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Além do corte: certificação, raça e origem ampliam valor da carne brasileira
Publicado 31/08/2026 • 07:02 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 31/08/2026 • 07:02 | Atualizado há 2 meses
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O Brasil produz carne bovina em escala recorde e movimenta uma cadeia de mais de US$ 200 bilhões. Em meio a esse volume, parte do setor avança em outra direção: encontrar formas de fazer cada quilo de carne valer mais.
Raça, origem, rastreabilidade, manejo e certificações começam a ganhar espaço como argumentos comerciais para distinguir produtos que, para boa parte dos consumidores, ainda são identificados apenas pelo corte e pelo preço.
O sistema agroindustrial da carne bovina movimentou US$ 207,46 bilhões em 2025, segundo o Beef Report 2026, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A estimativa considera diferentes elos da cadeia, da produção pecuária à indústria frigorífica e ao varejo.
A dimensão também aparece nos dados de produção. O país abateu 42,94 milhões de bovinos em 2025, alta de 8,2% em relação ao ano anterior e o maior resultado da série histórica do IBGE.
Em um negócio dessa escala, ampliar o valor obtido por cada produto pode ser tão importante quanto aumentar o volume vendido.
Leia também: Do grão à marca: como produtores de cafés especiais buscam agregar mais valor à produção
Não há uma estatística única que dimensione todo o mercado brasileiro de carnes premium. Programas de certificação, no entanto, oferecem sinais concretos de que algumas características já conseguem se traduzir em preço.
O Programa Carne Angus Certificada encerrou 2025 com o maior número de animais certificados de seus 23 anos de história. Foram 612,21 mil bovinos abatidos, crescimento de 20% em relação a 2024, segundo a Associação Brasileira de Angus.
Os abates resultaram em 53 mil toneladas de cortes certificados, dos quais 78,7% permaneceram no mercado interno.
Nas exportações, a diferença de valor fica mais evidente. O Brasil embarcou 11,28 mil toneladas de Carne Angus Certificada em 2025, alta de 260% em um ano, com destino a 35 países.
Segundo a associação, os cortes foram negociados por US$ 8.505 a tonelada, em média, valor 53,5% superior ao obtido pela carne bovina padrão de exportação.
O prêmio ajuda a mostrar como raça, padrão de qualidade e certificação podem criar categorias de maior valor dentro de um mercado marcado pela produção em grande escala. Mas associar qualidade apenas ao nome da raça é uma simplificação.
“A raça sozinha não entrega uma carne de qualidade. Todo o processo da cadeia produtiva é importante para se chegar a esse resultado”, afirma Larissa Morales, sommelière de carnes, em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.
Segundo ela, fatores como genética, alimentação, manejo, sistema de criação e maturação interferem tanto nas características finais da carne quanto no custo necessário para produzi-la — o que explica por que animais com o mesmo selo racial podem apresentar qualidade bem diferente entre si.
A maturação é um exemplo. No processo a seco, conhecido como dry aging, a carne permanece em uma câmara com temperatura e umidade controladas e perde peso durante o período de maturação. A camada externa formada no processo também precisa ser retirada antes do consumo, reduzindo novamente o rendimento.
No caso de raças como Angus e Wagyu, a certificação busca ainda garantir que o nome usado para diferenciar o produto corresponda a critérios previamente estabelecidos. O protocolo de Carne Wagyu Certificada, por exemplo, prevê verificações de padrão racial, idade e sexo do animal, além de controles realizados durante o abate.
Para Larissa, esse controle também reduz o risco de o consumidor desembolsar mais apenas pela força comercial de determinados nomes.
Se a indústria consegue criar produtos de maior valor, o desafio seguinte está na outra ponta da cadeia: fazer o consumidor reconhecer essas diferenças.
Uma pesquisa encomendada pelo movimento A Carne do Futuro é Animal ao Instituto Qualibest ouviu 1.021 pessoas no país para mapear hábitos e percepções relacionados às proteínas.
Entre os entrevistados, 63% dizem consumir carne bovina duas ou mais vezes por semana, enquanto outros 21% afirmam consumi-la uma vez por semana.
O conhecimento sobre algumas características do produto, porém, é menos disseminado.
Para 32% dos entrevistados, a raça nunca influencia a decisão de compra, enquanto 22% afirmam que ela raramente interfere. Somados, 54% atribuem pouca ou nenhuma influência a esse aspecto.
Angus aparece como a raça preferida de 37% da amostra, seguida pelo Nelore, com 23%. Wagyu é citado por 3% e Hereford, por 2%. Ao mesmo tempo, 34% dizem não saber identificar a raça que preferem comprar.
A procedência desperta maior interesse. Segundo o levantamento, 77% consideram importante ou muito importante saber a origem da carne bovina. Além disso, 63% declaram alguma disposição a pagar mais para ter essa informação: 44% pagariam “um pouco a mais” e 19%, “a mais”.
É justamente aí que Larissa identifica uma barreira para o setor.
