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Pessimismo cresce nas redes sociais da China em meio à crise econômica

Publicado 12/09/2026 • 22:30 | Atualizado há 39 minutos

KEY POINTS

  • Em plataformas como RedNote, Douyin e Weibo, usuários têm relatado dificuldades para encontrar emprego.
  • O fenômeno chama atenção porque contrasta com a narrativa de progresso e prosperidade defendida pelo Partido Comunista Chinês.
  • Durante anos, o governo chinês buscou fazer da chamada “energia positiva” o sentimento dominante na internet.

Foto: Bloomberg

Por que as redes sociais chinesas estão ficando cada vez mais sombrias

As redes sociais chinesas passaram a registrar, com mais frequência em 2026, manifestações de pessimismo, humor sombrio e críticas indiretas ao governo em meio à desaceleração econômica do país.

Em plataformas como RedNote, Douyin e Weibo, usuários têm relatado dificuldades para encontrar emprego, salários baixos, queda no valor dos imóveis e insegurança sobre o futuro. O fenômeno chama atenção porque contrasta com a narrativa de progresso e prosperidade defendida pelo Partido Comunista Chinês.

Durante anos, o governo chinês buscou fazer da chamada “energia positiva” o sentimento dominante na internet. As plataformas são orientadas a destacar conquistas econômicas, confiança no futuro e apoio ao partido. Agora, porém, o pessimismo passou a ocupar espaço no cotidiano dos usuários e, em alguns casos, ganhou contornos de crítica política.

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Economia mudou o tom das redes

De acordo com o Estadão, a piora das condições econômicas ajuda a explicar essa transformação. O crescimento da China está desacelerando e uma prolongada crise imobiliária reduziu o valor do principal patrimônio de muitas famílias.

O mercado de trabalho também se tornou uma fonte de preocupação. A taxa oficial de desemprego entre os jovens chegou a 17,9% em julho. Mais de 200 milhões de pessoas estão no chamado “emprego flexível”, expressão usada pelo governo para definir uma parcela significativa da população que trabalha em atividades temporárias ou por conta própria.

As dificuldades econômicas passaram a aparecer diretamente nas publicações. Usuários discutem a falta de oportunidades, os baixos salários e a perda de valor dos imóveis. Outros transformam as próprias dificuldades em piadas e memes, criando uma espécie de humor marcado pelo pessimismo.

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Uma hashtag publicada no RedNote para incentivar os usuários a economizar dinheiro chegou a quase 120 milhões de visualizações. Em outra publicação, usuários questionaram escolhas que durante muito tempo foram associadas à construção de uma vida segura, como comprar um imóvel, adquirir um carro, investir e se casar cedo.

Pessimismo também virou forma de crítica

O conteúdo publicado nas redes não se limita às dificuldades financeiras. Em alguns casos, reclamações individuais acabam formando uma percepção coletiva sobre os problemas do país.

Segundo Li Ying, conhecido como Professor Li e responsável por uma conta na plataforma X que acompanha informações não censuradas sobre a China, houve um aumento exponencial de publicações pessimistas e de comentários considerados subversivos em 2026.

A mudança também aparece na forma como os usuários fazem referências ao governo e ao líder chinês, Xi Jinping. Em algumas discussões, críticas diretas são substituídas por expressões indiretas e referências que permitem aos usuários abordar assuntos sensíveis.

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Um exemplo ocorreu em uma publicação do Douyin sobre um provérbio chinês relacionado à ideia de ser lembrado pela infâmia. A área de comentários foi tomada por referências veladas a Xi.

Propaganda oficial vira alvo de ironia

Outra estratégia usada pelos internautas é aproveitar publicações de contas oficiais para criar uma narrativa contrária à mensagem original.

Um vídeo do Douyin que apresentava o Partido Comunista como o maior partido do mundo recebeu dezenas de milhares de comentários praticamente idênticos. Em vez de reforçar a mensagem, os usuários responderam com símbolos e expressões de deboche.

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O mesmo aconteceu com publicações de veículos ligados ao Estado. Em um caso, uma afirmação sobre uma suposta invenção chinesa relacionada ao voo humano durante a dinastia Ming provocou uma sequência de comentários sarcásticos.

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A prática é chamada pelo professor Christian Göbel, da Universidade de Viena, de “amplificação subversiva”. A estratégia consiste em utilizar o alcance das próprias contas oficiais para espalhar comentários que enfraquecem a mensagem original.

Quando problemas pessoais ganham dimensão política

Para quem publica uma reclamação sobre salário, emprego ou falta de pagamento, o conteúdo pode parecer apenas um relato pessoal. Quando milhares de pessoas fazem comentários semelhantes, porém, essas manifestações passam a revelar uma realidade diferente daquela apresentada oficialmente.

Li afirmou que alguns funcionários públicos chegaram a utilizar o RedNote para comparar quantos meses haviam passado sem receber. Para os usuários, o conteúdo pode não ter inicialmente uma intenção política. O conjunto das publicações, no entanto, cria uma visão sobre a situação econômica que entra em conflito com a narrativa oficial.

A dificuldade para controlar esse tipo de manifestação aumenta justamente porque o conteúdo nasce de experiências cotidianas. Em vez de uma oposição organizada, são relatos espalhados entre diferentes plataformas e usuários.

Governo tenta conter o pessimismo

As autoridades chinesas também passaram a tratar o pessimismo econômico como um problema a ser combatido. Em 2023, o Ministério da Segurança do Estado classificou os esforços para falar mal da economia chinesa como uma questão de segurança e política.

No ano seguinte, o órgão regulador da internet determinou que as plataformas reprimissem conteúdos que apresentassem o trabalho duro ou a educação como inúteis, além de memes e piadas considerados excessivamente pessimistas.

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Em abril, o Ministério da Segurança do Estado acusou uma organização estrangeira não identificada de financiar influenciadores ligados à tendência conhecida como “deitar-se”. O termo descreve jovens que consideram inútil continuar se esforçando diante de um futuro econômico considerado pouco promissor.

A reação nas redes veio rapidamente. Usuários relacionaram o fenômeno à falta de empregos, aos salários baixos e às jornadas extensas. A discussão ganhou força no Weibo até que o ministério fechou os comentários da publicação.

Por que o pessimismo persiste?

A censura continua sendo uma ferramenta importante para controlar o conteúdo publicado na internet chinesa. Ainda assim, o volume de manifestações pessimistas mostra os limites desse mecanismo diante de problemas que fazem parte da vida cotidiana.

O cenário econômico tornou mais difícil sustentar uma imagem de prosperidade permanente quando usuários enfrentam desemprego, perda patrimonial e insegurança profissional. A insatisfação também passou a encontrar novas formas de expressão, seja por meio do humor, seja pela apropriação de mensagens oficiais.

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O resultado é uma internet em que o pessimismo deixou de aparecer apenas em momentos de crise e passou a fazer parte do fluxo diário das redes sociais.

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