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China troca motores de crescimento e indicadores tradicionais perdem força

Publicado 18/08/2026 • 16:23 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Queda dos investimentos em ativos fixos reflete a transição da China para um modelo baseado em tecnologia, inovação e serviços.
  • Exportações chinesas avançaram para setores como chips, robótica, baterias e veículos elétricos, elevando o valor dos produtos vendidos ao exterior.
  • Relação comercial com Brasil tende a resistir às pressões dos Estados Unidos porque decisões privadas seguem rentabilidade e controle de riscos.

A desaceleração dos investimentos na China não representa, por si só, um enfraquecimento estrutural da segunda maior economia do mundo, mas reflete uma transformação do modelo de crescimento do país, segundo Hsia Hua Sheng, professor de Finanças Internacionais da FGV-Eaesp. Para ele, indicadores tradicionalmente associados à expansão chinesa perderam parte da capacidade de retratar uma economia hoje mais apoiada em tecnologia, inovação e serviços.

Em entrevista nesta terça-feira (18) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Sheng afirmou que números como a queda de 6,7% dos investimentos em ativos fixos nos primeiros sete meses do ano seriam muito mais preocupantes uma década atrás. “A economia chinesa saiu daquele modelo de crescimento que é intensivo em ativo fixo, investimento imobiliário e infraestrutura e está indo para desenvolvimento sustentável, de alta tecnologia, de qualidade e com muita inovação”, explicou.

Na avaliação do professor, essa mudança exige que o desempenho do país seja observado por uma combinação diferente de indicadores. “Se fosse 10 anos atrás, 15 anos atrás, esses indicadores ficariam mais preocupantes”, afirmou Sheng, ao argumentar que os dados tradicionais “já não refletem tanto a economia atual da China”.

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Tecnologia ganha espaço nas exportações

Um dos sinais dessa transformação aparece, segundo Sheng, na composição das exportações chinesas. Produtos básicos de eletrônica e bens de consumo vêm perdendo protagonismo para itens de maior conteúdo tecnológico e valor agregado.

Hoje em dia, a pauta de exportação e a produção chinesa estão muito mais voltadas para alta tecnologia”, destacou. Entre os exemplos, Sheng citou chips, robótica, equipamentos industriais e soluções que já incorporam inteligência artificial.

Essa transformação, segundo o professor, ajuda a explicar por que as exportações continuam sustentando uma parcela relevante da atividade mesmo diante da perda de ritmo de indicadores ligados ao modelo econômico anterior. “Por que o valor da exportação está tão alto? Porque hoje a pauta virou. Não é mais aquela linha branca, eletrônica básica, e sim muito mais voltada para produto e serviço de tecnologia”, pontuou.

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Nos últimos anos, essa mudança também passou por segmentos ligados à transição energética. Sheng lembrou que o país ampliou sua presença internacional em “energias renováveis, baterias, carros híbridos e elétricos” e agora avança ainda mais sobre chips e robótica.

Para ele, a incorporação de inteligência artificial à indústria reforça essa nova etapa. “Muitos equipamentos já saem integrados junto com a inteligência artificial, aplicação industrial, todo o ecossistema da China”, explicou. Por isso, acrescentou, indicadores antigos podem mostrar um ritmo menor sem necessariamente capturar o crescimento das novas atividades.

Commodities ainda encontram demanda

Questionado sobre possíveis reflexos da desaceleração chinesa nos preços das commodities exportadas pelo Brasil, Sheng afastou, neste momento, a perspectiva de uma redução relevante da demanda decorrente desses indicadores.

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A economia vai muito bem na China, principalmente porque é uma transição que estamos vendo, saindo do modelo tradicional para um modelo de alta tecnologia inovadora”, afirmou. Na avaliação dele, a atividade permanece “superestável” apesar da transformação de sua composição.

