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Da redação do vestibular à conversa em família
Publicado 27/10/2026 • 18:00 | Atualizado há 8 horas
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Publicado 27/10/2026 • 18:00 | Atualizado há 8 horas
Patrícia Ferreira e o filho Guilherme, 18: longevidade é assunto de família.
A redação do vestibular era o meu monstro. Desconfio que foi o de muita gente. Para se ter uma ideia, em 1994, a nota da redação da Fuvest, principal processo seletivo para ingresso na USP, valia metade da prova de Português, o mesmo que dez questões objetivas juntas. Eu lia absolutamente toda notícia que passava na minha frente. Queria adivinhar o que viria como tema e estar preparada para ele.
Trinta e dois anos depois, ainda me pego interessada nos temas propostos nos concursos. Entendo-os como um espelho do que a sociedade discute e imagino milhares de jovens, como eu na época, interpretando os textos de apoio e construindo argumentos parágrafo a parágrafo. Neste ano, o espelho convidou os candidatos a pensar na própria longevidade.
Em menos de um ano, o assunto apareceu em pelo menos dois processos seletivos de referência nacional. O Enem 2025 propôs discutir as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira, e o vestibular de uma das universidades privadas mais bem avaliadas do país pediu que os candidatos tratassem a longevidade como objetivo e preocupação deles mesmos, com as questões familiares e financeiras no enunciado.
O envelhecimento já havia aparecido em vestibulares de universidades públicas em 2023 e 2024, mas até aqui as provas costumavam pedir ao jovem que olhasse para os outros: a sociedade que envelhece, o idoso discriminado, as políticas públicas. Agora pedem que olhe para si. É um convite para que o adolescente pense no que uma vida longa representará.
Flávia Santos, professora do ensino fundamental II e ensino médio, vê nos exames uma relação de mão dupla. "Os vestibulares refletem questões presentes na sociedade e, ao transformá-las em temas de redação, ampliam sua visibilidade e despertam o interesse dos jovens." O envelhecimento, para ela, é um bom exemplo: uma transformação importante da sociedade brasileira que nem sempre recebe a atenção necessária e que, ao aparecer na prova, ganha espaço nas escolas e estimula reflexões que podem chegar às famílias.
Guilherme Ferreira Cavalcanti, 18 anos, fez a prova de outubro e achou o tema "relativamente tranquilo de desenvolver". O assunto era conversa frequente em casa, sobretudo com a mãe, que é médica e pesquisadora da área. Mesmo assim, a prova trouxe novas considerações: "Já tinha pensado na importância de ter uma vida saudável, mas nunca tinha refletido muito sobre a longevidade como uma preocupação dos jovens".
Na redação, defendeu que quem está entrando na vida adulta deve se preocupar com isso desde cedo, sem deixar de aproveitar o presente. Tratou do equilíbrio entre estudos, trabalho, lazer, finanças e saúde mental.
Repare no vocabulário. Ao contar o que escreveu, Guilherme destacou preocupações próximas de sua vida atual. A própria coletânea da prova oferecia caminhos para essa reflexão, com textos sobre relacionamentos, planejamento financeiro e condições para envelhecer bem.
Guilherme tinha familiaridade com o assunto, e sua experiência não representa toda uma geração. Mas ela sugere uma pergunta para escolas, empresas e profissionais que querem conversar com os jovens: o que uma vida longa significa para eles hoje? Ouvir a resposta pode ajudar a desenvolver serviços e formas de comunicação que façam sentido para quem ainda está escolhendo uma profissão e começando a organizar a própria vida.
A mãe de Guilherme é Patrícia Ferreira, médica, head nacional de Longevidade da Rede D'Or e pesquisadora do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor). Ela faz a leitura de quem trabalha com o tema: o envelhecimento envolve questões biológicas, psicológicas, sociais, econômicas e estruturais. Convidar os jovens a ler e escrever sobre longevidade constrói pensamento crítico.
A conversa em família vai muito além de hábitos saudáveis: "É sobre educar nossos filhos sobre o futuro, sobre as escolhas, sobre finanças, sobre políticas públicas e privadas, sobre as carreiras, sobre os relacionamentos."
O tema da prova pode prolongar uma conversa iniciada na escola ou em casa. Ao explicar o que escreveu, o jovem também apresenta aos adultos suas próprias preocupações. Cabe perguntar o que ele gostaria de preservar ao longo da vida e discutir quais condições tornam isso possível, tanto nas decisões pessoais quanto nas oportunidades de estudo, trabalho e cuidado. Nas palavras de Patrícia, é preciso "começar a pensar agora e planejar o futuro".
A redação oferece um ponto de partida concreto, com a vantagem de já estar na pauta de quem acabou de sair do exame. Depois da prova, Guilherme ficou pensando nas condições em que gostaria de chegar aos 90 ou 100 anos. "No fim percebi que a longevidade não deveria ser apenas sobre quantos anos viveremos, mas sobre como viveremos esses anos e como chegaremos lá."
Leia também:
Na próxima coluna, essa discussão chega à formação de quem comanda empresas. A Fundação Dom Cabral incorporou uma disciplina de longevidade a um programa de desenvolvimento de executivos. O que essa aprendizagem pode mudar nas decisões dos negócios?
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
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