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B3 em baixa: fuga de empresas expõe fragilidade da bolsa de valores

Publicado 17/03/2026 • 21:35 | Atualizado há 3 meses

KEY POINTS

  • Mesmo com o Ibovespa em alta, mais de 30 empresas fecharam capital na B3 desde 2023, segundo levantamento da Elos Ayta.
  • Recorte mais amplo aponta 64 saídas desde 2024, incluindo cancelamentos de registro, deslistagens e migração para o exterior.
  • Juros altos, ações descontadas e baixa liquidez fora das blue chips ajudam a explicar por que empresas estão deixando a bolsa, enquanto poucas entram.

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B3

Mesmo com o Ibovespa em patamar elevado, a B3 continua perdendo empresas. Levantamento exclusivo da Elos Ayta Consultoria mostra que 37 companhias fecharam capital na bolsa desde 2023, em uma lista que reúne nomes como Banco Pan, BRF, JBS, Carrefour Brasil, Cielo, Grupo Soma e Boa Vista.

Os dados jogam luz sobre uma contradição: a bolsa pode até subir, mas isso não significa necessariamente que esteja saudável como ambiente de listagem. Quando empresas continuam saindo, o índice passa a conviver com uma vitrine mais vazia, mais concentrada e menos diversa.

Empresas que fecharam capital na B3 desde 2023

Empresa Código Setor Data saída
Mont Aranha MOAR3 Holdings diversificadas 29/01/2026
Banco Pan BPAN4 Bancos 23/01/2026
Wilson Sons PORT3 Serviços de apoio e armazenagem 03/12/2025
Santos Brp STBP3 Serviços de apoio e armazenagem 02/10/2025
BRF SA BRFS3 Carnes e derivados 22/09/2025
GP Invest GPIV33 Gestão de recursos e investimentos 11/08/2025
Eletromidia ELMD3 Publicidade e propaganda 12/06/2025
JBS JBSS3 Carnes e derivados 06/06/2025
Carrefour BR CRFB3 Alimentos 30/05/2025
Eletropar LIPR3 Energia elétrica 27/05/2025
Kora Saude KRSA3 Serviços médico-hospitalares 14/04/2025
Clearsale CLSA3 Serviços financeiros diversos 01/04/2025
Brisanet BRIT3 Telecomunicações 04/12/2024
AES Brasil AESB3 Energia elétrica 31/10/2024
Alper S.A. APER3 Corretoras de seguros e resseguros 03/09/2024
Cosern CSRN3 Energia elétrica 29/08/2024
Cielo CIEL3 Serviços financeiros diversos 26/08/2024
Coteminas CTNM4 Fios e tecidos 15/08/2024
Springs SGPS3 Fios e tecidos 15/08/2024
Enauta ENAT3 Exploração refino e distribuição 31/07/2024
Grupo Soma SOMA3 Tecidos vestuário e calçados 31/07/2024
Dmfinanceira DMFN3 Soc. crédito e financiamento 12/07/2024
Pomifrutas FRTA3 Agricultura 17/04/2024
Alfa Invest BRIV4 Bancos 28/03/2024
Alfa Consorcios BRGE3 Seguradoras 27/03/2024
Alfa Financeira CRIV4 Soc. crédito e financiamento 27/03/2024
Seg Aliança Bahia CSAB3 Seguradoras 05/01/2024
Sinqia SQIA3 Programas e serviços 01/11/2023
BR Properties BRPR3 Exploração de imóveis 19/10/2023
Saraiva Livraria SLED4 Produtos diversos 04/10/2023
Energias BR ENBR3 Energia elétrica 21/08/2023
Boa Vista BOAS3 Serviços financeiros diversos 07/08/2023
Modalmais MODL3 Bancos 30/06/2023
IGB S/A IGBR3 Exploração de imóveis 06/06/2023
Hermes Pardini PARD3 Serviços médico-hospitalares 28/04/2023
BR Malls BRML3 Exploração de imóveis 06/01/2023
Dommo DMMO3 Exploração refino e distribuição 06/01/2023
Fonte: Elos Ayta Consultoria

Em um recorte mais amplo, o esvaziamento da B3 aparece de forma ainda mais forte. Levantamento do TradeMap aponta 64 deslistagens entre 2024 e 17 de março de 2026, considerando empresas que cancelaram registro na CVM, deixaram de negociar ações na B3 ou migraram de listagem. Foram 18 casos em 2024, 38 em 2025 e 8 em 2026 até agora.

