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Bolsa Família sustenta consumo no curto prazo, mas juros e ajuste fiscal elevam risco de recessão em 2027, avalia economista Nelson Marconi, da FGV

Publicado 17/09/2026 • 21:01 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Reajuste do Bolsa Família pode sustentar o consumo e limitar a desaceleração da economia brasileira no restante de 2026.
  • Nelson Marconi avalia, porém, que a combinação de ajuste fiscal e juros ainda elevados aumenta o risco de recessão no próximo ano.
  • Economista aponta trajetória da dívida pública e despesas com juros entre os principais desafios para o próximo governo.

O reajuste do Bolsa Família deve ajudar a sustentar o consumo e amortecer parte da desaceleração provocada pelos juros no curto prazo, mas esse efeito pode dar lugar a um cenário mais difícil em 2027, quando a combinação entre ajuste fiscal e uma taxa de juros ainda elevada pode levar a economia brasileira à recessão. A avaliação é de Nelson Marconi, economista e coordenador do curso de Administração Pública da FGV, em entrevista nesta quinta-feira (17) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

Esse próprio reajuste do governo e do Bolsa Família vai ajudar um pouco o consumo, pelo menos de bens não duráveis, digamos, de bens de consumo imediato”, afirmou Marconi. Para o economista, os estímulos fiscais e de crédito ainda presentes na economia funcionam como um contraponto ao efeito contracionista da política monetária e devem impedir uma deterioração mais acentuada da atividade neste ano.

Bolsa Família ajuda consumo no curto prazo

Marconi não espera uma mudança brusca no ritmo da economia brasileira até o fim de 2026, embora reconheça que os juros já estejam produzindo efeitos sobre a atividade. Na avaliação dele, o crescimento pode terminar abaixo de projeções mais otimistas, mas sem uma retração expressiva.

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A gente pode, sim, ver um crescimento um pouco menor. Não precisa ser 1,8%, pode ficar aí entre 1,5% e 1,2%”, projetou. Segundo o economista, a diferença entre esses patamares ainda não representaria uma alteração radical no cenário deste ano.

Além do Bolsa Família, programas de crédito e outras medidas adotadas pelo governo continuam injetando recursos na economia, reduzindo parte do impacto provocado pelo custo elevado do dinheiro. “A taxa de juros está mostrando efeito dela, mas tem toda essa questão do lado do gasto compensando”, explicou Marconi.

Ao analisar especificamente a decisão de reajustar o benefício na reta final da campanha eleitoral, Marconi atribuiu à medida uma dimensão fiscal e também política. “Logicamente isso tem impacto fiscal. Do ponto de vista político, ele está pensando de forma muito imediata, a ver que isso vai ter um impacto já na população, na eleição”, avaliou.

O economista reconheceu o efeito positivo do programa sobre a renda das famílias, mas ressaltou que a ampliação dos gastos também aumenta as dificuldades para a reorganização fiscal. “Lógico que melhora a vida, a renda das pessoas, isso é muito importante”, ponderou.

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Bolsa Família ajuda consumo no curto prazo

Se o quadro de 2026 ainda conta com estímulos capazes de amortecer os juros, Marconi vê uma situação potencialmente mais delicada no próximo ano. O risco dependerá sobretudo do tipo de ajuste fiscal adotado pelo próximo governo e da velocidade com que o Banco Central conseguir reduzir a taxa de juros.

Questionado sobre a possibilidade de o crescimento ficar abaixo de 1%, chegar perto de zero ou entrar no terreno negativo em 2027, Marconi respondeu: “Chega, eu acho que chega. Eu acho que sim.”

Se ele realmente for cortar tudo o que está estimulando o nível de atividade agora e não diminuir muito a taxa de juros, […] a gente vai ter, com esse endividamento, um cenário que pode levar para uma recessão, sim, no começo do ano”, alertou o economista.

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Para Marconi, o elevado nível de endividamento torna a economia mais vulnerável à combinação de políticas fiscal e monetária restritivas. O tamanho do impacto dependerá não apenas do volume do ajuste, mas principalmente de sua composição e das despesas atingidas.

Dependendo do tipo de ajuste que o próximo governo fizer do ponto de vista fiscal e aonde que ele for fazer o ajuste, em que tipo de gasto, […] isso pode ter um impacto significativo na economia”, explicou.

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BC ainda pode reduzir juros

A própria desaceleração da atividade abre espaço para que o Banco Central continue reduzindo os juros neste ano, segundo Marconi. Ele não espera, entretanto, uma flexibilização agressiva da política monetária.

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Ele pode chegar até o final do ano a 13,5%, 13,25%”, estimou. Para o economista, a ausência de uma pressão significativa de demanda permite novos cortes, embora a inflação e a dificuldade de convergência para a meta limitem a velocidade desse processo.

Esse comportamento dos juros será decisivo para o cenário de 2027. Caso o próximo governo faça um ajuste fiscal enquanto a política monetária permanecer restritiva, os dois movimentos atuarão simultaneamente para reduzir a demanda e a atividade econômica.

Você vai ter, na verdade, dois componentes […] atuando no sentido de diminuir o nível de atividade: a queda da despesa ou o ajuste fiscal e os juros continuando no patamar relativamente alto”, detalhou Marconi.

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Se esse cenário pintar, vai vir uma recessão aí”, advertiu.

Dívida pública preocupa

Marconi considera que as contas públicas exigem correções, embora rejeite a ideia de uma situação fiscal de descontrole absoluto. Segundo ele, o resultado primário precisa melhorar, mas parte importante do problema está no elevado custo financeiro da dívida.

A conta de despesa com juros continua muito alta”, destacou. Para Marconi, reduzir esse peso deveria fazer parte do processo de reorganização das contas públicas, evitando que todo o esforço recaia sobre cortes capazes de provocar uma contração mais intensa da economia.

Um ajuste fiscal de melhor qualidade poderia diminuir o risco de recessão, segundo o economista. Entre as alternativas mencionadas estão a revisão de benefícios tributários, mudanças na tributação e o controle de despesas que apresentam crescimento elevado.

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Tem uma série de coisas que podem ser feitas para ter um ajuste fiscal de qualidade”, defendeu Marconi.

No médio prazo, a trajetória crescente da dívida pública é apontada por ele como o problema macroeconômico mais preocupante. A pressão vem do resultado primário, mas, segundo Marconi, é ainda maior pelo lado dos juros.

Se a dívida pública continuar subindo dessa forma, a gente vai ter problemas sérios mais para frente”, alertou. Na avaliação do economista, combinar um ajuste fiscal mais equilibrado com a redução dos juros permitiria melhorar as contas públicas sem comprometer de maneira tão intensa o nível de atividade.

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