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Parlatório Talks: Seguro pode destravar infraestrutura e reduzir obras paradas no Brasil, diz presidente da Daycoval

Publicado 10/08/2026 • 21:28 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • O mercado de seguros mantém baixa penetração no Brasil e ainda oferece amplo espaço para crescimento, apesar de as reservas das seguradoras já equivalerem a cerca de 16% do PIB.
  • Para Jorge Santana, o seguro pode ter papel decisivo na expansão da infraestrutura brasileira ao garantir a execução de projetos e ampliar a segurança para o investimento privado.
  • Mudanças climáticas e conflitos geopolíticos estão elevando os riscos globais e podem pressionar os preços dos seguros no Brasil diante da capacidade limitada de resseguro disponível ao país.

O mercado de seguros pode assumir um papel mais relevante na expansão da infraestrutura brasileira, principalmente ao oferecer garantias para a execução de obras e reduzir os riscos enfrentados pelo capital privado, avalia Jorge Santana, presidente e cofundador da Daycoval Seguros. O executivo aponta que a baixa penetração do setor no país revela um amplo espaço para crescimento.

Em entrevista nesta segunda-feira (10) ao programa Parlatório Talks, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Santana afirmou que as seguradoras mantêm atualmente mais de R$ 2 trilhões aplicados no mercado para garantir seus compromissos, montante equivalente a aproximadamente 16% do Produto Interno Bruto (PIB). Somente nos cinco primeiros meses deste ano, segundo ele, foram pagos mais de R$ 170 bilhões em indenizações.

Apesar dos números, Santana considera a presença dos seguros na economia brasileira ainda reduzida quando comparada à de outros países.

Nós temos uma penetração de seguros que é quase metade da do Chile e muito inferior à dos mercados desenvolvidos. Isso revela ainda o potencial de crescimento que a gente tem e o potencial de proteção para a sociedade”, afirmou.

Infraestrutura abre espaço para seguros

Um dos principais caminhos para essa expansão está, segundo Santana, nos projetos de infraestrutura. O executivo defende que os seguros podem funcionar como instrumentos de proteção dos investimentos e ajudar a garantir a conclusão das obras.

Ele citou dados do Tribunal de Contas da União (TCU) segundo os quais existem 11 mil obras paradas no país. Na avaliação de Santana, mecanismos como o seguro-garantia podem reduzir os riscos de interrupção dos projetos ao colocar uma seguradora entre contratantes e empresas responsáveis pela execução.

Não tem como ter infraestrutura no país sem uma estrutura e um framework de seguro robusto”, disse.

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O potencial é reforçado pela necessidade de ampliar os investimentos no setor. Santana afirmou que o estoque de infraestrutura brasileiro equivale atualmente a cerca de 36% do PIB, quando deveria atingir pelo menos 60%.

Na avaliação do executivo, o Brasil precisaria investir entre 4% e 5% do PIB em infraestrutura por mais de uma década, em vez dos cerca de 2% atuais, para alcançar uma estrutura competitiva internacionalmente.

Regras ainda dificultam investimentos

Para que o capital privado avance, porém, Santana considera necessária maior previsibilidade regulatória. Segundo ele, o Brasil possui leis importantes para o setor, mas ainda enfrenta dificuldades na regulamentação e aplicação dessas normas.

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O executivo destacou que 84% dos R$ 280 bilhões investidos em infraestrutura no ano passado vieram da iniciativa privada. Para Santana, investidores precisam ter segurança de que contratos serão respeitados e de que haverá mecanismos para assegurar a conclusão de projetos diante de problemas de execução.

As regras ainda não estão claras. Se eu estivesse no governo hoje, daria prioridade absoluta para criar um grupo de trabalho para regulamentar a quantidade de leis boas que a gente tem colocadas hoje no mercado”, afirmou.

