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Petróleo pode enfrentar novo choque se crise com Irã avançar até 2027

Publicado 19/08/2026 • 18:45 | Atualizado há 53 minutos

KEY POINTS

  • Crise prolongada entre Estados Unidos e Irã pode levar o petróleo a um terceiro choque, com fortes variações de preços entre 2026 e 2027.
  • Reservas estratégicas e menor dependência de petróleo da China ajudaram a conter os preços, mas capacidade de sustentar esse movimento é incerta.
  • Brasil sentiria efeitos principalmente no diesel e na inflação, embora esteja menos vulnerável hoje do que durante os choques do petróleo dos anos 1970.

A crise entre Estados Unidos e Irã pode levar o mercado global a um terceiro choque do petróleo caso não surja uma perspectiva de solução até o fim do ano, avaliou Vinícius Rodrigues, professor de Economia e Relações Internacionais da Faap e FGV. Segundo ele, o enfraquecimento político de Donald Trump após as eleições legislativas americanas pode aumentar ainda mais as incertezas sobre o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz.

Em entrevista nesta quarta-feira (19) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Rodrigues afirmou que considera uma solução diplomática cada vez mais improvável diante da estratégia adotada pelos Estados Unidos. “Trump fez uma série de medidas, tomou uma série de decisões que fazem com que o Irã não tenha o menor incentivo para negociar a sério o retorno ao status quo anterior, que é manter Ormuz aberto”, avaliou.

Na visão do professor, as dúvidas sobre a capacidade americana de solucionar o conflito também começam a ser incorporadas pelos investidores. “Parece que o mercado finalmente está entendendo que esse é o cenário”, afirmou Rodrigues. Segundo ele, uma eventual vitória democrata no Congresso pode enfraquecer Trump e ampliar a pressão sobre o petróleo.

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“Se houver ali uma tomada de poder pelos democratas do Congresso americano, o que é muito provável, pelo menos na Câmara Baixa, acredito que temos grandes chances de enfrentar uma alta no preço do petróleo”, projetou. Para Rodrigues, os agentes econômicos podem concluir que Trump “está enfraquecido” e que uma normalização do fluxo pelo Estreito de Ormuz não ocorrerá no curto ou médio prazo.

Ameaças de Trump dificultam negociação

Rodrigues avalia que as declarações de vitória feitas por Trump têm uma lógica do ponto de vista da negociação, já que demonstrar fraqueza poderia favorecer o adversário. O problema, segundo ele, está na repetição de ameaças que não se concretizam.

“Por um lado, isso é uma atitude que pode ser entendida como racional, porque, se você demonstra fraqueza perante o inimigo, não haveria incentivos claros para avançar numa negociação”, explicou. “Por outro lado, se você faz muitas ameaças, como Trump vem fazendo, nós não temos nenhum incentivo para que o Irã, de fato, sente à mesa para a devida negociação.”

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O professor lembrou que as tentativas realizadas até agora não conseguiram produzir uma solução duradoura. “Todas as negociações até agora fracassaram. Houve lá os 14 pontos, uma trégua que duraria 60 dias, e tudo isso acabou caindo por terra”, ressaltou.

Entre os obstáculos, Rodrigues citou possíveis limitações de munições, o custo elevado de uma operação militar e as próprias contradições políticas internas dos Estados Unidos. “Trump se elegeu prometendo que não mais envolveria os Estados Unidos em guerras distantes”, lembrou. Segundo ele, o conflito tem, ao contrário, prejudicado a economia americana por meio da alta do petróleo, que se espalha para outros setores.

Risco de um terceiro choque do petróleo

A continuidade da crise também pode transformar as dificuldades pontuais de abastecimento em um problema mais amplo. Questionado sobre a possibilidade de uma escassez mundial de combustíveis, Rodrigues respondeu: “Se a crise continuar, sem dúvida.”

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Uma variável fundamental, segundo ele, será a China. Rodrigues destacou que o uso das reservas estratégicas chinesas e a consequente redução das importações ajudaram a impedir uma escalada ainda maior das cotações. “Graças a isso, os preços não aumentaram tanto quanto poderiam. Não chegamos ainda a um choque do petróleo”, explicou.

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A menor dependência chinesa também está relacionada à transformação de setores importantes de sua economia. “A China fez a sua lição de casa na questão climático-ambiental”, disse Rodrigues, citando a redução do uso de veículos a combustão diante da expansão da indústria de carros elétricos.

Esse alívio, porém, pode ter prazo. “Será inesperado se a China continuar a demonstrar essa capacidade de autossuficiência ou de menor dependência do mercado externo que tem sido decisiva para que outros locais não tenham crises contínuas”, ponderou.

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Para Rodrigues, o fim de 2026 pode representar um ponto decisivo. “Todo cuidado é pouco se não houver um acordo de fato até, eu diria, o fim do ano”, afirmou. Caso o conflito continue, o mercado poderá começar a precificar uma crise mais longa.

“As expectativas encaminham-se, infelizmente, para um cenário que pode nos levar a um terceiro choque do petróleo”, alertou. Depois dos choques de 1973 e 1979, Rodrigues considera possível haver “variações bastante elevadas nessa transição de 2026 para 2027” se não houver sinal de uma resolução próxima.

Brasil está menos vulnerável

No caso brasileiro, o principal ponto de fragilidade está no refino e, sobretudo, no diesel, combustível ainda relevante para a matriz de transportes e que depende de importações.

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“A grande dificuldade do Brasil, sem dúvida, é o refino, sobretudo a questão do diesel, que temos aí uma grande importação”, afirmou Rodrigues. Ele lembrou, porém, que os choques dos anos 1970 estimularam o país a avançar na exploração de petróleo, movimento que posteriormente levou ao pré-sal.

Rodrigues também mencionou o potencial da Margem Equatorial, mas ponderou que novas fontes de produção não solucionariam uma crise imediata. “Tudo isso demandaria muito tempo para entrar no mercado, ou seja, no médio e no longo prazo, o Brasil tem capacidade de superar um eventual choque do petróleo.”

No curto prazo, contudo, o país não passaria ileso. Se houver um cenário de Trump enfraquecido, Irã endurecendo as negociações e Estados Unidos sem capacidade prática de encerrar o conflito, “nós vamos ter aí períodos de grande dificuldade”, projetou.

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Ainda assim, Rodrigues considera que o Brasil parte de uma posição melhor do que durante os choques anteriores. “O Brasil, não tenho dúvidas, vai ser afetado, mas não estará entre os países mais afetados por conta desse equilíbrio que foi gerado desde os anos 70, com a redução da importação de petróleo”, avaliou.

Aumentar a capacidade de refino, porém, exige tempo. “É algo que não ocorrerá do dia para a noite”, ressaltou. Por isso, segundo Rodrigues, uma nova escalada do petróleo poderia chegar à economia brasileira com impacto sobre a inflação e ampliar a instabilidade enfrentada pelo governo que assumir o país em 2027.

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