Os dois levantamentos sugerem que a alta do índice convive com a dificuldade da B3 de manter empresas listadas em um mercado que continua funcionando de forma desigual entre as grandes blue chips e o restante da bolsa.

Leia também: Fuga de empresas da bolsa brasileira reflete custo alto, baixa liquidez e busca por mercados mais atrativos

Juros altos, desconto e ação barata

Para Marcos de Marchi, sócio e economista-chefe da Oriz Partners, a principal explicação para esse movimento passa pelo ambiente de juros elevados e pela forma como ele afeta a precificação das empresas.

“Existe um cálculo por parte das empresas em que o valor da empresa é maior do que aquilo que está precificado no mercado”, afirma.

Na avaliação dele, o descompasso entre o que os controladores entendem como “valor justo” e o “valor que aparece na tela” faz com que o fechamento de capital deixe de ser uma exceção e passe a parecer uma decisão econômica racional, inclusive para empresas saudáveis.

Marchi ressalta que esse raciocínio vale não apenas para companhias pressionadas por dívida, mas também para empresas que acumularam caixa e passaram a enxergar vantagem econômica em sair da bolsa num ambiente de Selic alta e desconto persistente sobre as ações.

A leitura de Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, vai na mesma direção. Para ele, o ambiente de juros altos também afastou investidores da renda variável e reduziu o fluxo estrutural para ações, o que ajudou a deprimir a precificação até de empresas consideradas boas.

“Ao longo dos últimos anos, a gente teve taxas de juros muito altos no Brasil e isso afugentou muitos investidores de bolsa”, afirma.

Na avaliação dele, essa falta de fluxo fez com que muitas ações deixassem de refletir o potencial real dos negócios.

“A precificação dos ativos das empresas de qualidade acaba não sendo não atingindo o ponto ótimo”, diz.

Nesse cenário, o próprio controlador passa a enxergar a recompra de ações como um investimento melhor do que continuar exposto a uma bolsa que não remunera o ativo como ele acredita que deveria.

“O melhor investimento do mundo é recomprar ações da própria empresa”, avalia.

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A leitura de Alex André, head de Corporate Access da MZ Group, acrescenta outra camada a essa discussão: fora do núcleo mais conhecido da B3, muitas companhias sofrem com baixa liquidez e pouca visibilidade diante do mercado.

“Liquidez também é um grande causador disso”, afirma.

Segundo ele, em parte dos casos o problema está no fato de que a tese da empresa simplesmente não chega com força suficiente ao investidor.

Para Alex, isso ajuda a explicar por que o bom momento do Ibovespa muitas vezes não se espalha pelo resto da bolsa.

Leia também: Bolsas de Nova York fecham em alta antes de decisão de juros do Fed

Quando ficar listado deixa de fazer sentido

Para Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, o fechamento de capital segue uma lógica parecida com a falta de apetite das empresas por novas listagens no país.

Na visão dele, quando a empresa é lucrativa, tem pouco free float e gera caixa suficiente para recomprar as ações em circulação, a permanência na bolsa pode perder sentido para o controlador.

“Por que você vai querer ter um sócio, ou vários sócios minoritários em bolsa, ter de trazer esses caras para a discussão por um capital que você consegue gerar a partir dos seus próprios negócios em um ano?”, questiona.

O argumento é que, nessas condições, o custo de seguir listado pode pesar mais do que os benefícios.

“Faz sentido você ficar carregando um custo com R.I, carregando custos de diligência, de compliance e de divulgação de balanço para manter a empresa listada e ter um capital muito pequeno à sua disposição?”, pondera.

Essa leitura ajuda a explicar por que a saída da B3 não se restringe a companhias em dificuldade. Em alguns casos, empresas rentáveis e com estrutura de capital sólida podem concluir que a bolsa deixou de ser uma fonte relevante de financiamento ou uma vitrine eficiente para o valor do negócio.

Listar fora também pode virar estratégia

Em alguns casos, a saída da B3 não significa apenas fechar capital, mas buscar uma listagem em outro mercado. Para Filipe, esse movimento também pode fazer sentido para companhias que querem acessar investidores maiores e mercados mais líquidos.

“Talvez faça sentido ter um custo um pouco maior para listar o capital lá fora, mas ter acesso a outros bolsos”, afirma.

Essa lógica conversa com o levantamento do TradeMap, que inclui casos de migração de listagem no recorte mais amplo de deslistagens. O efeito final, para o investidor, é o de menos empresas disponíveis e uma bolsa mais concentrada em poucos nomes de maior liquidez.

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