Brasil ainda tem grande lacuna de proteção

A baixa cobertura também aparece entre consumidores e empresas. Santana estima que a chamada densidade de seguros no Brasil, medida pelo gasto anual por habitante, esteja em aproximadamente US$ 400 (R$ 2.048), valor cerca de dez vezes inferior ao observado em outros mercados.

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Um exemplo dessa diferença ocorreu nas enchentes do Rio Grande do Sul. Segundo Santana, as perdas econômicas ficaram entre R$ 80 bilhões e R$ 90 bilhões, enquanto as indenizações somaram cerca de R$ 6 bilhões.

Tem um gap que a gente chama de gap de proteção muito grande no Brasil”, afirmou.

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O executivo observa, entretanto, sinais de mudança no comportamento dos consumidores. Nos cinco primeiros meses do ano, o segmento de seguros de danos e vida, excluindo VGBL, movimentou aproximadamente R$ 95 bilhões a R$ 96 bilhões, com crescimento de 6%. O seguro de vida avançou 10% no período.

Daycoval prevê faturamento próximo de R$ 600 milhões

Ao abordar os negócios da Daycoval Seguros, Santana afirmou que a companhia deverá alcançar faturamento próximo de R$ 600 milhões neste ano, depois de registrar em 2025 o melhor resultado de sua história.

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Fundada há dez anos, a seguradora cresceu organicamente e atualmente é, segundo o executivo, a terceira maior do país no segmento de seguro-garantia. A empresa possui cerca de 200 funcionários e atua em todo o território nacional.

Santana disse ainda que a empresa avalia uma expansão internacional na área de resseguros, buscando acessar capacidade adicional fora do Brasil. Atualmente, parte dos riscos assumidos pela companhia no país já é repassada a mercados como Estados Unidos, Londres e Zurique.

IA reduz tempo na análise de riscos

A inteligência artificial também começa a alterar a operação das seguradoras. Na Daycoval, a tecnologia vem sendo utilizada principalmente em análises de risco, crédito, precificação e automação de processos.

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Santana considera, no entanto, que a IA deve funcionar como ferramenta de apoio, e não substituir integralmente a avaliação humana em decisões mais complexas.

Ela reduz brutalmente o tempo. Mas talvez, pela minha experiência de vida, ela tenha que ser usada como alavancador e como informação. Um engine que vai ajudar a tomar decisão, mas a decisão precisa de uma avaliação sênior do ser humano”, afirmou.

Clima pode encarecer seguros

Além da tecnologia, o mercado enfrenta uma mudança estrutural provocada pelo aumento dos eventos climáticos extremos. Segundo Santana, seguradoras e resseguradoras pagam perto de US$ 200 bilhões (R$ 1,024 trilhão) em indenizações relacionadas a catástrofes em todo o mundo.

O Brasil, que historicamente apresentava menor exposição a esse tipo de risco, começa a entrar nesse cenário após episódios como as enchentes no Sul. A consequência, segundo o executivo, pode ser uma reprecificação do resseguro e, posteriormente, dos próprios seguros contratados no país.

O problema é agravado pela disponibilidade de recursos. Santana afirmou que a capacidade financeira de resseguro destinada ao Brasil está aproximadamente no mesmo nível de quatro anos atrás, apesar do crescimento dos riscos.

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O mundo está com muito mais risco, está mais perigoso”, afirmou, citando tanto catástrofes climáticas quanto guerras e conflitos geopolíticos como fatores de pressão sobre o setor.

Envelhecimento exigirá novos modelos

Outra transformação esperada para os próximos anos é o envelhecimento da população brasileira. Santana avalia que o movimento exigirá mudanças nos modelos de avaliação de risco e poderá aumentar a necessidade de produtos voltados a consumidores mais velhos.

Nesse cenário, a tecnologia deverá permitir uma precificação mais individualizada, baseada não apenas na faixa etária, mas também em hábitos, atividades físicas, exames médicos e outros indicadores obtidos com dispositivos digitais.

“Acho que a saída para lidar com isso vai ser tecnológica. Não tenho dúvida”, concluiu.

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