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Mercado de carbono cria incentivo econômico e transforma redução de emissões em investimento

Publicado 29/06/2026 • 22:00 | Atualizado há 52 minutos

KEY POINTS

  • Mercado de carbono permite que empresas compensem ou reduzam emissões por meio da compra e venda de créditos gerados por projetos ambientais.
  • No modelo regulado, empresas de setores intensivos em carbono passam a ter limites de emissão e precisam reduzir a pegada ou comprar créditos no mercado.
  • Enquanto o sistema brasileiro não entra em plena operação, o mercado voluntário pode financiar projetos como reflorestamento, compostagem, biogás e redução de metano.
CEO da WayCarbon: mercado de crédito de carbono oferece oportunidades estratégicas ao Brasil

Mercado de carbono

Foto: Pixabay

A promessa de um mercado regulado de carbono no Brasil só deve ganhar operação plena em 2030. Para quem já tenta financiar projetos de descarbonização, porém, a espera é longa demais. Enquanto a regulação não avança, o mercado voluntário segue como principal caminho para transformar redução de emissões em receita.

O mecanismo permite converter redução ou remoção de gases de efeito estufa em créditos negociáveis. Projetos que evitam emissões, capturam carbono ou reduzem gases poluentes podem gerar créditos, que depois são comprados por empresas interessadas em compensar parte de sua pegada climática.

A lógica é criar um preço para a poluição e direcionar dinheiro para quem consegue reduzir emissões. Esse dinheiro pode financiar desde projetos de reflorestamento até compostagem, biogás, tratamento de resíduos orgânicos e tecnologias de remoção de carbono da atmosfera.

Para Ian McKee, da Carrot, esse mercado deve ser visto como uma forma de redirecionar capital para atividades que reduzem emissões e que, muitas vezes, ainda têm dificuldade de acessar financiamento tradicional.

“O mercado regulado basicamente desenha um caminho para direcionar capital para a descarbonização”, afirma Ian. “Ele cria uma vantagem para quem consegue reduzir emissões e uma penalidade para quem não consegue.”

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Como funciona o mercado regulado

No mercado regulado de carbono, também conhecido pelo modelo “cap and trade”, o governo estabelece um limite de emissões para empresas de determinados setores. Esse teto tende a cair ao longo do tempo, obrigando as companhias a reduzir sua pegada ambiental.

Uma indústria que emite acima do limite precisa comprar créditos ou permissões no mercado. Já uma empresa que consegue reduzir suas emissões além da meta pode vender o excedente. Assim, quem descarboniza mais rápido pode transformar essa redução em receita.

“Se você é uma empresa que está crescendo ou tem uma pegada grande, vai ter que investir na descarbonização das suas operações”, diz Ian. “A decisão é: descarbonizar ou ter que ir ao mercado e comprar créditos de quem descarbonizou.”

O sistema cria um incentivo econômico para que empresas invistam em processos mais limpos. Em vez de tratar a redução de emissões apenas como custo, o mercado passa a reconhecer valor financeiro para quem consegue poluir menos.

Hoje, o maior exemplo global é o mercado europeu, conhecido como EU ETS, sigla para Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia. O modelo europeu é a principal referência internacional e movimenta preços muito superiores aos observados no mercado voluntário.

No Brasil, o mercado regulado ainda está em fase de estruturação, com expectativa de operação plena em 2030. Para Ian, esse prazo reforça a necessidade do país avançar também em mecanismos voluntários antes disso.

“A gente não pode esperar até 2030”, afirma. “Existem muitos projetos importantes hoje que precisam desse tipo de financiamento.”

Mercado voluntário ocupa espaço enquanto regulação não vem

Enquanto o mercado regulado depende de regras obrigatórias, o mercado voluntário funciona a partir da decisão de empresas que desejam compensar emissões ou cumprir metas próprias de descarbonização.

Nesse modelo, companhias compram créditos de carbono gerados por projetos ambientais certificados. Esses créditos podem vir de iniciativas de reflorestamento, conservação florestal, compostagem, biogás, captura de metano ou outras soluções capazes de reduzir ou remover emissões.

