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Vida nas organizações Joaquim Santini

A IA ficou mais rápida. A organização continua lenta

Publicado 18/09/2026 • 10:57 | Atualizado há 4 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Nunca tivemos ferramentas tão poderosas para produzir mais em menos tempo. Textos que exigiam horas são elaborados em minutos. Análises que mobilizavam equipes podem ser iniciadas por uma única pessoa. Relatórios, apresentações e pesquisas são acelerados pela inteligência artificial.

No nível individual, os ganhos já são percebidos. A pergunta é se essa velocidade está, de fato, chegando à organização.

Uma pesquisa global da McKinsey, publicada em agosto de 2026, ajuda a tornar essa questão visível. O levantamento ouviu 1.719 participantes de 97 países. Entre eles, 80% afirmaram que a IA havia melhorado sua produtividade individual, enquanto 37% atribuíram a ela alguma contribuição positiva para o EBIT de suas organizações.

Os números medem fenômenos diferentes. Ainda assim, o contraste levanta uma questão importante: por que a velocidade conquistada pelas pessoas encontra tanta dificuldade para se transformar em resultado organizacional?

A tarefa acelera. A decisão, nem sempre.

A IA pode reduzir de horas para minutos o tempo necessário para produzir uma análise. Mas uma análise pronta ainda não é uma decisão. Ela precisa ser interpretada, questionada e transformada em ação.

É nessa passagem que o ganho individual encontra a organização.

Se o trabalho continua percorrendo os mesmos níveis de aprovação, aguardando as mesmas reuniões e retornando para sucessivas validações, a capacidade de produção aumentou, mas o ciclo da decisão permaneceu praticamente intacto.

A explicação mais imediata seria atribuir essa lentidão a processos excessivos ou estruturas rígidas. Esses fatores existem, mas não explicam tudo.

Uma aprovação não exerce apenas uma função técnica. Também confirma quem possui autoridade para decidir. Uma reunião não serve somente para compartilhar informações. Pode distribuir o risco de uma escolha difícil. Uma nova análise pode ampliar o conhecimento e, ao mesmo tempo, adiar o momento em que alguém precisará assumir responsabilidade.

Por isso, eliminar uma etapa nem sempre elimina a função que ela exerce na vida da organização. Quando essa função não é compreendida, reaparece em outra

aprovação, reunião ou instância de validação. O processo muda, mas o funcionamento anterior encontra uma nova forma de se preservar.

O que já estava presente

Foi observando esse fenômeno em processos de transformação empresarial que comecei a trabalhar com o que chamo de Campo Psicodinâmico da Vida Organizacional.

Toda organização possui uma Arquitetura Formal, expressa em estruturas, processos, tecnologias, responsabilidades e mecanismos de decisão. Simultaneamente, opera em um Campo Psicodinâmico, presente nas relações, nos vínculos, nas identidades, na confiança, nas dependências e nas formas de exercício do poder.

Não são duas organizações nem duas dimensões que funcionam separadamente. Arquitetura Formal e Campo Psicodinâmico são distinguíveis, mas inseparáveis. Cada um participa continuamente da produção e da transformação do outro.

Isso significa que não existe primeiro uma decisão puramente técnica que, depois de tomada, produz efeitos humanos. O campo já participa da maneira como o problema é percebido, das alternativas consideradas possíveis, de quem possui legitimidade para falar e da autoridade reconhecida para decidir.

Mesmo quando uma liderança acredita estar discutindo apenas um processo, uma tecnologia ou um indicador, sua interpretação já está atravessada pela história da organização, pelas relações de confiança e pelas posições que as pessoas procuram preservar ou transformar.

Os vínculos são parte central dessa dinâmica. É por meio deles que a autoridade conquista ou perde legitimidade, que a confiança permite assumir riscos, que a divergência pode ser sustentada e que a responsabilidade deixa de existir apenas no organograma.

Quando esses vínculos não sustentam a ação coletiva, a organização tenta compensar sua fragilidade com mais controles, mais aprovações e maior concentração de decisões. A lentidão que aparece no processo pode ser a manifestação visível de uma dificuldade existente nas relações.

A grande virada da gestão

A era digital não criou o Campo Psicodinâmico da Vida Organizacional. Organizações sempre foram atravessadas por vínculos, identidades, expectativas, conflitos, dependências e relações de poder.

O que a aceleração tecnológica faz é ampliar a distância entre aquilo que as ferramentas permitem realizar e aquilo que a organização consegue transformar

em resultado. Quanto mais rapidamente a IA produz análises e alternativas, mais visível se torna a demora para decidir. Quanto mais conhecimento coloca à disposição das pessoas, mais expõe relações de dependência e concentração de poder.

A grande virada, portanto, não consiste em incorporar o Campo Psicodinâmico à gestão, como se ele estivesse ausente. Toda gestão já acontece dentro dele e por meio dele, mesmo quando os líderes acreditam administrar apenas processos, tecnologias e indicadores.

A virada está em reconhecer sua presença e desenvolver a capacidade de percebê-lo e trabalhá-lo conscientemente.

Isso exige ampliar a própria ideia de gestão. Estratégia, estruturas, metas, sistemas e critérios de decisão continuam indispensáveis. Mas os líderes também precisarão compreender como vínculos, confiança, identidade e poder participam da construção dessas escolhas e da possibilidade de realizá-las.

Não se trata de substituir processos por conversas ou racionalidade por emoção. Trata-se de abandonar a ilusão de que a Arquitetura Formal funciona separadamente da vida relacional que a produz e pela qual também é produzida.

À medida que a inteligência artificial tornar mais acessível a capacidade de produzir respostas, análises e recomendações, o diferencial entre as empresas começará a se deslocar. Muitas terão acesso às mesmas tecnologias. Poucas conseguirão transformar essa inteligência disponível em decisão responsável e ação coordenada.

As que não compreenderem essa dinâmica poderão utilizar tecnologias novas para reproduzir, com maior velocidade, antigas formas de funcionar. As que aprenderem a reconhecer o Campo Psicodinâmico terão melhores condições de converter capacidade tecnológica em capacidade organizacional.

A inteligência artificial não está criando uma nova dimensão da vida nas empresas. Está tornando mais difícil continuar ignorando uma dimensão que sempre esteve presente.

Na era digital, o grande salto não acontecerá apenas quando as máquinas se tornarem mais rápidas. Acontecerá quando a gestão aprender a enxergar a organização inteira.

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