“Falta a informação chegar até o consumidor final”, afirma. Para ela, dados como local e forma de produção, sistema de alimentação, idade de abate e grau de marmoreio ainda aparecem pouco na experiência de compra.
“Sem essa informação chegando ao consumidor, não é possível agregar valor.”
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Siga o Times | CNBCA pesquisa apresenta uma distância semelhante quando trata de sustentabilidade e bem-estar animal.
Para 78% dos entrevistados, é importante ou muito importante que a carne seja produzida de forma sustentável. Quando entra o preço, porém, 49% dizem que pagariam algum valor adicional por uma certificação ligada ao tema.
No bem-estar animal, 86% consideram importante ou muito importante que a carne tenha certificações, enquanto 51% declaram disposição a pagar algum adicional.
Os resultados apontam interesse, mas mostram que considerar uma característica relevante não significa necessariamente utilizá-la como critério de consumo.
Quando questionados sobre o que influencia a intenção de consumir carne bovina nos seis meses seguintes, 41% citam o gosto pelo alimento ou o fato de ele fazer parte da rotina. Valor nutricional aparece com 20% e preço em comparação a outras carnes, com 10%.
Sustentabilidade e bem-estar animal são mencionados por 3% cada. Origem e rastreabilidade aparecem com 2%.
Há ainda outra questão para a cadeia: quanto do preço adicional pago por uma carne diferenciada chega efetivamente ao produtor?
Na avaliação de Larissa, nem sempre a remuneração recebida pelo pecuarista é suficiente para compensar os investimentos necessários para produzir uma carne de maior qualidade.
“Muitas vezes, é mais vantajoso para ele produzir uma carne commodity do que investir no manejo, alimentação e tempo extra que uma carne premium exige”, afirma.
Essa dinâmica expõe uma questão econômica central para o avanço do segmento premium: o preço obtido nas etapas seguintes da cadeia precisa ser capaz de remunerar os investimentos extras feitos na porteira da fazenda.
No programa Angus, a própria associação afirma que a valorização dos produtos certificados tem reflexos no campo, incluindo diferentes categorias de animais e genética. Os dados públicos divulgados pela entidade, porém, não permitem calcular quanto do prêmio de 53,5% observado nas exportações chega diretamente ao pecuarista.
A dificuldade de fazer o consumidor reconhecer características que começam muito antes do açougue também abriu espaço para experiências voltadas à educação sobre a carne.
Larissa criou o Terroir da Carne, projeto que usa uma lógica já conhecida no universo dos vinhos para mostrar como raça, alimentação, manejo e processos produtivos podem interferir no produto final.
Em parceria com o movimento A Carne do Futuro é Animal, uma das experiências propõe uma degustação às cegas de carnes Angus e Wagyu. Os participantes comparam atributos como marmoreio, textura e suculência.
O encontro, realizado em São Paulo para grupos de até 20 pessoas, custa R$ 620 por participante e inclui diferentes preparos e harmonização com vinhos.
O formato representa um nicho e, isoladamente, não permite medir o crescimento do segmento premium brasileiro. Ele ilustra, porém, uma tentativa de fazer características da produção chegarem ao consumidor por meio da experiência.
A estratégia guarda semelhanças com movimentos já consolidados em outros alimentos e bebidas. No café especial, região, fazenda, variedade e método de processamento ajudam a diferenciar produtos. No vinho, origem, uva, safra e denominação fazem parte do posicionamento da garrafa.
Na carne, parte da cadeia tenta levar genética, procedência, manejo e certificações para mais perto da decisão de compra.
Isso não significa que o consumidor brasileiro esteja migrando em massa para produtos premium. A própria pesquisa mostra a predominância dos canais tradicionais: 69% afirmam comprar carne bovina em hipermercados ou supermercados e 60%, em açougues. Boutiques de carne são citadas por 13%.
A carne também permanece ligada ao cotidiano. 73% dizem consumi-la em almoços comuns em casa, enquanto 62% citam churrascos realizados na própria casa ou na de amigos e familiares.
As expectativas apontadas pelos consumidores dão pistas sobre quais características podem ganhar relevância nessa disputa.
Questionados sobre o que esperam da chamada “carne do futuro”, 47% citam produção com menor impacto ambiental, 40% mencionam mais segurança e qualidade, 37% querem mais sabor e 36% apontam garantia de bem-estar animal.
Ao mesmo tempo, 57% acreditam que a carne continuará sendo a principal proteína dos brasileiros. Outros 17% esperam que proteínas vegetais ou cultivadas em laboratório cresçam mais, mas sem substituir a proteína animal.
Para Larissa, a informação tende a ocupar papel central nesse processo.
“Quando as marcas começarem a transmitir melhor as informações sobre o produto, sua origem e como foi produzido, o consumidor final vai passar a olhar para essa carne de outra maneira”, afirma.
Em uma cadeia de mais de US$ 200 bilhões, fazer a carne valer mais pode depender não apenas de produzir atributos diferentes, mas de conseguir fazer o consumidor reconhecê-los.
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