A validação é feita por entidades independentes, conhecidas como registradoras. Elas verificam se o projeto realmente gerou a redução prometida e se o crédito pode ser emitido. Entre as registradoras internacionais mais conhecidas estão Verra, Gold Standard e Climate Action Reserve.

A diferença de preço entre os dois mercados, porém, ainda é grande. Segundo Ian, créditos voluntários costumam ser negociados em patamar muito inferior ao observado no mercado regulado europeu. Isso reflete tanto o estágio de desenvolvimento do mercado quanto dúvidas sobre qualidade, rastreabilidade e integridade de alguns projetos no passado.

“Por isso o mercado regulado é tão importante. A gente precisa avançar nos mercados regulados, senão vamos continuar no mercado voluntário”, diz. “Dito isso, não temos opção hoje. Estamos vivendo num mundo de mercados voluntários e temos que fazer o melhor para esse mercado crescer e ser valorizado.”

Apesar das limitações, Ian afirma que o mercado voluntário também é o espaço onde surgem novas metodologias, tecnologias de rastreamento e modelos de financiamento para projetos que ainda não estão plenamente incorporados aos sistemas regulados.

“Toda inovação acontece no mercado voluntário”, afirma. “O que tem de cientista bom e empresas boas desenvolvendo projetos incríveis é fascinante.”

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Por que o metano entrou no debate

Boa parte da discussão climática ainda gira em torno do dióxido de carbono, o CO2. Mas outros gases também têm impacto relevante no aquecimento global. Entre eles está o metano, que é emitido por atividades como agropecuária, óleo e gás, aterros sanitários e decomposição de resíduos orgânicos.

O metano permanece menos tempo na atmosfera do que o CO2, mas tem efeito de aquecimento elevado no curto prazo. Por isso, reduzir emissões desse gás pode gerar impacto climático mais rápido.

“O metano representa 30% do aquecimento global como um todo”, afirma Ian. “Esse gás perdura na atmosfera apenas 12 anos. Se você tira esse gás ou deixa de emitir esse gás hoje, ganha todo o poder de não aquecer nesse período.”

Na visão dele, esse é um dos pontos que tornam o tratamento de resíduos orgânicos uma oportunidade relevante para o Brasil. Quando restos de alimentos e outros resíduos orgânicos são enterrados em aterros, eles se decompõem sem oxigênio e geram metano. Quando esse material é separado e encaminhado para compostagem ou biodigestão, parte relevante dessas emissões pode ser evitada.

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“O resíduo orgânico é 100% reciclável”, diz Ian. “Se você desviasse 100% da massa orgânica dos aterros, poderia cortar rapidamente o metano que é gerado por lá.”

A compostagem transforma resíduos orgânicos em adubo. A biodigestão pode gerar biogás e energia. Nos dois casos, um passivo ambiental passa a ser tratado como insumo para uma nova cadeia econômica.

“Um problema, um passivo ambiental, se torna um ativo ambiental muito poderoso”, afirma.

Como lixo orgânico pode virar crédito de carbono

O crédito de carbono nasce da diferença entre o cenário que aconteceria sem o projeto e o cenário depois da intervenção. No caso do resíduo orgânico, a conta compara as emissões que seriam geradas se aquele material fosse parar em aterro com as emissões evitadas ao encaminhá-lo para compostagem ou biodigestão.

Se a redução for comprovada e validada por metodologia reconhecida, ela pode gerar créditos. Esses créditos podem ser vendidos a empresas interessadas em compensar emissões ou apoiar projetos ambientais.

“Se o resíduo orgânico vai para um processo de tratamento biológico, como a compostagem, ele deixa de emitir 95% do metano que seria gerado”, afirma Ian. “A diferença entre o que seria gerado no aterro e o que foi evitado vira um crédito de carbono.”

A Carrot rastreia a jornada do resíduo orgânico, comprova a destinação correta e distribui o valor gerado pelo crédito de carbono entre os participantes envolvidos, como estabelecimentos geradores de resíduos, operadores logísticos e unidades de tratamento.

A lógica é criar um incentivo financeiro para que bares, restaurantes, mercados e outros geradores deixem de mandar resíduos orgânicos para aterros. Se o crédito de carbono gera uma nova receita, parte desse valor pode ajudar a tornar a compostagem mais barata e competitiva em relação ao descarte tradicional.

