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Tecnologia & Inovação

‘Amor eterno’ entre humanos e robôs: marketing ou futuro da tecnologia?

Publicado 07/07/2026 • 23:00 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Apresentado em Shenzhen, na China, o humanoide foi desenvolvido para conversar, reconhecer emoções e acompanhar a rotina dos usuários.
  • O U1 foi projetado para interagir de forma natural com os usuários.
  • Os preços variam entre ¥ 119,8 mil e ¥ 990 mil.
robôs humanoides

Foto: Unsplash

'Amor eterno' entre humanos e robôs: marketing ou futuro da tecnologia?

A promessa de um robô capaz de oferecer companhia permanente e até “amor eterno” voltou ao centro do debate sobre inteligência artificial após o lançamento do U1 pela empresa chinesa UBTech.

Apresentado em Shenzhen, na China, o humanoide foi desenvolvido para conversar, reconhecer emoções e acompanhar a rotina dos usuários.

A proposta da fabricante é atender principalmente pessoas que vivem sozinhas, levantando discussões sobre os limites entre inovação tecnológica e estratégia de marketing.

Robô aposta na companhia e no apoio emocional

O U1 foi projetado para interagir de forma natural com os usuários. O robô mantém conversas, identifica sinais de estresse e cansaço, lembra horários de medicamentos e aprende hábitos ao longo do tempo para personalizar as respostas.

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Disponível em versões masculina e feminina, o modelo também pode ser personalizado para reproduzir a aparência de familiares, celebridades ou personagens fictícios.

Os preços variam entre ¥ 119,8 mil e ¥ 990 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 91 mil e R$ 753 mil, conforme o nível de customização.

Foto: UBTech

Segundo a fabricante, o equipamento não foi desenvolvido para realizar tarefas domésticas nem para oferecer relações íntimas.

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A empresa também afirma que as informações dos usuários são protegidas por criptografia e não serão utilizadas para treinar sistemas de inteligência artificial.

Vínculo emocional existe, mas apenas do lado humano

Para o professor de inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás, Celso Camilo, é importante diferenciar o sentimento criado pelo usuário da capacidade da máquina de realmente sentir emoções.

“O primeiro ponto é separar vínculo de reciprocidade. O robô pode simular e produzir uma experiência de vínculo para o ser humano, mas isso não significa que ele esteja sentindo algo. A inteligência artificial reconhece padrões e constrói respostas a partir disso. Ela pode parecer atenciosa, carinhosa ou preocupada, mas não há consciência, intenção afetiva ou experiência subjetiva por trás da resposta.”

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Segundo o especialista, o apego pode surgir porque o cérebro humano tende a atribuir emoções e intenções a comportamentos semelhantes aos de uma pessoa.

“O vínculo, nesse caso, é exclusivo do humano. Somos seres treinados biologicamente para atribuir intenção, presença e afeto a vozes, rostos e comportamentos. Quando um robô se parece com uma pessoa, lembra o que falamos, responde no momento certo e simula empatia, ele ativa esses mecanismos. Então, sim, a pessoa pode sentir apego. Mas, tecnicamente, robô não ama, não sente falta e não se importa. Ele simula sinais de afeto com cada vez mais competência.”

Marketing na venda de robôs humanoides

Na avaliação de Celso Camilo, a emoção faz parte da estratégia comercial adotada pelas empresas que desenvolvem esse tipo de tecnologia.

“O apelo emocional é central nesse tipo de produto. Não se vende apenas hardware, sensores, motores ou modelos de linguagem. Vende-se presença. Vende-se companhia. Vende-se a ideia de que a tecnologia pode preencher um espaço que, muitas vezes, é humano: solidão, cuidado, atenção, rotina e escuta.”

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Ele ressalta que os avanços tecnológicos são reais e podem trazer benefícios para diferentes públicos, especialmente pessoas idosas ou que vivem sozinhas.

No entanto, alerta para o uso de mensagens que prometem algo além das capacidades atuais da inteligência artificial.