Sheng citou o desempenho econômico no primeiro semestre para sustentar essa avaliação e ressaltou que o crescimento passa cada vez mais por outras atividades. “A renda e o emprego continuam fortes na China, apesar de ter mudado devido ao novo perfil de produção, muito mais voltado para robótica e IA”, disse.

O professor acrescentou que o avanço ocorre especialmente no setor de serviços e que o consumo continua sustentando a procura por produtos importados. “Os chineses continuam consumindo os bens. Por isso, commodities continuam fortes, com bastante demanda”, avaliou.

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Pressão dos EUA acelerou autonomia chinesa

As restrições impostas pelos Estados Unidos à China desde o governo de Joe Biden e intensificadas na disputa econômica com o governo de Donald Trump também tiveram, segundo Sheng, um efeito contrário ao pretendido em algumas áreas: aceleraram a busca chinesa por independência tecnológica.

Eu acho que isso foi uma motivação a mais para a China se tornar autossuficiente e tecnologicamente autônoma de forma mais rápida”, afirmou. Paralelamente, ele considera que a economia mundial caminha para uma estrutura comercial com mais polos e menor dependência de um único país.

Nesse ambiente, Pequim também passou a diversificar mercados e reorganizar suas cadeias. “Com a guerra de tarifas e tudo mais, a China também fez toda a sua reestruturação do comércio internacional e da cadeia produtiva para reduzir o impacto dessas restrições dos Estados Unidos na economia chinesa”, explicou.

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Sheng comparou o movimento à estratégia adotada por outros países para ampliar destinos de exportação. “Hoje o mundo é menos dependente dos Estados Unidos e está mais indo para o multipolar. Por isso, muitos países têm buscado fazer comércio internacional não dependente apenas de um país”, ressaltou.

Investimento substitui parte do comércio tradicional

Mesmo diante das barreiras enfrentadas por empresas chinesas em determinados mercados, Sheng considera que a resposta das companhias tem sido ampliar a presença produtiva em outros países, em vez de depender exclusivamente das exportações.

Os Estados Unidos são apenas um mercado e hoje em dia o mundo está mais multipolar”, afirmou. Segundo ele, outros países não estão apenas importando produtos chineses, mas passando a integrar cadeias de produção de veículos elétricos e híbridos, entre outros setores.

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O Brasil aparece nesse movimento como destino de capital e possível base para operações regionais. “Muitas empresas chinesas vêm investindo, principalmente no automotivo, começando a investir no Brasil para criar sua cadeia produtiva local e usar o Brasil também como uma plataforma de exportação”, explicou.

A mesma estratégia, acrescentou Sheng, pode ser observada na Europa e no Sudeste Asiático. “O comércio não é mais só comércio. Ele vai muito além do comércio, indo para investimento em cadeia produtiva no mundo inteiro”, destacou.

Sobre as tentativas dos Estados Unidos de reduzir a influência chinesa na América Latina, Sheng defendeu que as relações econômicas devem respeitar as decisões soberanas de cada país. “O Brasil, por exemplo, pode escolher com quem ele quer fazer seu comércio e seus investimentos”, afirmou.

Brasil e China devem preservar relação comercial

Na avaliação do professor, pressões políticas de Washington dificilmente seriam suficientes para provocar um afastamento econômico relevante entre Brasil e China, principalmente pela força das relações estabelecidas pelo setor privado.

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Acredito que não, porque hoje o Brasil tem um mercado privado muito forte, muito institucionalizado”, disse Sheng. Para as empresas, acrescentou, os principais critérios permanecem econômicos: “O que conta para o setor privado é rentabilidade e controle de risco”.

O crescimento das relações comerciais, segundo ele, reforça essa resistência a interferências políticas externas. “Se você olhar a transação entre Brasil e China, mesmo Argentina e China, só tem crescido. Isso significa que o mercado está blindado, tem um interesse próprio e é muito institucionalizado frente aos interesses políticos dos Estados Unidos”, concluiu.

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