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Cota chinesa pode reduzir exportações de carne até outubro

Publicado 14/08/2026 • 22:07 | Atualizado há 47 minutos

KEY POINTS

  • Exportações brasileiras de carne bovina para a China devem desacelerar diante da proximidade do limite da cota estabelecida para este ano.
  • Frigoríficos exportadores devem sentir primeiro os efeitos, seguidos por pecuaristas de regiões que produzem animais destinados ao mercado chinês.
  • Redirecionamento para outros mercados pode amenizar a queda, enquanto embarques para a China devem começar a se recuperar no fim de outubro.

A proximidade do limite da cota chinesa deve reduzir temporariamente as exportações brasileiras de carne bovina e afetar primeiro os frigoríficos habilitados a atender a China, segundo Alê Delara, especialista em agronegócios, que prevê uma desaceleração dos embarques até outubro.

Em entrevista nesta sexta-feira (14) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Delara afirmou que o comportamento deve ser semelhante ao observado com a Austrália, que já preencheu sua cota. “Durante uma janela nós teremos uma desaceleração nos embarques para exportação”, explicou.

Segundo o especialista, o Brasil deixou de embarcar cerca de 100 mil toneladas para a China no mês passado, movimento que já afetou o volume total exportado. Na primeira semana de agosto, os embarques também apresentaram redução.

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Para o fechamento deste mês, Delara projeta uma retração ainda mais expressiva. “Deveremos fechar, segundo a minha projeção, o mês de agosto agora com em torno de 30% a menos de exportação em comparação com o ano passado”, afirmou.

Frigoríficos sentem primeiro impacto

Na cadeia produtiva, os frigoríficos exportadores habilitados a vender carne bovina para a China devem ser os primeiros atingidos. Essas empresas terão de buscar alternativas para parte da produção que deixará de seguir diretamente para o mercado chinês.

“Esses certamente terão que realocar a sua produção para outros países, realizando algum tipo de arbitragem”, apontou Delara. Ele lembrou que esse movimento já ocorreu em julho: embora os embarques para a China tenham diminuído em cerca de 100 mil toneladas, as exportações brasileiras totais recuaram 69 mil toneladas.

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A diferença indica, segundo o especialista, que parte da produção conseguiu encontrar outros destinos. O impacto, entretanto, não ficará restrito aos frigoríficos. “O segundo ponto de transmissão, naturalmente, [será] para os pecuaristas que estão nas regiões e que produzem o tipo de boi que está habilitado a ser exportado para a China”, explicou.

Dessa forma, a pressão começa nos exportadores e posteriormente chega aos produtores regionais ligados à cadeia de fornecimento para o mercado chinês. “A linha de transmissão começa no exportador e aí ela vai para o regional”, resumiu.

Outros mercados podem absorver parte da carne

O redirecionamento da carne brasileira para outros compradores pode reduzir parcialmente a dependência da China, mas Delara considera que não será possível compensar integralmente o volume devido à dimensão do mercado chinês.

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“Parcialmente, sim. Não totalmente, porque o volume é muito grande, em torno de 500 mil toneladas”, ponderou. Entre as alternativas apontadas pelo especialista estão Estados Unidos, Argentina e Uruguai.

No caso dos Estados Unidos, Delara afirmou que o país poderia elevar suas compras de carne brasileira, enquanto Argentina e Uruguai receberam cotas superiores à média de suas exportações dos últimos anos.

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Uma possibilidade seria o Brasil ampliar as vendas para esses mercados, enquanto eles destinariam uma parcela maior de sua própria produção à China. “O Brasil pode exportar carnes para esses destinos e esses destinos, que se tornam origens chinesas, exportar a sua própria produção local”, explicou.

Por isso, Delara avalia que a redução dos embarques brasileiros não deverá corresponder integralmente ao volume afetado pela cota chinesa. “Acredito que nós teremos uma desaceleração, mas não de maneira integral. O Brasil fará essa arbitragem com outros mercados”, ressaltou.

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Desaceleração deve durar até outubro

Para o segundo semestre, o especialista prevê redução temporária dos volumes exportados, mas não uma interrupção dos embarques para a China até dezembro. A explicação está na forma como a cota é contabilizada.

Segundo Delara, a carne entra na cota chinesa quando chega ao país, e não quando deixa o Brasil. Dessa forma, a desaceleração iniciada em julho deve ganhar força nos próximos meses, mas poderá começar a ser revertida ainda no quarto trimestre.

“O Brasil deve ter essa desaceleração que começou no mês de julho, ganha intensidade até o mês de outubro”, afirmou. Ao mesmo tempo, as negociações para a carne que será embarcada no fim de outubro, novembro e dezembro já estão em andamento.

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A expectativa é que os embarques com destino à China sejam retomados no fim de outubro, desde que os produtos cheguem ao mercado chinês no começo do próximo ano. “Final de outubro a gente já começa a ver novamente os embarques acontecendo no Brasil com destino à China para chegar lá no dia 1, dia 2 de janeiro e já fazerem parte da cota nova para o ano de 2027”, explicou.

Preço da carne no Brasil pode continuar sustentado

A desaceleração das exportações não significa necessariamente queda dos preços da carne bovina no mercado brasileiro, segundo Delara. Isso ocorre porque os cortes mais consumidos internamente não são exatamente os mesmos que concentram a competitividade brasileira nas exportações.

“O Brasil, como consumidor doméstico, gosta mais dos cortes do traseiro e da costela. E o que o Brasil tradicionalmente exporta, e é por isso que nós somos tão competitivos, são cortes do dianteiro”, explicou.

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Ainda assim, as duas partes da cadeia estão relacionadas. Se houver redução da demanda externa por cortes do dianteiro e queda nos preços desses produtos, a margem dos frigoríficos pode ser pressionada, levando as empresas a diminuir o processamento e o abate de animais.

“Se ele tem a desaceleração em uma parte da carcaça, vamos dizer a carcaça do dianteiro, e esse preço cai, ele pode deixar o frigorífico com uma margem ruim e o frigorífico opta por não fazer o processamento ou abate”, afirmou.

Uma redução dos abates também diminui a oferta dos cortes destinados ao mercado doméstico. Por isso, Delara avalia que os preços internos podem permanecer sustentados mesmo com a desaceleração das exportações. “Isso reduz o volume, inclusive da disponibilidade interna. E aí nós continuamos vendo o preço sustentado da carne no Brasil, que foi exatamente o que aconteceu em julho. É o que está acontecendo agora no mês de agosto”, concluiu.

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