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Corsan acelera saneamento no RS após privatização, mas universalização ainda desafia o estado

Publicado 11/06/2026 • 21:33 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Cobertura de esgoto nos municípios atendidos pela companhia saiu de 19% para 30% em menos de três anos, avanço equivalente a mais de 50% de toda a expansão histórica registrada antes.
  • Desde o início da concessão, foram R$ 4,3 bilhões investidos, 852 mil pessoas beneficiadas e 47,2 mil empregos diretos, indiretos e induzidos gerados.
  • "Uma virada de chave de uma empresa estatal para uma empresa privada com vontade de investir é um divisor de águas imenso", diz a presidente da Corsan.

Divulgação/Corsan

Cobertura de esgoto nos municípios atendidos pela Corsan saiu de 19% para 30% em menos de três anos

Durante quase seis décadas, o Rio Grande do Sul conviveu com um paradoxo. Quarto maior gerador de riqueza do país, o estado era também um dos que menos tratava o esgoto produzido por sua própria população. Quando a Corsan passou para gestão privada, em julho de 2023, apenas 19% dos domicílios nas cidades atendidas tinham acesso à rede de esgoto. O ritmo histórico de expansão era tão lento que, mantida aquela velocidade, a universalização só seria alcançada depois de 2060, segundo projeções do Instituto Trata Brasil.

Em menos de três anos, esse prazo ficou para trás. A cobertura de esgoto saiu de 19% para 30% nos municípios atendidos pela Corsan, um salto que representa mais de 50% de toda a expansão histórica da companhia.

Considerando todos os prestadores do estado, o Rio Grande do Sul tem 86,2% da população com acesso à água potável, 34,7% com coleta de esgoto e 25,4% do esgoto gerado tratado, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) 2026, informados pelo Instituto Trata Brasil. Foram 852 mil pessoas beneficiadas e R$ 4,3 bilhões investidos desde o início da concessão, a um ritmo quase quatro vezes superior ao do período estatal, segundo balanço da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul.

As obras mobilizaram ainda a economia regional: 47,2 mil empregos diretos, indiretos e induzidos foram gerados, com 200 empresas cadastradas no programa de fornecedores locais da companhia.

Para Samanta Takimi, presidente da Corsan, a mudança de modelo foi o que tornou esse ritmo possível. “Uma virada de chave de uma empresa estatal para uma empresa privada com vontade de investir é um divisor de águas imenso. A gente passa de uma lógica de baixo índice de investimento, engessamento das estruturas, inúmeros processos trabalhistas, para uma lógica de governança estruturada na entrega”, disse ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC. Em três anos, segundo a companhia, o avanço equivale a mais da metade do que havia sido feito nos quase 60 anos anteriores — e tudo isso enquanto a operação continuava rodando para milhões de pessoas, sem interrupção.

Thaís Mallmann, diretora regulatória da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon), trabalhou por mais de uma década no setor público gaúcho, incluindo cinco anos na própria Corsan quando ainda era estatal, antes de migrar para o privado.

Para ela, a diferença de ritmo tem uma causa estrutural. “No setor público, uma licitação pode levar um, dois anos para sair do papel. Há disputas judiciais, impugnações, recursos. O privado não tem isso. Ele pode escolher quem contratar, preza pela eficiência e não perde tempo com burocracia”, explicou. “O público acaba destinando recursos que deveriam ir para o saneamento para pagar o custeio da máquina pública. E isso reflete diretamente nas metas de universalização”, disse.

Segundo Mallmann, às vésperas da privatização, a própria Corsan gastava em indenizações trabalhistas um valor equivalente ao que investia em saneamento em um ano inteiro.

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A vida que muda quando a obra chega

Em Guaíba, no bairro Jardim dos Lagos, Luciane Lacerda, autônoma na área de vendas, esperou quatro anos para ver a obra chegar. O bairro era planejado, mas operava com sistema de fossa. Com o tempo, o solo saturou e o banheiro da casa parou de funcionar. Ela chegou a gastar R$ 3 mil a R$ 4 mil em desentupidoras particulares sem solução definitiva.

“Eu fazia hoje [o serviço] e na semana seguinte continuava com o mesmo problema”, contou. Depois de protocolar pedidos na Corsan e participar de reuniões com moradores, Luciane recebeu, em maio, a confirmação de que a obra começaria ainda neste ano, sendo que o prazo esperado era 2027. “Não tínhamos nem expectativa de estar num projeto deste tamanho. Estar com isso pronto em seis meses, pra mim, já é de muita felicidade”, disse ela.

No bairro Umbu, em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, a chegada do esgoto veio atrelada a um processo mais amplo de urbanização e melhora da segurança pública local — um exemplo do que Samanta Takimi chama de transformação em cadeia. “A gente movimenta a cidade, movimenta a economia e começa uma caminhada de ajustes que mudam a realidade das pessoas”, disse a presidente.

