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Legislativo

Parlamento brasileiro completa 200 anos tendo sobrevivido a golpes, ditaduras e 18 tentativas de extinção

Publicado 06/05/2026 • 09:48 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Parlamento brasileiro completa 200 anos com a sessão inaugural ocorrida em 6 de maio de 1826 no Rio de Janeiro.
  • Congresso Nacional bicameral foi inspirado no modelo inglês e depois no federalismo norte-americano com Senado e Câmara.
  • Montesquieu e a separação dos poderes moldaram a Constituição de 1824 que criou o legislativo brasileiro.
Parlamento brasileiro chega ao bicentenário com 200 anos de disputas, fechamentos e democracia; entenda como e por que o Congresso foi criado

Congresso Nacional

Parlamento brasileiro chega ao bicentenário com 200 anos de disputas, fechamentos e democracia; entenda como e por que o Congresso foi criado

“Chegamos! Esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora. Bem-aventurados os que chegam.” As palavras são de Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, pronunciadas no plenário da Câmara dos Deputados em 5 de outubro de 1988. Naquele dia, depois de 21 anos de ditadura e uma eleição indireta, o Parlamento brasileiro entregava ao país sua mais inclusiva Constituição.

“A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo.” Era o instante mais alto de uma instituição que, nesta quarta-feira (6), completa 200 anos de sua primeira sessão.

Para chegar até ali, foram dois séculos de rupturas, golpes e recomeços. O parlamento que Ulysses presidia em 1988 nasceu muito antes, num mundo sacudido por Napoleão, por guilhotinas e por independências que redesenhavam o mapa político do Ocidente. A sessão inaugural aconteceu em 6 de maio de 1826, no Rio de Janeiro, com 102 deputados e 31 senadores reunidos pela primeira vez para tentar fazer o Brasil governar a si mesmo.

Para entender o que aconteceu naquele dia, é preciso recuar algumas décadas. O mundo que viveu o parlamento brasileiro mal havia saído de uma convulsão sem precedentes.

Revolução, guilhotinas e o homem que se coroou

Em 1789, a França explodiu. A Revolução Francesa varreu a Europa com uma força militar e também filosófica. Liberdade, igualdade e fraternidade iam além de palavras de ordem. Eram a liquidação moral do absolutismo, a ideia de que nenhum rei governava por direito divino e que o poder precisava de outra justificativa para existir.

O início da Revolução Francesa colocou em xeque a existência das monarquias absolutistas, e esses países uniram-se contra a França, concretizando uma série de conflitos no final do século XVIII.

O caos que se seguiu abriu caminho para uma figura que mudaria o continente. Em 9 de novembro de 1799, Napoleão tomou o poder por meio de um golpe militar e se declarou cônsul da França. Conhecido como o 18 de Brumário do ano VIII, o momento finalizava a Revolução Francesa e dava espaço a um novo período, a Era Napoleônica.

Napoleão era, ao mesmo tempo, filho da revolução e seu sepultador. Codificou leis que duraram séculos, exportou o ideal de estado-nação para cada território que conquistou, mas também se autocoroou imperador em 1804, numa cerimônia deliberada em que tirou a coroa das mãos do papa Pio VII e a colocou na própria cabeça. Era uma mensagem ao mundo: nenhuma autoridade acima da sua.

Esse mesmo Napoleão é que explica por que o Parlamento brasileiro existe.

🔍 Brumário era o nome do segundo mês do calendário revolucionário francês, criado após a queda da monarquia para apagar qualquer referência ao Antigo Regime. O 18 de Brumário do ano VIII corresponde a 9 de novembro de 1799 no calendário convencional. A expressão “18 de Brumário” ficou na história como sinônimo de tomada de poder por um militar que usa a instabilidade política para se apresentar como solução.

A Corte que atravessou o Atlântico

A vinda da família real para o Brasil foi consequência do período napoleônico, mais especificamente da disputa travada entre França e Inglaterra. Quando os exércitos franceses avançaram sobre Portugal em novembro de 1807, Dom João, príncipe-regente, precisou decidir em horas: ficar e cair nas mãos de Napoleão, ou embarcar. Ele embarcou.

A vinda da família real portuguesa para o Brasil ocorreu em 29 de novembro de 1807 e a comitiva aportou em Salvador em 22 de janeiro de 1808. O refúgio no Brasil foi uma manobra para garantir que Portugal continuasse independente quando foi ameaçado de invasão por Napoleão Bonaparte.

