O Conselho Monetário Nacional proibiu derivativos ligados a eventos, fechando espaço para mercados de previsão no Brasil e levantando preocupações sobre impactos regulatórios no setor cripto.
Especialistas apontam que a medida pode empurrar investidores para alternativas descentralizadas, como a Polymarket, além de forçar empresas brasileiras a migrar operações para o exterior.
Em paralelo, o avanço da IA amplia riscos de ciberataques, pressionando empresas a reforçar segurança enquanto investidores enfrentam um cenário de alta volatilidade e incerteza no mercado.
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Criptomoedas
O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu proibir derivativos atrelados a eventos como esportes e política no Brasil, movimento que fecha espaço para os chamados mercados de previsão e acende um alerta sobre os impactos regulatórios no ecossistema cripto.
A decisão ocorre em um momento de crescimento global desse tipo de mercado, que permite apostas em desfechos futuros, de eleições a competições esportivas, muitas vezes utilizando ativos digitais. Para especialistas, a medida pode ter efeitos colaterais indesejados.
Segundo o CEO da Digitra e do token DGTA, Rodrigo Batista, a proibição tende a empurrar investidores para alternativas fora do sistema tradicional. “Quando você tenta proibir algo na internet, esse algo acaba sendo mais difundido. As pessoas vão procurar alternativas, tanto em serviços centralizados quanto descentralizados”, afirmou.
Entre essas opções estão plataformas como a Polymarket, considerada pioneira no segmento, que opera de forma descentralizada e permite transações com criptoativos, sem a necessidade de meios tradicionais como cartão de crédito ou Pix.
Além do impacto sobre investidores, a medida também afeta empresas e empreendedores que atuavam no setor no Brasil. A tendência, segundo Batista, é que essas iniciativas migrem para o exterior ou encerrem suas atividades. “O Brasil não ganha nada proibindo isso e, na prática, pode estimular ainda mais o uso dessas soluções fora do país”, disse.
IA amplia riscos de ciberataques no setor cripto
O debate regulatório ocorre em paralelo a outro desafio crescente para o setor: a segurança digital. Relatório recente da empresa de inteligência artificial Anthropic aponta que modelos avançados de IA já são capazes de identificar vulnerabilidades em softwares com alto grau de autonomia — e, em alguns casos, transformá-las em ataques funcionais.
Segundo o estudo, essas ferramentas podem contornar sistemas de autenticação, acessar contas sem credenciais válidas e até executar ataques de negação de serviço, ampliando os riscos para empresas que operam com ativos digitais.
Especialistas destacam que o risco é maior para plataformas centralizadas, como exchanges e aplicativos que armazenam grandes volumes de recursos de clientes. Já redes como o Bitcoin tendem a ser mais resilientes, devido à sua estrutura descentralizada e à simplicidade do código.
Ainda assim, Batista pondera que nenhum sistema está totalmente imune. “Mesmo softwares antigos e de código aberto podem ter falhas que passam despercebidas por anos. A inteligência artificial pode ajudar a encontrar essas vulnerabilidades”, afirmou.
Empresas reforçam segurança diante de nova ameaça
Diante desse cenário, empresas do setor têm intensificado investimentos em segurança e adotado a própria inteligência artificial como ferramenta de defesa. A recomendação de especialistas inclui reduzir o tempo de resposta a falhas, automatizar atualizações e fortalecer protocolos de proteção.
Apesar dos riscos, a avaliação predominante é de que o mercado já convive com ameaças semelhantes e tem evoluído para mitigá-las. “As empresas sabem se proteger e já utilizam IA para isso. Não é um risco novo, mas uma nova ferramenta tanto para ataque quanto para defesa”, disse Batista.
Para investidores, uma das principais recomendações segue sendo a custódia própria de ativos — ainda que essa prática também envolva riscos, como perda de acesso às chaves digitais.
Volatilidade e estratégia de longo prazo
Em meio às incertezas, a volatilidade do mercado cripto continua sendo influenciada por fatores macroeconômicos e geopolíticos, como guerras, juros e variação cambial.
Nesse contexto, especialistas reforçam a dificuldade de prever movimentos de curto prazo e defendem estratégias graduais de investimento. “É praticamente impossível acertar o melhor momento de entrada ou saída. O ideal é investir aos poucos, diluindo o risco ao longo do tempo”, afirmou Batista.