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A geração do “sempre mais”: por que a internet transformou hábitos em desafios de performance?

Publicado 15/07/2026 • 10:00 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Entre as tendências que mais chamam a atenção dos especialistas está o looksmaxxing, que reúne práticas voltadas para modificar ou aperfeiçoar características físicas.
  • Expressões como booksmaxxing, looksmaxxing, sleepmaxxing e fibermaxxing se espalharam pelas redes sociais.
  • O caminho passa por uma mudança na forma como sucesso e produtividade são encarados.

Foto: canva

A geração do “sempre mais”: por que a internet transformou hábitos em desafios de performance?

A busca por evolução pessoal ganhou uma nova dimensão nas redes sociais em 2026. Hábitos simples, como ler um livro, dormir melhor, praticar exercícios ou cuidar da alimentação, passaram a ser apresentados como metas de alto desempenho dentro da cultura conhecida como “maxxing”.

Impulsionada por vídeos curtos e desafios virais, a tendência transforma atividades cotidianas em indicadores de sucesso e preocupa especialistas em saúde mental, que alertam para os efeitos da cobrança permanente por produtividade e aperfeiçoamento.

Expressões como booksmaxxing, looksmaxxing, sleepmaxxing e fibermaxxing se espalharam pelas redes sociais para representar a ideia de levar diferentes áreas da vida ao máximo desempenho.

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O movimento acompanha o crescimento do mercado global de bem-estar, mas também levanta questionamentos sobre os limites entre autocuidado e pressão por resultados.

Para Fernanda Tochetto, psicóloga e fundadora do Tittanium Club, o problema não está no desejo de evoluir, mas na mudança de propósito por trás dessas práticas.

“A pessoa deixa de fazer algo porque aquilo faz bem e passa a fazer apenas para provar que está evoluindo”, afirma.

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Segundo a especialista, a internet ajudou a transformar a rotina em uma vitrine permanente. Atividades antes vistas como hábitos saudáveis passaram a funcionar como uma espécie de currículo de eficiência, em que até o descanso precisa parecer produtivo.

“Quando o descanso precisa ser produtivo, existe um sinal de alerta. A vida deixa de ser vivida e passa a ser constantemente avaliada”, diz.

Sensação de que nunca é suficiente

Especialistas explicam que a lógica do “sempre mais” pode criar um ciclo difícil de interromper. Em vez de reconhecer as próprias conquistas, muitas pessoas passam imediatamente a buscar um novo objetivo, alimentando uma sensação constante de insuficiência.

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Fernanda afirma que esse comportamento interfere diretamente na forma como o cérebro processa as realizações.

“A pessoa alcança uma meta e, antes mesmo de celebrar, já sente que deveria estar fazendo mais. Isso gera um estado de insatisfação permanente. O cérebro deixa de reconhecer conquistas e passa a funcionar apenas procurando a próxima exigência.”

Na avaliação da psicóloga, outro efeito importante é a perda da identidade. Em vez de estabelecer objetivos compatíveis com seus próprios valores, muitas pessoas passam a copiar hábitos que veem em influenciadores ou figuras consideradas bem-sucedidas.

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“Muitas pessoas deixam de perguntar: ‘o que faz sentido para mim?’ e passam a perguntar ‘o que as pessoas bem-sucedidas estão fazendo?’. Aos poucos, elas começam a viver uma vida baseada em comparação, e não em propósito.”

Ansiedade, burnout e culpa entram na rotina

Embora a cultura da alta performance não seja responsável, sozinha, pelo surgimento de transtornos mentais, ela pode intensificar fatores de risco quando a autoestima passa a depender exclusivamente do desempenho.

Fernanda explica que esse cenário mantém o organismo em estado constante de alerta.

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“Quando uma pessoa acredita que seu valor depende exclusivamente da sua performance, ela entra em um ciclo muito perigoso. O cérebro permanece em estado constante de alerta, como se nunca pudesse relaxar.”

Ela acrescenta que a ansiedade cresce diante do medo de ficar para trás, enquanto o burnout aparece quando a cobrança supera, por muito tempo, a capacidade física e emocional da pessoa. Em alguns casos, mesmo após atingir os objetivos, permanece uma sensação de vazio.

“O que mais me preocupa é que muitas pessoas romantizam esse sofrimento. Elas acreditam que estar exausto é sinal de comprometimento, quando, na verdade, muitas vezes é sinal de desequilíbrio.”

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Quando a aparência se torna um projeto permanente

Entre as tendências que mais chamam a atenção dos especialistas está o looksmaxxing, que reúne práticas voltadas para modificar ou aperfeiçoar características físicas na tentativa de alcançar padrões considerados mais atraentes.

Para Fernanda, cuidar da aparência é saudável, mas transformar o corpo em um projeto sem fim pode fragilizar a autoestima.

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“O problema do looksmaxxing não é cuidar da aparência. Cuidar de si é saudável. A questão é quando a pessoa acredita que só será aceita, admirada ou amada depois da próxima mudança.”

Ela afirma que, nessa lógica, sempre haverá um novo padrão a ser perseguido, tornando difícil desenvolver uma autoestima baseada em fatores internos.

“A autoestima construída apenas sobre aparência é muito frágil, porque depende de fatores externos. A autoestima saudável nasce quando a pessoa reconhece seu valor independentemente da validação que recebe.”

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Como encontrar equilíbrio?

Na avaliação da psicóloga, estabelecer metas e criar hábitos continua sendo importante, desde que elas estejam alinhadas com a realidade e contribuam para uma vida mais saudável.

“Metas precisam servir à sua vida, e não o contrário.” Ela também lembra que a produtividade não deve ser medida apenas pelo número de tarefas realizadas.

“Produtividade também envolve qualidade de vida, clareza, presença e capacidade de sustentar resultados ao longo do tempo.”

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Outro ponto destacado pela especialista é o impacto das redes sociais na comparação constante.

“Estamos vendo recortes da vida das pessoas, não a vida inteira. Comparar o nosso bastidor com o palco dos outros é uma das maiores armadilhas emocionais da atualidade.”

Desafio das próximas gerações

Para Fernanda Tochetto, se a cultura do desempenho ilimitado continuar avançando, as próximas gerações poderão crescer mais preparadas para competir, mas menos preparadas para lidar com frustrações e descansar.

“Eu acredito que corremos o risco de formar uma geração extremamente competente, mas emocionalmente esgotada.”

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Ela afirma que o caminho passa por uma mudança na forma como sucesso e produtividade são encarados.

“Precisamos ensinar que desempenho é importante, mas identidade é mais importante ainda. A produtividade precisa voltar a ser consequência de uma vida equilibrada, e não a única medida de valor de uma pessoa.”

Para a especialista, desenvolver habilidades, buscar crescimento e estabelecer metas são atitudes positivas. O desafio é evitar que o desempenho se torne o único parâmetro para medir o próprio valor.

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Buscar desenvolvimento pessoal pode trazer benefícios nos hábitos, desde que esse processo respeite os próprios limites e não seja guiado apenas pela necessidade de aprovação ou comparação. O desafio é impedir que o autocuidado se transforme em mais uma obrigação dentro da cultura conhecida como “maxxing”.

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