Era a primeira e única vez na história que uma colônia passava a sediar uma corte europeia. Com a família real vieram bibliotecas, arquivos, nobres e funcionários. Veio também a ideia de construir um Estado. O Brasil colonial deixava de ser somente um fornecedor de matérias-primas e ganhava, pela primeira vez, instituições.

Mas havia outra força pressionando o continente americano naquele mesmo período.

Congresso Nacional visto à noite; foto: Agência Senado

As Américas em chamas

Ao Sul, a América espanhola fervia. As invasões napoleônicas na Espanha haviam desarticulado o poder colonial, e as elites locais viram na confusão europeia a janela para a independência. Venezuela, Argentina, Chile e México declararam independência em sequência, entre 1810 e 1821, muitas vezes com linguagem diretamente copiada da Declaração de Independência americana de 1776 e dos direitos proclamados em Paris em 1789.

Ao norte, os Estados Unidos já existiam havia quase cinquenta anos como república independente, com uma constituição que inspirava legisladores de todo o mundo ocidental.

Nesse momento de monarquias em colapso, repúblicas nascentes e ideias liberais em circulação que Dom Pedro I outorgou, em 25 de março de 1824, a primeira Constituição brasileira.

Montesquieu teorizou, a Inglaterra inventou

A questão que muitos se fazem ao estudar o parlamento brasileiro é atribuir ao filósofo francês Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu, a criação do sistema bicameral. A resposta é mais complexa.

Montesquieu, em “O Espírito das Leis“, publicado em 1748, teorizou sobre a separação dos poderes. A teoria afirmava o Estado Tripartite, com a distinção dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, e suas limitações mútuas. Mas Montesquieu não inventou o Parlamento com duas casas. Ele o descreveu, admirou e justificou ao observar a Inglaterra.

A origem moderna do bicameralismo remonta à Inglaterra do século XIV, que desenvolveu um parlamento dividido em duas casas: a House of Lords, que representava os interesses da alta aristocracia, e a House of Commons, ligada às demandas das demais classes, como os cavaleiros e a burguesia.

A ideia, portanto, era inglesa. Montesquieu a sistematizou filosoficamente, e o modelo percorreu o Atlântico. Os americanos, temendo a acentuada preponderância do Poder Legislativo, traçaram um modelo de tripartição em que se conferia equilíbrio à relação entre os poderes. Em 17 de setembro de 1787, os Estados Unidos prescreveram em sua Constituição as funções inerentes a cada esfera de poder.

Quando o Brasil chegou à independência, tinha dois modelos à mesa. O Senado foi instituído em 1824, pela Constituição do Império, sob influência do modelo inglês. Com a proclamação da República, em 1889, a tradição inglesa cedeu espaço à influência do federalismo norte-americano.

🔍 Um parlamento bicameral é aquele composto por duas Casas legislativas que funcionam de forma independente e complementar. No Brasil, a Câmara dos Deputados representa o povo proporcionalmente, com 513 deputados. O Senado representa os estados em pé de igualdade, com três senadores por unidade federativa, num total de 81. Todo projeto precisa passar pelas duas casas antes de se tornar Lei.

Plenário do Senado Federal; Foto: Agência Senado

O Congresso que nasceu torto

A Constituição outorgada era contrária aos princípios liberais por ter sido imposta pelo imperador e não elaborada por uma assembleia de representantes eleitos. Dom Pedro havia convocado uma Constituinte em 1823, mas a dissolveu seis meses depois em razão dos embates com os deputados. Em vez de negociar, governou por decreto.

O resultado foi uma arquitetura institucional peculiar. A Constituição de 1824 não adotou apenas três poderes, como Montesquieu propunha. Foi instituída com quatro poderes, sendo o quarto exercido pelo próprio imperador, na figura do poder moderador do Estado Brasileiro.

A sessão inaugural, quando finalmente aconteceu, em 6 de maio de 1826, reuniu um país ainda muito distante dos ideais que a inspiraram. A Câmara dos Deputados foi composta por 102 integrantes escolhidos em eleições indiretas, e a Câmara dos Senadores, com 50 integrantes de mandato vitalício, membros da nobreza, da magistratura e do clero. Votar era privilégio de homens livres com renda mínima comprovada. Mulheres, escravizados e pobres não existiam politicamente.

