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TIMES | CNBC Parlatório Talks: Autonomia é chave para combater a pobreza, diz Alcione Albanesi, fundadora da Amigos do Bem

Publicado 24/08/2026 • 22:17 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Amigos do Bem atende 150 mil pessoas em 300 povoados e mantém 10 mil crianças em projetos educacionais diariamente no Sertão nordestino.
  • Projeto transformou antigos alunos em professores e profissionais da própria instituição e já contabiliza mais de 700 jovens formados.
  • Alcione Albanesi defende educação, geração de trabalho e autonomia como caminhos para romper ciclos históricos de pobreza e desigualdade no país.

A transformação da pobreza exige educação, geração de trabalho e autonomia, e não apenas assistência às populações vulneráveis, defende Alcione Albanesi, fundadora da ONG Amigos do Bem. Em entrevista ao programa Times CNBC Parlatório Talks, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ela afirmou que a experiência da organização no Sertão nordestino mostra que “miséria tem solução”, desde que a atuação social alcance diferentes dimensões da vida das famílias.

Miséria tem solução, só que precisa realmente ter uma dedicação nessa base de transformação”, afirmou Alcione. Hoje, segundo ela, a Amigos do Bem atua em 300 povoados, alcança 150 mil pessoas e atende diariamente 10 mil crianças, além de manter uma estrutura com 2 mil colaboradores contratados.

A organização trabalha com educação, geração de trabalho e renda, acesso à água, saúde, moradia e segurança alimentar, em uma estrutura que Alcione administra seguindo princípios trazidos de sua trajetória empresarial.

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Indignação deu origem à transformação

A história da Amigos do Bem começou a tomar forma após uma viagem de Alcione ao Sertão nordestino, em 1993. A empresária conta que o contato com a pobreza extrema mudou sua trajetória.

Foram sete dias de indignação que transformaram a minha vida totalmente”, recordou. Na viagem, ela encontrou comunidades sem acesso a energia elétrica, água e alimentação e se surpreendeu com uma realidade que não imaginava existir no Brasil.

Eu não acreditava que aquilo que eu estava vendo fazia parte do nosso país”, afirmou. Para Alcione, porém, a reação à desigualdade precisava produzir consequências concretas. “A indignação tem que vir com a ação”, acrescentou.

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Naquele momento, ela já acumulava uma longa experiência como empreendedora. Começou a trabalhar por conta própria aos 17 anos, quando abriu uma confecção que chegou a ter 80 funcionários, e depois migrou para o setor de materiais elétricos. Em 1992, fez sua primeira viagem à China em busca de lâmpadas para importar ao Brasil.

Eu não desisto, eu não desisto”, disse ao recordar os erros e dificuldades dos primeiros negócios. “Essa coragem que eu tenho de voltar, de enfrentar e fazer novamente, isso me levou a um sucesso.”

Venda de empresa abriu caminho para o terceiro setor

A empresa fundada por Alcione cresceu até alcançar, segundo ela, quase 40% de participação de mercado, superando multinacionais do setor. Paralelamente, a empresária continuou visitando o Sertão e organizando campanhas sociais.

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Durante anos, conciliou a companhia, os quatro filhos, a família e as ações sociais. Até que decidiu vender a empresa para se dedicar ao projeto. “Foi realmente a decisão mais difícil da minha vida, foi vender a minha empresa, líder de mercado”, afirmou.

A escolha, segundo Alcione, representou uma mudança de prioridades. “Foi uma missão de realmente devolver um pouco para a vida, o muito que a vida havia me dado”, contou.

A experiência empresarial, porém, não foi abandonada. Ela passou a ser aplicada na administração da Amigos do Bem, que Alcione define como uma “grande empresa social”.

Educação precisa ser acompanhada de renda

A educação tornou-se a base da atuação, mas Alcione afirma ter percebido que ela não seria suficiente para transformar comunidades onde não havia empresas nem oportunidades de emprego.

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Se não gerar trabalho, você não gera transformação, é o segundo passo”, afirmou. A partir dessa constatação, a organização começou a investir em atividades produtivas, entre elas a plantação de caju e a produção de castanhas.

Segundo Alcione, cada fábrica emprega mais de 250 colaboradores, enquanto uma estrutura automatizada demandaria cerca de 30 pessoas. A escolha por manter uma operação intensiva em mão de obra está diretamente ligada à missão social da instituição.

Nós não fazemos castanha, nós geramos trabalho”, resumiu.

Essa lógica também aparece na defesa de maior participação empresarial no desenvolvimento de regiões pobres. “Para ter autonomia, você tem que ter trabalho, você tem que ter uma renda”, afirmou Alcione.

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Antigos alunos agora comandam transformação

Um dos resultados que mais impressionam Alcione está na formação de uma nova geração dentro das próprias comunidades. Segundo ela, 95% dos professores dos centros de transformação foram crianças atendidas pelo projeto no passado.

