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Vinicius Torres Freire: corte da Selic ‘pegaria muito mal’ e faria juros longos dispararem

Publicado 04/11/2026 • 22:31 | Atualizado há 5 minutos

KEY POINTS

  • Analista afirma que piora do câmbio, das expectativas de inflação e do cenário externo deu fundamento à manutenção da Selic em 13,75%.
  • Torres Freire diz que eventual corte poderia ser interpretado como adesão do Banco Central à pressão política por juros mais baixos.
  • Mesmo com redução da taxa básica, juros de longo prazo poderiam subir diante da percepção de maior inflação e risco fiscal, segundo o analista.

A decisão do Banco Central de manter a Selic em 13,75% ao ano teve fundamento econômico e evitou uma reação potencialmente negativa nos juros de longo prazo. É o que avaliou Vinicius Torres Freire, analista de política e economia do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Segundo Torres Freire, um corte neste momento poderia ser interpretado como uma resposta às pressões políticas pela redução dos juros, mesmo que essa não fosse a motivação da autoridade monetária.

“Mesmo que ele tivesse bons motivos para baixar, pareceria que o Banco Central está aderindo à tese do governo. Seria péssimo. A repercussão seria horrível”, afirmou.

Para o analista, a manutenção da taxa, porém, não ocorreu apenas para evitar esse ruído político.

“Manter a taxa tem fundamento, aliás, muito fundamento, e seria muito estranho e pegaria muito mal se o BC cortasse”, disse.

Torres Freire acrescentou que uma redução da Selic poderia provocar movimento contrário nas taxas de prazos mais longos.

“Se o BC cortasse, a gente ia ver taxas de juros de prazo mais longo subindo loucamente”, afirmou.

Inflação e câmbio limitaram espaço para corte

O analista destacou que as condições econômicas pioraram nas últimas semanas, o que reduziu espaço para continuidade do ciclo de flexibilização monetária.

Entre os fatores estão a desvalorização do real, a alta recente do petróleo, o aumento das expectativas de inflação e os juros internacionais elevados.

“O dólar ficou mais caro. O preço do petróleo caiu hoje, mas ficou rondando por muito tempo na casa de US$ 110. As expectativas de inflação, como a gente viu no último Boletim Focus, para 2026, 2027 e 2028 aumentaram”, afirmou.

Segundo Torres Freire, expectativas de inflação mais elevadas dificultam o trabalho do Banco Central.

“Se ele não tem a expectativa ancorada, se não tem as pessoas acreditando que a inflação será menor no futuro, a inflação tende a se propagar e continuar difícil de conter”, disse.

Política fiscal também pesa

Torres Freire apontou ainda a indefinição sobre a política fiscal do próximo governo como um dos principais componentes do cenário.

“A gente não sabe se vai ter um controle fiscal maior e, a depender disso, as taxas de juros e câmbio podem subir mais ou menos”, afirmou.

Segundo ele, uma política fiscal menos restritiva pode manter o real depreciado por mais tempo e pressionar as expectativas de inflação.

“Com menos controle fiscal, a gente vai ter um dólar desvalorizado por mais tempo e expectativas de inflação maiores”, disse.

O analista afirmou que o debate político em torno do Banco Central ganhou força após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente diante das discussões sobre formas alternativas de reduzir os juros.

Ainda assim, Torres Freire avaliou que o cenário econômico, isoladamente, já justificava a decisão tomada pelo Copom.

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“A situação piorou, as condições financeiras apertaram, as taxas de juros estão mais altas no resto do mundo, o preço do petróleo estava em alta, a taxa de câmbio está desvalorizada, o real está desvalorizado, as expectativas de inflação pioraram”, afirmou.

Mercado de trabalho segue apertado

Outro fator observado pelo Banco Central, segundo Torres Freire, é o mercado de trabalho.

O analista destacou que os salários continuam apresentando ganho real e que a taxa de desemprego permanece em níveis baixos.

“O salário ainda subindo de maneira significativa, 3,5% acima da inflação, 3,5% em termos reais, com taxa de desemprego mínima”, afirmou.

Para ele, esse conjunto mantém a demanda aquecida e aumenta a dificuldade para reduzir a inflação.

Juros altos atingem crédito, consumo e investimento

Torres Freire afirmou que a manutenção de juros elevados tem efeitos diretos sobre empresas e famílias, mas ressaltou que essa desaceleração faz parte do próprio mecanismo da política monetária.

“O objetivo do Banco Central com alta de taxa de juros é justamente dificultar as condições de financiamento”, disse.

Segundo o analista, juros altos reduzem demanda por crédito, investimentos e consumo.

“É reduzir a demanda por crédito, reduzir investimento, reduzir consumo, para a economia desacelerar um tanto e você ter menos inflação”, afirmou.

BC não controla todos os juros da economia

Torres Freire ressaltou ainda que a Selic é apenas uma das taxas relevantes para a atividade econômica.

“O Banco Central não é o definidor de todas as taxas da economia”, afirmou.

Segundo ele, os juros mais longos são determinados também pelas condições de mercado e pela percepção de risco dos investidores.

Se houver expectativa de inflação maior, aumento do risco econômico ou taxas mais elevadas no exterior, investidores tendem a exigir remuneração maior para financiar empresas e o governo.

“Mais inflação, taxa de juros maior lá fora, incerteza econômica que aumenta o risco, faz com que os detentores de dinheiro, de capital, peçam taxas de juros maiores para financiar governo e outras empresas”, afirmou.

Por isso, uma redução da Selic sem melhora das condições econômicas não garantiria crédito mais barato.

“As taxas mais longas são aquelas que definem os pisos de financiamento no mercado de capitais, para os bancos, para o crédito. Tudo isso faz com que as taxas sejam maiores”, disse Torres Freire.

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