“Isso não significa que não exista inovação. Existe. Um robô capaz de conversar, identificar sinais de cansaço, lembrar medicamentos e aprender hábitos pode ter valor real, especialmente para idosos ou pessoas que vivem sozinhas. Mas, quando a comunicação passa a falar em amor, vínculo permanente ou companhia incondicional, entramos em outra camada. A tecnologia vira narrativa. E essa narrativa precisa ser analisada com cuidado, porque ela toca fragilidades humanas muito profundas.”

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O que ainda impede relações mais naturais?

Apesar dos avanços na inteligência artificial, o especialista afirma que ainda existem obstáculos importantes para que robôs consigam manter relações realmente naturais durante longos períodos.

“Falta contexto de longo prazo. Uma conversa natural não é apenas responder bem a uma pergunta. É entender história, momento, mudança de humor, contradições, silêncio, ironia, intimidade e limite.”

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Ele acrescenta que os sistemas atuais ainda não possuem compreensão genuína das experiências humanas.

“A I.A avançou muito em linguagem, mas ainda tem dificuldade em sustentar coerência afetiva e social por longos períodos sem cair em repetição, respostas previsíveis ou interpretações equivocadas. Também falta compreensão real do mundo. Um robô pode dizer “eu entendo como você se sente”, mas ele não entende como uma pessoa entende. Ele calcula a resposta mais adequada dentro de um contexto.”

Limites do robô vão além da tecnologia

Celso Camilo afirma que os desafios envolvem software, robótica e questões éticas.

“Há limites nas dimensões lógicas (software), física e ética. A primeira é a melhoria de métodos de inteligência artificial. Modelos atuais ainda podem errar, inventar informações, interpretar mal emoções e responder com excesso de confiança.”

Segundo ele, também há dificuldades relacionadas ao funcionamento dos robôs no ambiente doméstico.

“A segunda é a robótica. Fazer um robô se comportar adequadamente no mundo físico e parecer humano é complexo, apesar de termos evoluído muito. Ser eficaz em uma demonstração é diferente de fazer o robô conviver com segurança dentro de uma casa, lidar com imprevistos, circular entre móveis, reconhecer objetos, entender riscos e operar por longos períodos.”

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Outro ponto destacado é a privacidade.

“A terceira dimensão é a ética e privacidade. Um robô de companhia precisa observar, ouvir e aprender. Isso significa lidar com dados muito sensíveis: rotina, saúde, emoções, conversas, ambiente doméstico e relações familiares. Quanto mais personalizado ele se torna, mais dados ele precisa processar. Portanto, a pergunta não é apenas o que o robô consegue fazer, mas quem controla as informações, como elas são protegidas e quais limites são impostos ao uso desses dados e influências.”

Revolução tecnológica ou promessa publicitária?

Para o professor, a evolução da inteligência artificial e da robótica é inegável, mas a promessa de “amor eterno” deve ser vista com cautela.

“Estamos diante das duas coisas, mas em velocidades diferentes. A revolução tecnológica está no avanço da robótica, da inteligência artificial generativa, da visão computacional, da síntese de voz e da capacidade de personalização. Isso é real e deve transformar várias áreas, da saúde ao cuidado de idosos, da educação ao atendimento personalizado.”

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Ao mesmo tempo, ele considera que o conceito de amor utilizado na divulgação do produto faz parte da estratégia de marketing.

“Mas ‘amor eterno’ é marketing. Amor envolve consciência, vulnerabilidade, escolha, reciprocidade e experiência. Um sistema artificial não possui isso. Ele pode simular disponibilidade permanente, memória afetiva e linguagem emocional, mas não vive a relação. A promessa funciona porque conversa com um desejo humano antigo: não estar sozinho. O risco é confundir apoio tecnológico com substituição da presença humana. A I.A pode ajudar o humano a ser mais humano, mas não deve ser vendida como se fosse humana.”

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Com o avanço da inteligência artificial e da robótica, o desenvolvimento de soluções voltadas à companhia humana deve continuar ampliando o debate sobre os limites, as possibilidades e o papel de cada robô.

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