A Amigos do Bem já contabiliza mais de 700 jovens formados, que passaram a trabalhar como professores, pedagogos, profissionais administrativos e integrantes da logística da organização no Sertão.

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Todo o nosso projeto, a nossa logística, hoje nós temos todos formados, temos mais de 700 jovens formados e são eles os multiplicadores hoje do mesmo projeto”, afirmou.

Para Alcione, essa mudança demonstra que ciclos históricos podem ser rompidos. “Eles sabem que foram transformados, vêm de uma história secular de miséria e abandono”, disse. A organização também oferece alfabetização aos pais dos estudantes.

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Gestão empresarial e responsabilidade com doações

A estrutura alcançada pela ONG exige, segundo Alcione, processos, auditorias e controles semelhantes aos de uma empresa privada. A diferença é que, no terceiro setor, uma decisão equivocada pode comprometer a confiança de quem financia o projeto.

Quando eu tinha a minha empresa, eu perdi o meu dinheiro numa decisão errada. Hoje, uma decisão errada é a confiança do doador”, afirmou.

Por isso, a empresária afirma cobrar responsabilidade tanto dos funcionários quanto dos voluntários. “O bem tem que ser bem feito, porque nós temos uma responsabilidade de quem confiou em nós essa doação”, destacou.

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Alcione também citou as auditorias realizadas pela EY (Ernst & Young) desde 2016, de forma pro bono. Segundo ela, os trabalhos nunca tiveram ressalvas. “Nós temos que ter transparência”, afirmou. “A gente tem muita preocupação de fazer o bem bem feito, de dar retorno.”

Novo centro atenderá mais de 2 mil crianças

A Amigos do Bem prepara ainda um novo centro de transformação para mais de 2 mil crianças. Segundo Alcione, a região atendida possui mais de oito escolas multisseriadas, nas quais estudantes de diferentes séries dividem a mesma sala e o mesmo professor.

Para ela, levar uma estrutura educacional de maior qualidade a essas áreas exige uma verdadeira “logística empresarial em prol da educação”.

A educação permanece como prioridade da instituição. Alcione afirmou ainda que o projeto já conhece resultados de proficiência que seriam divulgados posteriormente e citou um Ideb de 9,2 para crianças atendidas pela organização.

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A base é a educação e a gente sabe que dá para se ter uma educação de qualidade, se nós conseguimos, com todas as restrições”, afirmou. Ao lado do ensino, ela voltou a colocar a geração de empregos como prioridade: “Nós temos priorizado gerar trabalho para que eles possam ter autossustentabilidade.”

‘Empresas não podem olhar só números’

Para romper o ciclo de desigualdade no Brasil, Alcione defende maior disposição das empresas para investir em regiões onde a logística e outras condições podem reduzir a rentabilidade.

Nós não podemos olhar só números. Porque o Brasil é enorme, com milhões de brasileiros do outro lado”, afirmou. Para ela, empresários precisam considerar também o impacto social de seus investimentos.

Você talvez diminua um pouco o seu lucro numa empresa no Nordeste, mas você estará ajudando na transformação, mudando esse país”, disse. Alcione avalia que a agenda ESG contribuiu para ampliar a atenção das companhias à responsabilidade social.

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A empresária também defendeu uma aproximação maior entre poder público, iniciativa privada e organizações sociais, embora reconheça que ainda existam barreiras nessa relação.

Eu acho que precisa de uma sensibilidade maior dos dois lados para que a gente possa mudar”, afirmou. “Nós tivemos uma oportunidade para estarmos aqui e o que nós temos que fazer é olhar para os outros que não tiveram essa oportunidade e poder levar até eles.”

Livro reúne escolhas, dificuldades e renúncias

A trajetória empresarial e social também deu origem ao livro “Coragem de Transformar, a escolha que mudou tudo”, no qual Alcione relata não apenas os resultados alcançados, mas dificuldades, medos e decisões enfrentados ao longo da vida.

Eu demorei muito para escrever esse livro, mas achei que era o momento de devolver um pouco de todas as experiências”, afirmou. Segundo ela, a obra aborda as dificuldades das decisões, mudanças e renúncias, além de episódios de sua trajetória empresarial.

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Para Alcione, porém, levar métodos empresariais para uma organização social não significa retirar dela sua dimensão humana. “Nós temos que ter competência, nós temos que ter processos, nós temos que ter exigências, mas não podemos esquecer que o social tem que carregar sentimento, tem que carregar amor”, afirmou.

É essa combinação entre gestão e propósito que, segundo ela, precisa orientar o crescimento da organização. “Nós vamos valorizar o dia de hoje e vamos fazer no hoje aquilo que vá além de nós”, concluiu.

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