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Entenda como geopolítica amplia peso nas decisões dos bancos centrais

Publicado 19/06/2026 • 15:00 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Conflitos internacionais passaram a influenciar inflação e juros com mais intensidade, segundo José Luiz Niemeyer.
  • Economista afirma que bancos centrais estão cada vez mais atentos a fatores geopolíticos e de segurança internacional.
  • Para o professor, posição estratégica do Brasil como fornecedor de energia e alimentos pode abrir espaço para novos cortes de juros.

A inflação deixou de ser determinada apenas por fatores internos das economias e passou a ser cada vez mais influenciada por questões geopolíticas e de segurança internacional, afirmou o economista e professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, José Luiz Niemeyer. Em entrevista, nesta sexta-feira (19), ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele avaliou que conflitos armados, disputas por recursos naturais e gargalos logísticos estão alterando a forma como os bancos centrais conduzem a política monetária.

Segundo Niemeyer, guerras continuam sendo motivadas pelo controle de territórios e recursos estratégicos, o que acaba afetando diretamente a atividade econômica global. “A guerra continua sendo uma guerra de controle de espaço. É no espaço que tem a água potável, os minerais raros, o petróleo, as terras agricultáveis e a produção. Quando você faz a guerra, você contrai a economia porque diminui a exportação de petróleo, de gás e de produtos alimentícios, que é aquilo que, na ponta, faz aumentar a inflação”, explicou.

Na avaliação do economista, essa nova dinâmica levou os bancos centrais a ampliar o foco de análise. “Os bancos centrais, que sempre se preocuparam muito com questões do mercado financeiro, começam agora a se preocupar mais com questões exógenas. Imagino que estejam cada vez mais investindo em analistas de relações internacionais, segurança internacional e geopolítica”, observou.

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Nova preocupação

Para Niemeyer, a crescente interdependência entre economia e política internacional mudou a forma de interpretar os riscos inflacionários. “Cada vez mais a interdependência global e as agendas de segurança internacional estão influenciando as decisões de aumento ou diminuição de juros dos bancos centrais espalhados pelo mundo”, ressaltou.

O professor destacou que os conflitos recentes reforçaram movimentos iniciados após a pandemia, quando diversos países passaram a priorizar cadeias de suprimentos mais próximas ou alinhadas politicamente.

Segundo ele, o conceito de proximidade geográfica e logística ganhou relevância em um cenário internacional marcado por tensões e incertezas. “Os países estão buscando essa proximidade para evitar entrar num sistema internacional ampliado e com mais tendência ao conflito do que à cooperação”, afirmou.

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Logística estratégica

Ao comentar os impactos das tensões no Oriente Médio e da instabilidade no Estreito de Ormuz, Niemeyer avaliou que questões logísticas passaram a ocupar posição central nas estratégias nacionais.

“A questão logística é fundamental. O Estreito de Ormuz é uma arma de guerra, e o Irã já percebeu isso. Em situações específicas de conflito, pode usar essa posição para pressionar a economia internacional”, afirmou.

O economista defendeu que o Brasil aproveite sua posição geográfica para ampliar a integração logística com o Oceano Pacífico e reduzir dependências de rotas mais congestionadas.

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“Uma saída ligando o Atlântico ao Pacífico levaria toda a produção agrícola do Centro-Oeste para os mercados asiáticos e representaria um grande avanço para a logística internacional brasileira”, observou.

Espaço para cortes

Na avaliação de Niemeyer, a posição do Brasil como fornecedor de energia, alimentos e outros produtos essenciais ajuda a criar condições mais favoráveis para a política monetária doméstica.

“O Brasil cada vez mais é um ofertante de produtos primários e fatores fundamentais para a economia internacional. Energia, alimentos e combustíveis ajudam a distender o sistema e fazem com que o Banco Central possa diminuir um pouco o juro”, afirmou.

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O professor ponderou que a continuidade dos cortes dependerá também do ambiente político interno e das expectativas dos agentes econômicos. Ainda assim, vê condições para novas reduções nos próximos meses.

“O que eu sinto do ponto de vista de médio prazo é que a economia brasileira produz muitos fatores ligados à formação de preços e salários. Tenho a impressão de que, no médio prazo, a gente pode ter outras diminuições”, avaliou.

Segundo Niemeyer, o cenário é diferente em economias mais dependentes de importações, que enfrentam pressão adicional sobre os preços. “Nos outros países aconteceu o inverso, um aumento na expectativa de juros, porque essas economias estão sofrendo diretamente a questão da importação de produtos mais caros”, destacou.

Para o economista, o papel do Brasil na oferta global de alimentos, energia e matérias-primas tende a ganhar relevância nos próximos anos. “A parceria entre Brasil e Estados Unidos é fundamental, porque o Brasil será cada vez mais um fornecedor desses fatores de produção para os Estados Unidos e também para o mercado interno brasileiro”, concluiu.

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