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Capital Sustentável: Reabertura de Ormuz não garante normalização do petróleo, avalia Carlo Pereira

Publicado 12/08/2026 • 21:53 | Atualizado há 49 minutos

KEY POINTS

  • Mesmo com eventual fim do conflito no Oriente Médio, normalização do fluxo de petróleo por Ormuz depende de fatores como seguros, transportadores e capacidade logística.
  • Brasil atravessou o choque energético em posição mais favorável devido à integração entre produção, escoamento e refino, que beneficiou os resultados da Petrobras.
  • Proposta para desconcentrar o mercado brasileiro de gás não resolve gargalos de infraestrutura nem aumenta a disponibilidade do produto, avalia Carlo Pereira.

Mesmo que o conflito no Oriente Médio termine e o Estreito de Ormuz seja reaberto, o fluxo de petróleo pela região não voltará automaticamente à normalidade, segundo Carlo Pereira, notável do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

No quadro Capital Sustentável desta quarta-feira (12), ele avaliou que a recente volatilidade das cotações não reflete toda a complexidade do mercado, já que a recuperação efetiva das exportações pelo estreito depende de fatores como seguros, disponibilidade de transportadores e condições para o trânsito das embarcações. “Mesmo a guerra terminando agora e reabrindo, não significa que a gente vai conseguir ter um trânsito efetivo desse petróleo”, ponderou.

Antes antes do conflito, cerca de 130 a 150 navios por dia transitavam por Ormuz, enquanto atualmente esse movimento está em quatro ou cinco embarcações diárias.

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“A gente não está falando aqui só do transporte no estreito. A gente precisa saber quais são aquelas seguradoras que vão topar fazer esses seguros. A gente tem que saber quem vai topar transportar esse petróleo. Então, a coisa não é tão simples”, explicou Carlo.

Alternativas ajudaram a conter petróleo

Carlo destacou que diferentes mecanismos contribuíram para impedir que as cotações atingissem níveis muito mais elevados durante o conflito. No início da guerra, lembrou, alguns analistas chegaram a projetar o petróleo a US$ 150 (R$ 777) por barril.

Ele chegou a discutir, como provocação, um cenário de US$ 200 (R$ 1.036) por barril. As cotações, entretanto, permaneceram bem abaixo desses níveis.

“Vários mecanismos fizeram com que esse preço não fosse tão longe. O preço, de fato, ficou bem abaixo do que esperavam, o que é muito bom para a economia globalmente”, ressaltou.

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Entre as alternativas utilizadas, Carlo Pereira mencionou o oleoduto da Arábia Saudita e a liberação de estoques por Estados Unidos e Japão. Essas soluções, porém, apresentam limitações.

No caso do gás do Catar, por exemplo, não existe uma rota alternativa semelhante. “Quando a gente fala no gás do Catar, esse não tem portas dos fundos. Não tem por onde escoar”, observou.

Integração favoreceu Brasil durante choque

Para Carlo, o Brasil conseguiu atravessar o choque energético em uma posição mais favorável do que outros grandes produtores justamente pela integração de sua cadeia de petróleo.

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O especialista comparou o país com a Nigéria, que também é grande produtora e exportadora, mas não dispõe da mesma estrutura interna.

“O que valeu para a gente aqui é a integração que a gente tem no petróleo. Então, produzir, conseguir escoar, conseguir produzir os derivados. Isso é uma questão de escolha política que o Brasil fez”, analisou.

Na avaliação dele, essa estrutura ajuda a explicar o desempenho da Petrobras, que encerrou o trimestre com R$ 52,4 bilhões de lucro, exportou 1,2 milhão de barris por dia e reduziu a importação de diesel em 85%.

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“Por isso que a Petrobras, você bem trouxe os números aí, se saiu tão bem”, acrescentou.

Dependência da China exige atenção

A China, maior compradora mundial de petróleo e principal destino do produto brasileiro, também ganhou destaque na análise de Pereira.

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Segundo ele, a redução recente das importações chinesas não decorre apenas do processo estrutural de eletrificação dos transportes. O país também havia ampliado fortemente seus estoques no último ano e passou a utilizá-los durante o período de maior instabilidade.

“No último ano, a China veio estocando muito fortemente. Já tinha ali um estoque muito grande e quase aumentou em 50% no último ano esse estoque”, destacou.

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Pereira citou estimativas de analistas segundo as quais essa estratégia pode ter contribuído para conter o preço internacional do petróleo em até US$ 30 (R$ 155,40) por barril.

Para o Brasil, entretanto, a concentração das exportações no mercado chinês representa um ponto de atenção.

“A gente conseguiu exportar bastante, todos os resultados que a gente viu da Petrobras são muito satisfatórios. No entanto, o que a gente fez foi concentrar muito na China. E concentrar é sempre bastante complicado”, advertiu.

Carlo também lembrou que Brasil e China não possuem um acordo comercial, aspecto que, segundo ele, precisa ser considerado no conjunto da relação econômica entre os dois países.

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Gás Release não resolve gargalos

Ao analisar a consulta aberta pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre o chamado Gás Release, ele avalia que a medida não resolverá o problema dos preços nem aumentará a oferta de gás no Brasil. “Não resolve, não resolve.”

Para ele, o principal problema está na infraestrutura necessária para levar o gás até os consumidores, e não apenas na concentração da comercialização.

O especialista comparou o problema ao curtailment no setor elétrico, quando existe capacidade de geração, mas limitações na infraestrutura impedem que a energia seja transmitida. “O gás aqui não é muito diferente. O que a gente não tem é condição de distribuir esse gás”, explicou.

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Segundo ele, essa limitação também contribui para o elevado nível de reinjeção de gás pela Petrobras em comparação com outras companhias petrolíferas.

Mudança altera vendedor, mas não aumenta oferta

Carlo argumentou que a iniciativa relacionada ao Gás Release está inserida no processo iniciado com a Lei do Gás de 2021, mas considera que a medida, isoladamente, apenas redistribui a participação na comercialização sem atacar os problemas estruturais.

“O que você está fazendo é tirando a margem da Petrobras e jogando essa margem para outros players, que não têm ali um risco do tamanho que a Petrobras tem”, avaliou.

O modelo foi inspirado em experiências europeias, mas dependeria da solução dos gargalos brasileiros para produzir os resultados esperados. “Para que isso funcione, a gente teria que trabalhar os gargalos, de fato, do gás no Brasil. Isso não vai resolver absolutamente nada.”

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Carlo Pereira também citou questões levantadas por Jean Paul Prates, como a necessidade de definição de prazos, preços e respeito aos contratos, elementos que, segundo ele, ainda não aparecem de maneira suficiente nas discussões apresentadas pelo governo.

Para o especialista, o ponto central é que a medida não adiciona oferta ao mercado. “Não vai melhorar o preço do gás e não vai aumentar a disponibilidade do gás. Ou seja, você não tem molécula nova nenhuma. O que você tem só é uma mudança de quem vai vender”, concluiu.

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