntar a idade, a origem e o gasto de seus visitantes terá em mãos o que o país ainda não tem.
A direção da mudança demográfica é conhecida. Pelas projeções do IBGE, quase quatro em cada dez brasileiros terão 60 anos ou mais em 2070. Mapear desde já o turismo religioso prateado é preparar as economias locais para uma demanda que volta todo ano.
A festa de Aparecida terminou ontem, e a de 2027 já tem data. Poucos mercados sabem com tanta antecedência quando a demanda chega. Quanto dela fica na cidade depende de como o visitante é recebido.
Leia na próxima coluna: o Testamento Vital e quem decide sobre os cuidados de saúde quando a pessoa já não consegue dizer o que quer.
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Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC. linkedin.com/in/gilmaraespino
É a viagem motivada pela fé ou por práticas espirituais. Inclui romarias, visitas a santuários e templos, caminhos de peregrinação, retiros e encontros, em diferentes tradições religiosas.
É o conjunto de produtos, serviços e negócios ligados ao consumo e às necessidades das pessoas mais velhas, em geral a partir dos 50 ou 60 anos. Abrange setores como saúde, moradia, finanças, tecnologia e turismo.
A Festa de Iemanjá é celebrada em 2 de fevereiro, em Salvador. Em 2026, a Marcha para Jesus ocorreu em 4 de junho, em São Paulo, e a romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), foi de 26 de junho a 5 de julho. O Círio de Nazaré acontece no segundo domingo de outubro, em Belém, e a festa de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro.
É um órgão colegiado que reúne representantes do poder público, de empresas e de entidades locais para orientar a política de turismo da cidade. Sua composição e suas atribuições variam conforme a lei de cada município.
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