Para ela, o maior obstáculo ainda é cultural. “O esgotamento sanitário é o nosso ‘filhinho feio’. Se o esgoto não está extravasando dentro da residência, a pessoa não quer saber pra onde está indo. O desafio não é só implementar a infraestrutura. Há uma mudança de pensamento necessária nas pessoas para valorizarem o esgotamento sanitário.”

Para viabilizar as obras em cidades menores, a Corsan passou a utilizar o SCOTTE, sistema compacto de tratamento de esgoto que reduz o prazo de implantação de até 24 meses para apenas três meses. No combate às perdas hídricas, foram mapeados 36,8 mil quilômetros de rede com uso combinado de satélite e geofones, o que permitiu localizar e solucionar mais de 23 mil vazamentos ocultos. O volume total de água recuperada equivale ao abastecimento de uma cidade como Canoas por 18 meses.

O teste da enchente

Nenhum plano conseguiria prever uma enchente como a de 2024. Com 236 dos 317 municípios atendidos em estado de emergência, a Corsan precisou reconfigurar sistemas, mobilizar equipes e garantir água para uma população que enfrentava uma situação de emergência. Ao todo, foram 5 mil colaboradores operando com carros-pipa, estações de tratamento móveis e perfuração de poços.

Da crise também saiu um plano: R$ 1,88 bilhão em investimentos para realocar estruturas vulneráveis e reforçar a capacidade de resposta a eventos climáticos extremos. “Não mais reagimos à crise; nós a antecipamos”, disse José João de Jesus da Fonseca, diretor de Operações da Corsan. “Água tratada é a barreira que impede que uma tragédia climática vire uma crise sanitária em cadeia. Onde ela chega, a doença não alcança.”

Para Thaís Mallmann, a resposta durante a enchente expôs uma diferença estrutural entre os modelos de gestão. “Eu tenho certeza que a Corsan pública não faria o que a Corsan privada fez. No público, o gestor tem medo de fazer contratação emergencial e o Tribunal de Contas apontar que está errado. O privado contratou sem burocracia, colocou carros na rua com caixas d’água”, disse ela, ressalvando que não se trata de uma regra absoluta. “Há exceções no setor público, como a Sanepar, que ao longo da história construiu uma boa governança. Mas são casos que levaram décadas para chegar onde estão.”

O que está em jogo

O governo estadual avalia que os efeitos da privatização já são mensuráveis. “Com a privatização, houve ampliação significativa da capacidade de investimento, além de maior eficiência operacional e maior resiliência — inclusive frente aos eventos extremos recentes”, afirmou a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

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Segundo estudo do Instituto Trata Brasil em parceria com a Ex Ante Consultoria, a universalização dos serviços até 2033 pode gerar cerca de R$ 38 bilhões em ganhos para o estado, com retorno de R$ 4,80 para cada R$ 1 investido, acima da média nacional. “O investimento em saneamento se traduz em obras, que se traduz em mais pessoas com acesso aos serviços”, afirmou Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto. “Entretanto, o ciclo de vida é longo até girar o ponteiro dos números.”

Os mais afetados pela ausência desses serviços são as crianças. Pesquisa do Trata Brasil aponta que quatro em cada dez crianças brasileiras de até seis anos se afastam de creches e escolas por causa da falta de saneamento. O contingente, em números absolutos, equivale à população do Paraguai.

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O caminho até 2033

A meta do Marco Legal do Saneamento é chegar a 90% de cobertura de esgoto até 2033. O ritmo atual está avançando, mas ainda há um longo caminho pela frente.

O investimento per capita no estado chegou a R$ 199,82 por habitante ao ano, ainda abaixo dos R$ 225,00 estimados como necessários para cumprir a universalização no prazo, segundo o Instituto Trata Brasil.

Para Thaís Mallmann, da Abcon, a discussão sobre prorrogação desse prazo desvia do que realmente importa. “A gente não tá falando de um número, a gente tá falando de vidas, de pessoas. Você vai falar para a população: ‘Nós vamos empurrar mais dez anos você nessa situação, sem água e sem esgoto?'”, questionou.

O maior gargalo, segundo a especialista, está nos municípios que ainda não têm um plano claro de expansão. No Rio Grande do Sul, são cerca de 176 cidades fora da área da Corsan que precisam definir seu caminho até a universalização. Em 2025, o governo estadual firmou parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Infraestrutura Regional Sustentável (FDIRS) para estruturar concessões regionais voltadas a esses municípios.

Samanta Takimi acredita que, para os municípios da Corsan, o prazo é alcançável. “As obras começaram imediatamente, há um cronograma, as equipes estão debruçadas. Tem plenas condições de se fazer o atendimento das metas”, disse a presidente.

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