EXCLUSIVO: Só 1 em 200 megaprojetos no mundo tem entrega no prazo e no orçamento; No Brasil, atraso custa 9 vezes mais que nos EUA; veja estudo completo
Publicado
17/09/2026 • 10:45
| Atualizado há 1 hora
Apenas 0,5% dos megaprojetos do mundo entregam no prazo, no orçamento e com os benefícios prometidos, segundo Oxford
Atraso de um ano em um projeto no Brasil destrói 8,5% do valor presente, contra 2,9% nos Estados Unidos
TCU encontrou 50,7% das obras públicas federais auditadas paralisadas, um total de 11.469 obras no Brasil
Hidrelétrica de Belo Monte
Estadão Conteúdo
Apenas 1 em cada 200 megaprojetos no mundo consegue entregar dentro do prazo, do orçamento e com os benefícios prometidos na decisão de investir, segundo levantamento da Universidade de Oxford citado em estudo exclusivo da Turner & Townsend. No Brasil, o atraso em uma obra pesa ainda mais que na maioria dos países, chegando a custar até nove vezes mais do que nos Estados Unidos.
O estudo é assinado por Luis Del Cistia, diretor de Infraestrutura, Energia e Recursos Naturais da Turner & Townsend na América Latina. Com base em um banco de dados de mais de 16 mil projetos em 136 países, reunido pelo professor Bent Flyvbjerg, de Oxford, os números mostram que cerca de 90% dos grandes projetos de infraestrutura sofrem desvio de custo, e mais de 91% excedem o orçamento, o prazo, ou os dois ao mesmo tempo. Apenas 8,5% cumprem simultaneamente as metas de custo e prazo, um padrão que o próprio levantamento batizou de Lei de Ferro dos Megaprojetos: acima do orçamento, além do prazo, abaixo dos benefícios, repetidas vezes.
Um levantamento separado da consultoria McKinsey, com mais de US$ 1 trilhão em projetos de capital analisados, aponta que 98% dos megaprojetos estouram o custo em mais de 30% e 77% atrasam pelo menos 40% do cronograma.
Parte da explicação para o caso brasileiro está na taxa de juros. Com a Selic em 14% (cortada ontem para 13,75%) e a inflação acumulada em 4,44% em doze meses até julho, o Brasil tem a segunda maior taxa real de juros entre as 40 maiores economias do mundo, atrás apenas da Rússia, segundo o ranking citado no estudo.
Atraso de um ano já destrói 8,5% do valor do projeto
Em um cenário de juros tão altos, cada mês de atraso pesa mais no resultado financeiro de um projeto. O estudo calcula que um ano de atraso destrói 8,5% do valor presente do fluxo de benefícios de um projeto brasileiro, contra apenas 2,9% em um projeto equivalente nos Estados Unidos. Em dois anos de atraso, a perda sobe para 16,3%, e em três anos chega a 23,5%, ante apenas 1,1% na Alemanha no mesmo período.
O impacto aparece com força em setores intensivos em capital. Nas barragens hidrelétricas, 37% dos projetos estouram o orçamento em mais da metade do valor previsto, e quando isso acontece o desvio médio chega a 186%, segundo o levantamento.
O dado pesa especialmente para o Brasil, que precisaria investir R$ 318,2 bilhões por ano só no setor de energia para acompanhar o ritmo de expansão projetado até 2035.
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Percentual de projetos que passam em cada teste, de forma cumulativa (base: mais de 16 mil projetos em 136 países)
Todos os projetos da base de dados
100%
Dentro do orçamento, ou melhor
47,9%
Dentro do orçamento e do prazo
8,5%
Dentro do orçamento, do prazo e dos benefícios
0,5%
Fonte: Flyvbjerg & Gardner (2023), banco de dados de megaprojetos de Oxford, citado em estudo da Turner & Townsend. Elaboração: Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC
TCU encontra metade das obras federais paradas
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União, citada no estudo, mostra que o problema já é realidade nas obras públicas brasileiras. Do total de 22.621 obras financiadas com recursos federais e auditadas pelo tribunal, 50,7% estão paralisadas, o equivalente a 11.469 obras.
O dado mais grave, porém, é outro: mesmo entre os projetos iniciados nos doze meses anteriores à auditoria, 22% já haviam parado. Isso indica que a paralisação de obras no Brasil não é apenas um passivo herdado de anos anteriores, mas um problema que se repete em projetos recém-iniciados.
Raio X
Obras públicas federais paralisadas no Brasil
50,7%
das 22.621 obras federais auditadas estão paralisadas
11.469
obras públicas estão paradas em todo o país
22%
das obras iniciadas nos 12 meses antes da auditoria já haviam parado
Fonte: Tribunal de Contas da União (TCU), auditoria de obras públicas federais, citada em estudo da Turner & Townsend. Elaboração: Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC
Planejamento reduz risco de atraso e de estouro
O estudo também aponta um caminho para reduzir esse tipo de perda. Uma pesquisa do Construction Industry Institute, citada no levantamento, mostra que investir de forma intensa em planejamento antes do início da execução de um projeto, etapa chamada de front-end planning, gera vantagem média de custo de 8,6% e economia de 10% em relação a um planejamento leve, além de prazo 7% mais curto até a entrega e 5% menos alterações durante a execução. O investimento nessa etapa de planejamento custa, em média, apenas 2,5% do custo total do projeto.
Como exemplo desse tipo de abordagem, a Turner & Townsend cita dois casos na América Latina em que a mudança na forma de gerenciar projetos teria produzido resultado mensurável.
No programa da Aena, que reúne 11 aeroportos em quatro estados brasileiros e soma R$ 4,5 bilhões em investimentos, incluindo obras de modernização e expansão no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a consultoria montou um escritório central de gestão de contratos, combinando controle contratual com conhecimento técnico do setor de aviação. Segundo a Turner & Townsend, essa reorganização ajudou a reduzir em 74% o valor dos pleitos contratuais do programa, ou seja, das disputas financeiras entre a Aena e as construtoras e fornecedores envolvidos nas obras.
Fora do Brasil, mas na mesma região, a consultoria cita o caso da ODATA, na Colômbia, onde apoiou a construção do maior data center do país, uma instalação de 6.400 metros quadrados entregue em apenas seis meses. Segundo a Turner & Townsend, o trabalho de gestão de custos e coordenação de fornecedores contribuiu para uma economia de 12% no orçamento do projeto, mesmo com o cronograma acelerado.
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