Fechamentos, cassações e o fio que não se rompeu

Ao longo de dois séculos, o Congresso Nacional foi fechado ou teve seus trabalhos suspensos por 18 vezes. Ditadores, presidentes e generais tentaram, em momentos diferentes da história, silenciar o parlamento. Nenhum conseguiu extingui-lo definitivamente.

Os últimos 200 anos não foram uma linha reta. Getúlio Vargas fechou o Congresso por duas vezes. Durante a Revolução de 1930, dissolveu o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais. Em 10 de novembro de 1937, deu um golpe de estado, instituindo a ditadura do Estado Novo. Os trabalhos legislativos ficaram suspensos por nove anos, até 31 de janeiro de 1946.

A ditadura militar de 1964 não fechou o Congresso formalmente, mas o esvaziou. Cassou mandatos, decretou recesso e governou por atos institucionais que substituíam a deliberação parlamentar pelo arbítrio do poder militar. Em 1968, no entanto, o Ato Institucional número 5 colocou o Congresso em recesso até outubro de 1969.

Mesmo assim, o fio institucional nunca se rompeu completamente. Em 1985, o Congresso elegeu Tancredo Neves para a presidência. Em 1988, promulgou a Constituição que vigora até hoje. Em 1992, cassou o mandato de Fernando Collor. Em 2016, afastou Dilma Rousseff. O parlamento foi o instrumento, sempre imperfeito e disputado, pelo qual as crises brasileiras encontraram alguma saída dentro das regras.

Galerias da Câmara dos Deputados, ao centro o Plenário; Foto: Agência Câmara

As cúpulas que explicam a democracia

A sede atual do Congresso Nacional conta essa história em concreto e geometria. Quando Juscelino Kubitschek decidiu construir Brasília nos anos 1950, o projeto da nova Capital foi entregue ao urbanista Lúcio Costa e ao arquiteto Oscar Niemeyer. O icônico edifício do Congresso seria o mais visível de todos, posicionado no eixo monumental, avistável de qualquer ponto da cidade.

No relatório do Plano Piloto, Lúcio Costa fez um desenho onde o Congresso era uma grande placa quadrada com uma cúpula sobre ela e, atrás, um grande edifício vertical. Oscar Niemeyer deu o acabamento. Espelhou o projeto original e acrescentou uma segunda cúpula, porque é um Congresso bicameral.

A escolha das formas não foi aleatória. A cúpula do Senado é voltada para baixo e a da Câmara para cima. Niemeyer falou sobre o projeto, recordando o momento em que os apoios da cúpula da Câmara foram retirados e o palácio surgiu, simples e monumental, com as cúpulas soltas no ar, destacando a importância hierárquica que representam.

As curvas de Niemeyer expressam um diálogo entre leveza e monumentalidade. O concreto branco e abrupto ganha leveza visual, sugere movimento e humaniza as estruturas. Foi uma ruptura na arquitetura, batendo de frente com a rigidez já desgastada do modernismo frio.

O edifício inaugurou em 21 de abril de 1960, junto com a nova Capital. Desde então, é o endereço do Poder Legislativo brasileiro e o cartão-postal mais reconhecível do país no exterior.

“Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. No Palácio do Congresso, por exemplo, a composição se formulou em função desse critério, das conveniências da arquitetura e do urbanismo, dos volumes, dos espaços livres, da oportunidade visual e das perspectivas e, especialmente, da intenção de lhe dar o caráter de monumentalidade, com a simplificação de seus elementos e a adoção de formas puras e geométricas. Daí decorreu todo o projeto do Palácio e o aproveitamento da conformação local, de maneira a criar no nível das avenidas que o ladeiam uma monumental esplanada e sobre ela fixar as cúpulas que deviam hierarquicamente caracterizá-lo.Oscar Niemeyer

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Duzentos anos e Ulysses ainda na cabeça

O bicentenário chega em mais um momento de tensões entre os Poderes. O debate sobre os limites do Congresso, sua relação com o Executivo e o Judiciário, segue tão aberto quanto esteve em 1826, quando 31 senadores e 102 deputados se reuniram pela primeira vez numa sala do Rio de Janeiro e tentaram, num mundo que ainda cheirava a pólvora napoleônica, fazer o Brasil governar a si mesmo.

Ulysses Guimarães, o homem que presidiu o ponto mais alto dessa trajetória, deixou palavras que envelhecem bem. “Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora. Será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados. É caminhando que se abrem os caminhos.” E depois, quase como um aviso atravessando os anos: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.

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