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Tênis de lã do Obama virou uma empresa de IA e as ações subiram 600% num pregão
Publicado 16/04/2026 • 12:00 | Atualizado há 2 meses
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KEY POINTS
instagram: allbirds_ph
Barack Obama calçando Allbirds
Na tarde de terça-feira (15), um amigo programador me mandou um link da Reuters com uma linha de texto e nenhuma explicação, só um comentário "que loucura". Li o headline com ceticismo e fiquei procurando a pegadinha. O site era mesmo o oficial da agência de notícias, não era primeiro de abril, enfim, fui atrás da história. Não era brincadeira nenhuma. Allbirds
A Allbirds não é conhecida no Brasil, mas lá fora é, e muito. Era a empresa que produzia tênis de lã neozelandesa e que chegou a valer US$ 4 bilhões na bolsa americana. No dia 15 ela havia acabado de anunciar um acordo de US$ 50 milhões para se reinventar como empresa de aluguel de processadores de inteligência artificial. Fui ao site da empresa, li o comunicado oficial, li de novo. Entrei no MarketWatch e vi a ação disparar incríveis 583%, negociando em US$ 16.
Para quem não acompanhou a trajetória, um breve velório.
Leia também: EXCLUSIVO: Brasil lidera IA nas empresas, no vibe-coding e também nos tropeços
A Allbirds nasceu de uma pesquisa da indústria de lã da Nova Zelândia e de um renomado designer britânico chamado Tim Brown, que teve a ideia de fazer um tênis simples, sem logo, com lã merino. O projeto foi ao Kickstarter e atingiu a meta em cinco dias. O que veio depois foi um fenômeno de marca.
O Wool Runner virou o calçado não oficial do Vale do Silício, usado por investidores de risco, fundadores de startups e, com mais visibilidade do que qualquer campanha publicitária poderia comprar, usado por Barack Obama.

Leonardo DiCaprio investiu na empresa. A GQ chegou a publicar uma nota reclamando que alguém da Nike precisava mandar um par de Jordan para o ex-presidente.
Em 2021, a empresa valia perto de US$ 4 bilhões. As ações subiram 90% no primeiro dia de negociação. Era o tipo de história que os jornais de negócios adoram: propósito, sustentabilidade, crescimento, fundadores carismáticos. Tudo no lugar certo.
Depois veio a ressaca.
Entre 2022 e 2025, a receita caiu de US$ 298 milhões para US$ 152 milhões. O mercado perdeu o apetite por crescimento a qualquer custo. As ações despencaram de US$ 28,64 no primeiro dia de pregão para menos de US$ 5 em menos de oito meses. Uma notificação de possível exclusão da Nasdaq chegou em abril de 2024. O cofundador Tim Brown deixou a cochefia. As lojas fecharam. A linha de roupas foi cortada. Em março de 2026, a empresa concordou em vender a marca e todos os ativos de calçados para a American Exchange Group por US$ 39 milhões. Um décimo do que havia levantado só no IPO.
Fim de linha para o tênis de lã.
Aí entra a parte que faz a história virar crônica. A casca jurídica da Allbirds, a entidade listada na Nasdaq sob o ticker $BIRD, permaneceu viva depois da venda da marca. E foi com essa casca que a empresa anunciou, na terça-feira (15), um plano que ninguém na indústria de calçados sonhava, o de virar uma provedora de infraestrutura de inteligência artificial.
O negócio que a agora chamada NewBird AI quer montar funciona da seguinte forma: a empresa captou US$ 50 milhões, vai usar esse dinheiro para comprar processadores de alto desempenho, os mesmos chips que as grandes empresas de tecnologia disputam com unhas e dentes para treinar e rodar modelos de IA, e vai alugar essa capacidade para quem precisa e não consegue fila nos grandes provedores.
É o que o mercado chama de GPU-as-a-Service, ou, em bom português, aluguel de poder computacional por demanda. A data para a votação dos acionistas aprovar ou rejeitar o plano está marcada para 18 de maio.
O problema, e aqui entra a opinião, é que esse mercado já existe e já tem donos muito maiores. Amazon, Microsoft e Google têm data centers espalhados pelo mundo inteiro fazendo exatamente isso, ou seja, a barreira de entrada é altíssima.
Há ainda uma segunda camada de empresas especializadas, as chamadas neoclouds, que cresceram nos últimos dois anos justamente para atender a demanda que os gigantes não conseguem suprir com rapidez suficiente. É um mercado real, com dinheiro real circulando.
A dúvida (?) na cabeça do investidor é o que uma empresa que fabricava tênis tem de diferente para oferecer nessa disputa.
As ações, que fecharam o pregão de segunda-feira (14) fazendo a empresa valer míseros US$ 22 milhões, dispararam mais de 600% um dia depois, seiscentos por cento. Em um dia. Pelo anúncio de uma empresa de tênis que quer alugar processadores.
Em 2017 e 2018, dezenas de empresas moribundas descobriram que bastava adicionar "blockchain" ao nome ou ao prospecto para ver as ações multiplicarem.
Uma fabricante de chá gelado americana virou empresa de blockchain e valorizou 500% em dois dias sem mudar absolutamente nada no seu negócio real. O mercado, naquele momento, não estava comprando a empresa mas estava comprando a palavra.
O que a Allbirds fez no dia 15 seguiu a mesma cartilha, mas desta vez com as iniciais certas para 2026. A diferença, e é honesto reconhecer isso, é que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial é real e só aumenta.
Os data centers estão lotados de verdade e as filas para processadores de alto desempenho existem e atrasam projetos de empresas sérias no mundo inteiro. O diagnóstico do mercado está correto.
Só que reconhecer que o mercado existe não é o mesmo que ter condições de competir nele.
E é aí, que a gente pergunta se uma empresa que até ontem fazia tênis de lã em Auckland tem alguma vantagem real para entrar numa disputa com Amazon e Microsoft.
Obama provavelmente ainda tem o par de Wool Runners em alguma prateleira.
Quem ainda os tem, melhor conserva-los bem, quem sabe não valoriza e vira um item de colecionador no futuro, dando mais retornos que o investimento nas ações.
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