“Se eu sou um restaurante e hoje tenho que pagar para levar meu resíduo ao aterro, agora eu posso ter um cashback do dinheiro do carbono”, diz Ian. “Aí fica mais barato fazer compostagem do que mandar para o aterro. Isso causa mudança sistêmica.”

Na prática, o mercado de carbono funcionaria como um mecanismo para empurrar dinheiro para atividades de baixo carbono que ainda não se pagam sozinhas em larga escala.

Rastreabilidade será decisiva

Um dos desafios do mercado brasileiro será garantir que os créditos sejam confiáveis. Para isso, cada etapa da geração do crédito precisa ser registrada, da origem do projeto à venda do ativo, passando por transporte, destinação, tratamento e cálculo da redução de emissões, quando aplicável.

Ian afirma que os créditos terão de ser cada vez mais digitalizados, com plataformas capazes de acompanhar toda a jornada, da criação à venda. Sem esse controle, o risco é repetir problemas que já afetaram o mercado voluntário em outros países, com questionamentos sobre a qualidade e a efetividade de alguns créditos.

“Os créditos vão ter que ser rastreados, ou seja, completamente digitalizados”, afirma. “Os processos vão necessitar de plataformas tecnológicas, da digitalização de toda a jornada da criação do crédito até a venda.”

Além da rastreabilidade, a discussão envolve quais tipos de projeto serão aceitos no mercado regulado brasileiro quando o sistema estiver operacional. Ainda não está claro quais metodologias poderão entrar no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), nem qual será o espaço para créditos gerados fora dos setores diretamente regulados.

Ao mesmo tempo, a produção primária agropecuária ficou fora das obrigações diretas do sistema. A lei que criou o mercado regulado de carbono no país estabelece que essa atividade, assim como bens, benfeitorias e infraestrutura rural diretamente associados a ela, não será considerada fonte ou instalação regulada.

Para Ian, esse desenho reforça a importância de mecanismos voluntários e de metodologias capazes de financiar projetos fora dos setores diretamente cobertos pela regulação.

Essa definição pode influenciar o fluxo de capital nos próximos anos. Como os créditos aceitos em mercados regulados tendem a alcançar preços mais altos do que os negociados no mercado voluntário, a escolha das metodologias e dos setores contemplados pode determinar quais cadeias terão mais acesso a financiamento climático.

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Brasil pode testar antes de 2030

Para Ian, o Brasil não precisa esperar a operação plena do mercado regulado para começar a testar modelos de crédito e rastreabilidade. Uma alternativa seria criar um ambiente experimental, ou sandbox, para que empresas, registradoras, compradores e projetos ambientais possam operar antes de 2030 sob regras acompanhadas pelo poder público.

A ideia seria gerar aprendizado para o mercado e para o regulador, além de destravar financiamento para projetos que já poderiam reduzir emissões no curto prazo.

“Minha grande esperança é que um sandbox seja montado e que a gente não espere até 2030”, afirma Ian. “Se o governo chancelasse metodologias em nível sandbox, as empresas já poderiam estar atuando e isso geraria muito conhecimento para todos os lados.”

O Brasil tem vantagens nesse debate. O país reúne ativos ambientais relevantes, uma economia com grande peso do agronegócio, desafios urbanos de saneamento e resíduos, além de potencial para projetos de floresta, biogás, compostagem e economia circular.

Mas o avanço dependerá de regras claras. Empresas que compram créditos precisam confiar que a redução de emissões é real. Projetos ambientais precisam saber quais metodologias serão aceitas. Investidores precisam entender como o crédito será tratado do ponto de vista regulatório, contábil e tributário.

Enquanto essas definições não chegam, o mercado voluntário segue como principal caminho para financiar projetos fora das grandes empresas. Para o especialista, ele não substitui o mercado regulado, mas pode ajudar o Brasil a começar antes a transformar redução de emissões em investimento, receita e novos modelos de negócio.

“Hoje é o momento de tomar risco. A gente tem que acelerar e fazer de tudo”, diz Ian. “Infelizmente, está todo mundo atrasado e extremamente avesso a risco, que é o oposto do que a gente precisa.”

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